Existe absurdo maior do que a busca por normalidade? | Judão

Apagamos gradativamente nossa própria existência

Um dos editores desta NAVE LOUCA, Thiago Cardim, me dá a letra: o tema desta semana é absurdo. Olho em volta e avisto gente olhando monitores; um discretamente tira catota do nariz enquanto vê os gols da rodada e finge que trabalha; já a colega ao lado parece negociar um tratado via Whatsapp.

Tudo bastante normal, até que abro a rede social do Markos Zuckerborga e vejo o borbulhar das emoções. Histeria é a tônica. Alguns se autodiagnosticam com depressão, outros declaram-se abertamente em busca de paz, de amor ou simplesmente de sucesso. Todos, invariavelmente, celebram vitórias contundentes e lamentam derrotas absolutamente passageiras diante de seu poder de recuperação inspirado em memes com frases motivacionais que provavelmente não foram ditas pela pessoa na foto que ilustra a montagem. Cada um à sua maneira viverá para ver a própria vitória.

Descontrole disfarçado de controle. Parece cocaína, mas é só tristeza. Nunca foi tão fácil entender certas sacadas existenciais de alguns compositores, como Renato Russo, por exemplo. Ame ou não o cara em questão, o verdadeiro emprego de um visionário é ser entendido gerações depois da sua, mas esse não é o assunto por aqui.

Pois bem, qual o maior de todos os absurdos concebidos pela malparida espécie humana, senão o da busca pela normalidade? O tempo todo criticamos o outro: ele sim é burro, feio, cheio de ódio, vagabundo, podre e tudo aquilo que você não é, ou, pelo menos, tenta acreditar não ser. Às vezes, essa pessoa que não é a gente acaba sendo tão errada, que é digna de nossa piedade. Daí, oferecemos ajuda, insistimos, forçamos a barra mesmo, tentamos arrastá-la para nosso reduto do comum, do esperado, do seguro, embora a gente mesmo, vez ou outra, não ache esse nosso jeitinho de viver tudo isso, na real.

Quem não conhece a história de um amigo que teve um caso com uma prostituta, às vezes deu uma de malaco pra cima de você, mas no fundo queria “salvar” a mina? E de pessoas que conheceram crianças desamparadas na rua e acabaram levando pra casa sem nem mesmo consultar as autoridades? Manja aquele tipo de amante que aguarda pacientemente o alvo de sua paixão se rebelar contra o namoro ou casamento atual e optar finalmente por onde está sua verdadeira felicidade? E quem já tem bichinho em casa, abriga um desamparado que apareceu por aí e insiste que você adote o PET em questão porque vai ser ótima companhia?

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão e, quando batem, nada melhor para justificar o jeito que você vive do que empurrando seu estilo de vida goela abaixo de outro. É disso que trata Afternoon Delight (de 2013, batizado por aqui de As Delícias da Tarde), primeiro filme de Jill Soloway, diretora, roteirista e criadora da premiada série Transparent, da Amazon. Aparentemente a produção não tem nada de especial, e essa parece ser mesmo a ideia: um post-it emocional sobre o jeito escroto que a maioria de nós leva o pouco tempo que temos nesta Terra que um dia há de nos comer.

Na tela, temos Josh Radnor, o Ted de How I Met Your Mother, no papel de Jeff, um marido noiaba que vive às custas de uma invenção antiga que nem lhe pertence mais; mas quem brilha mesmo é Kathryn Hahn, que faz Rachel, a protagonista, uma esposa largada na marca do escanteio, que tenta acreditar que faz parte de uma comunidade na qual seu sentido de pertencimento é tão nulo, que vai apagando gradativamente a própria existência dela.

Rachel encontra o remédio inesperado para essa quase vida em um puteiro, onde vai para apimentar a relação com o marido, com quem não transa há mais de seis meses. Lá, ela conhece McKenna (Juno Temple), que não pede socorro à moça rica do subúrbio em momento algum, mas que vira alvo de sua sanha por dar algum sentido à realidade vazia em que está afundada.

É óbvio que vai dar merda e não vejo razão para detalhar a cagada que a causa, pois pode configurar crime de spoiler. O filme está no Netflix e você mata essa curiosidade, se é que ela bateu, a hora que preferir. Vai mexer com você, saiba disso, se ainda houver algum senso de autocrítica dentro desse peito de pedra. ;)

Concluo a verborragia com uma frase de outro poeta dos anos 80, que completaria 59 anos na semana passada, e vem bem a calhar com o rumo que esse texto tomou: “Somos iguais em desgraça”. Toca um Cazuza aí, seu Judão. E desce mais uma.