Eu queria morar em Guava Island | JUDAO.com.br

Não necessariamente no país fictício que serve de ambientação geográfica (e no qual a gente meio que já mora, né), mas NO FILME mesmo.

Desde que se descobriu que Rihanna e Donald Glover, aka Childish Gambino, tavam rodando um “projeto secreto” em Cuba, o mundinho da música ficou em polvorosa querendo MUITO saber o que era que estas duas pessoas incríveis tavam fazendo JUNTAS.

No fim, a parada tinha nome e sobrenome: Guava Island, filme dirigido pelo mesmo Hiro Murai do potente clipe-manifesto This Is America, que também dirige a série Atlanta que, por sua vez, tem roteiros de Stephen Glover, mesmo roteirista do filme... que era mesmo um filme. A ser exibido durante o festival de música Coachella e que foi parar também na telinha da Amazon.

Um pequeno filme de apenas 55mins mas que, tal qual This Is America (que, aliás, é referenciado explicitamente ao longo da trama), é imenso em termos de significado. Uma espécie de fábula tropical. Sobre sorrisos no meio do caos. Sobre ser feliz pra emputecer ainda mais quem veste os chapéus vermelhos. Uma pequena pérola pra aquecer seu coração.

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Guava é uma ilha fictícia criada pelos deuses mas esquecida por eles depois que a ambição dos homens tomou conta do lugar, quando a guerra sobrepujou o amor com um olhar ambicioso sobre um pequeno e raro bichinho que tece um tipo muito especial de tecido azul. Guava se tornou, então, uma imensa fábrica na qual se trabalha de segunda a segunda sem parar, fornecendo lindas peças azuis para o mundo, enquanto os cidadãos deste lugar precisam tentar enfrentar a opressão e a ordem com um pouco de caos em forma de sorrisos.

Nesta distopia contemporânea bastante real, Guava podia ser QUALQUER país pobre do mundo. Podia, por exemplo, ser QUALQUER país da América Latina. Guava podia ser o Brasil. Aliás, quem disse que não é?

Mas apesar da realidade tão dura, o colorido, a fotografia, fazem você ficar completamente apaixonado por Guava, por suas praias, por suas pessoas. É tudo lindo, é o brilho na simplicidade das pequenas coisas. E é aí que entra o protagonista da história. O Deni vivido por Glover/Gambino poderia ser tranquilamente um personagem de Ariano Suassuna, um adorável malandro, sorridente e de fala mansa, sempre atrasado, que flui pela vida.

Enquanto o sonho de muita gente, incluindo sua amada Kofi (Rihanna), é fugir de Guava, é encontrar esperança fora dali, no fim ele não quer ir a lugar nenhum. Deni não quer fugir. Ele ama este lugar e estas pessoas e, ao mesmo tempo, acha este lugar um paraíso do qual, infelizmente, as pessoas têm pouco tempo pra desfrutar.

Embora seja conhecido por seus acordes na estação de rádio oficial, tocando e entoando sobre como a empresa de transportes que emprega metade da população (sendo que a outra metade está no imenso ateliê de costura) é maravilhosa, Deni tem um sonho. Tudo que ele quer é tocar pras pessoas. Num festival organizado em segredo, marcado pra um sábado à noite. O que faria, portanto, com que elas não trabalhassem no domingo.

Mas é claro que o ditador do lugar não tá lá muito interessado em que isso aconteça. Na verdade, “isso não é uma opção”

Vejam só, a dupla formada por Glover e RiRi é maravilhosa. A química entre os dois é algo que qualquer diretor de Hollywood amaria ter num casal de protagonistas. Tem uma cena entre eles, diante do mar, na qual Deni sacoleja daquele jeito lindamente desengonçado e despretensioso que virou marca registrada de Glover, que é tão linda e graciosa... Mas este está longe de ser o principal mote de Guava Island, na real.

Porque esta é uma história sobre pequenas pílulas de subversão que a gente pode trazer no nosso dia a dia pra fazer a diferença. Sobre o poder transformador da música, da arte. E sobre como estas são, sim, formas de resistência. Sobre como uma parada como o Carnaval, simplesmente por tomar as ruas com algo sem controle, pura folia e fúria em forma de cores e música, pode ser resistência sim, PRA CARALHO.

“Esta festa é para que todos possam se sentir tão livres quanto conseguirem”, diz Deni, em pleno palco. A mensagem é clara.

Num mundo de blockbusters imensos e barulhentos, shows cacofônicos carregando ondas de hype com explosões, luzes, teorias de fã sem fim e efeitos especiais bilionários, Guava Island segue o caminho inverso e tem a batida acústica simples de um violão tocado com o coração, sentado na areia da praia, leve e sem compromissos. Um conto de fadas sobre aquilo que, no fim, é o que nos resta: os sonhos.

Ver este filme me fez sorrir, me fez chorar, me fez ter vontade de continuar sonhando. Me fez ter vontade de vê-lo todos os dias da minha vida antes de sair pra encarar o mundo lá fora. Não consigo dizer nada além de “obrigado”. Eu realmente tava precisando.