Evangelion: um dos maiores clássicos da animação japonesa dos anos 1990 agora tá aí, pra todo mundo ver | JUDAO.com.br

O anime que virou mania entre os fãs do gênero três décadas atrás finalmente chega de maneira OFICIAL para uma nova geração de fãs

No primeiro volume da edição especial do mangá de Evangelion, o mangaká Yoshiyuki Sadamoto revela que se sentia irresponsável por estar iniciando ali uma história que não sabia como iria terminar. Será que os japoneses que leram aquilo tinha noção da história que estavam começando a explorar?

Pois eis que o Netflix acaba de disponibilizar em seu catálogo a adaptação para anime deste mangá, Neon Genesis Evangelion, um dos maiores clássicos da animação japonesa dos anos 1990. Seja pelo saudoso canal Locomotion (caso seja alguém que tinha muita grana para pagar TV por assinatura na época) ou por fitas piratas em VHS (para os demais mortais), pergunte sobre a animação a qualquer pessoa que tenha acompanhado a série na época do lançamento e, além da marcante música de abertura, provavelmente ele destacará duas coisas: 1) os robôs gigantes e 2) a trama complexa.

É reduzir demais colocar Evangelion apenas nestes dois pontos, mas são bons lugares para começarmos esse texto.

Então, sim, tem uns robozões. Robôs gigantes (ou mechas) estão incrustados na cultura pop japonesa, desde os live actions do tipo metal hero e tokusatsu (Jaspion e Changeman/Flashman, respectivamente) até animações como Gundam e Macross. Para justificar os robôs, a trama do anime se passa em 2015 — que seriam 20 anos no futuro na época do lançamento — num Japão distópico onde adolescentes são os únicos pilotos possíveis para máquinas de guerra gigantes, os Evangelions (ou Evas). Logo no primeiro episódio entendemos quem essas máquinas gigantes têm de enfrentar: criaturas poderosas conhecidas como Anjos (e só isso já é de dar um nó na cabeça).

Em meio aos confrontos, acompanhamos Shinji Ikari, um destes pilotos adolescentes, nos seus primeiros momentos como piloto do Eva-01. Abandonado na infância pelo pai após a morte da mãe, Shinji volta à cidade natal para um momento de reconciliação, mas acaba frustrado quando descobre que seu genitor é o líder dessa resistência contra os anjos e queria apenas que ele pilotasse o Eva-01. Esse conflito entre pai e filho (e o passado por trás dele) é apenas um dos temperos do caldeirão do anime, que tem nas batalhas um pequeno percentual do seu tempo de tela.

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O que não faltam por aí são textões analíticos falando que o próprio uso dos mechas no desenho denota uma crítica dos criadores à falência da sociedade japonesa, utilizando elementos dos mangás e animes, patrimônios nacionais do país. O próprio Hideaki Anno, um dos diretores da série animada, volta e meia faz profecias a respeito do fim da indústria da animação japonesa.

Esse tom pessimista permeia Evangelion do início ao fim, sintetizado principalmente em seu protagonista, que já na década de 1990 protagonizava também memes sobre apatia. Sadamoto revela em uma das edições do mangá que Shinji é inspirado num período de quatro anos de sua vida, quando ele se encontrava em uma situação de bloqueio total. O que não falta na trama, portanto, são questões existencialistas levantadas pelos personagens, todos nitidamente lutando contra traumas psicológicos próprios. E é aí que entramos no SEGUNDO ponto de destaque.

Evangelion, como produto, é um filho de vários pais. Gerada dentro do prestigiado estúdio japonês Gaynax, que tem remanescentes do estúdio Ghibli (de ninguém menos que Hayao Miyazaki), a história foi gerada a várias mãos. Isso talvez explique termos aqui um dos roteiros mais inventivos e também mais complicados já criados em uma animação seriada: uma ficção científica existencialista com elementos da Cabala, do Cristianismo, do Judaísmo e do Xintoísmo.

É a típica história que começa no meio e você se vê dentro de um furacão junto com o protagonista, que cresceu isolado de tudo e representa nossas dúvidas dentro da trama. Uma coisa que é necessária dizer para você que vai encarar o anime pela primeira vez é que a maior parte dos mistérios da trama não será explicada. O anime é aberto a muitas interpretações e isso funciona muito bem na maior parte da narrativa. Mas é importante dizer que nem sempre esse mistério todo, beirando a psicodelia em alguns momentos, é proposital e bem conduzido.

Evangelion teve uma série de problemas de produção, especialmente em seus últimos episódios, o que levou a um final forçado. Como acontece normalmente no Japão, o anime rapidamente alcançou o mangá (que tinha iniciado um ano antes), o que fez com que as duas produções tomassem rumos diferentes, apresentando as visões diferentes de seus criadores. Sabe Game of Thrones? Então...

Aquela história de não ter final que o Sadamoto contou parecia ser BEM real mesmo, já que o mangá só foi encerrado em 2014, 20 anos depois do seu lançamento. Para fins de comparação: o anime original foi exibido durante os anos de 1995 e 1996. Sem a base do mangá e enfrentando problemas financeiros, a série foi encerrada apressadamente com episódios abaixo da altíssima média inicial. Não é preciso ser expert para perceber isso, ainda mais quando em vários episódios você passa loooooooongos minutos numa tela estática e apenas ouvindo os personagens falando.

A maior parte da ação (e ação BOA, diga-se de passagem) está na primeira metade da série. É óbvio que há um sem fim de ideias interessantes para contornar os problemas de produção, como o fato de que os anjos vão tendo suas formas exploradas de forma absurda no decorrer da série, até serem muito mais do que somente monstros gigantes.

Para compensar os “probleminhas” desse final, a série original foi reeditada (versões Rebuild e Renew) e ainda ganhou um longa-metragem resumo (Evangelion: Death (True)²) e outro que finaliza de um modo mais satisfatório o confronto com os anjos (The End of Evangelion), também disponíveis no serviço de streaming (e essa será sua ordem na maratona, com os filmes após a série).

Vale dizer que, desde 2007, está sendo lançada uma tetralogia de longas recontando (mais uma vez) a história da série, em qualidade gráfica superior e com adições na trama. Os três primeiros filmes já foram lançados (mas ainda não estão no Netflix) e o quarto tem previsão de lançamento para o ano que vem no Japão.

Neon Genesis Evangelion é um clássico que envelheceu muito bem. Se tramas cabeçudas são sua praia, você não irá se decepcionar. Boa parte do gostoso de acompanhar algo assim é gastar horas lendo sobre teorias na internet depois...

Afinal, Evangelion é um desses raríssimos casos em que vale a pena se perder nos vídeos de “final explicado”.


Zé Wellington é administrador pela Universidade Estadual Vale do Acaraú, com MBA em marketing pela Faculdade de Tecnologia Darcy Ribeiro. É consultor nas áreas de marketing e redes sociais e professor das disciplinas de Sistemas de Informação Gerenciais e Jogos Empresariais da Faculdade Luciano Feijão. Atuou por oito anos como técnico do Sebrae/CE. Com a banda Sobre o Fim, teve três trabalhos lançados e diversas participações em festivais locais, incluindo a seletiva nordestina da VANS TOUR 2009 e o primeiro lugar no Concurso Bem Vindo ao Clube Empire Records. Nos quadrinhos, é o roteirista de Interludio, indicado ao Troféu HQ MIX 2010 na categoria melhor edição única independente; Quem Matou João Ninguém?, indicado ao Troféu HQ MIX 2015 como Novo Talento Roteirista; Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, vencedor do Troféu HQ MIX 2016 como Novo Talento Roteirista; e Cangaço Overdrive. Tem participado de diversas coletâneas e revistas especializadas em literatura fantástica e quadrinhos. É colaborador e podcaster dos sites Iradex e HQ Sem Roteiro.