RESENHA! Fahrenheit 451

Filme que estreia na HBO neste sábado (19) poderia ter ampliado questões abordadas no livro de Ray Bradbury, mas ao se perder em pontos básicos da narrativa, acabou com a chance de executar uma história distópica de qualidade

Escrito pelo autor norte-americano Ray Bradbury, Fahrenheit 451 é classificado como uma ficção científica soft, subgênero que prioriza as reações e relacionamentos humanos, deixando as ciências em segundo plano.

Desde o seu lançamento, em 1953, o livro recebeu diversas interpretações sobre os significados da queima dos livros, mas o próprio Bradbury declarou que seu material não é sobre censura, mas sobre como a televisão destrói o interesse das pessoas pela leitura. E, veja só, 65 anos depois, Fahrenheit 451 se transformou em um filme para a televisão.

A trama se passa em um futuro distópico em que livros são banidos sob justificativa de que suas “idéias são perigosas”. Guy Montag (Michael B. Jordan) é um bombeiro que faz parte da equipe que executa a queima de livros pela cidade. Ele e sua equipe são liderados por seu mentor, Capitão Beatty (Michael Shannon), um homem endurecido por seus anos como bombeiro. A vida de Montag vai muito bem, obrigada, até que ele encontra o livro Notas do Subterrâneo, de Dostoiévski, e acaba se aproximando de Clarisse (Sofia Boutella), uma mulher fichada após ser pega com livros.

Continuamente, o filme tem uma estética urbana que nos aproxima dessa realidade por trazer algo muito familiar ao espectador. O uso das redes sociais, a vigilância constante e as sessões de doutrinação escolar são assuntos bastante abordados na cultura pop, como em 1984 e V de Vingança, por exemplo. Como a história nos mostra, as mídias mudam frequentemente, mas as preocupações sobre as alienações que surgem com elas SEMPRE vão existir. Essa é uma característica primordial da ficção científica.

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O que pode ser notado instantaneamente é que o diretor Ramin Bahrani se esforçou bastante para atualizar o tom profético que é constantemente mantido durante Fahrenheit 451. Mesmo se você não conhecer a obra original, a história não será estranha para você.

Ele e o roteirista Amir Naderi apresentam algumas ideias interessantes para uma reformulação necessária do material original, mas nada realmente funciona. Existe uma nova rede social – uma mistura entre Big Brother e Google Home, que substituiu a internet que conhecemos e mantém vigilância sobre as pessoas. Imagine o Facebook como nossa única alternativa para a internet? É ISSO.

A única forma da população conhecer as histórias de alguns livros são os parágrafos condensados – aprovados pelo governo – disponíveis nessa rede social, onde palavras foram trocadas por emojis. O próprio governo é uma mistura entre o nosso sistema convencional e uma enorme corporação de tecnologia.

Mídias tradicionais foram banidas, porém o entretenimento para as massas ainda existe – reality shows são projetados nos prédios das cidades, por exemplo, e qualquer pessoa pode interagir em tempo real com esses programas e os próprios bombeiros são vistos como estrelas por serem os responsáveis por manterem a ordem.

O problema é que Fahrenheit 451 faz uma crítica completamente genérica e NADA sutil sobre os assuntos abordados. A ideia de dominar as massas pela manipulação da história e pelo medo está longe de ser nova, mas o filme não tem paciência para apresentar com calma essa sociedade e essas questões. Em diversos momentos, frases nada discretas são jogadas nos prédios da cidade ou saem da boca dos personagens. Até o “American First” ganhou uma adaptação para “Time to burn for American Again!”.

Fahrenheit 451 passa mais tempo explorando as tecnologias desse mundo do que desenvolvendo seus personagens. Nem os rebeldes ganham a profundidade que merecem e o grande plano final de armazenar a história humana no DNA das pessoas perde o impacto que deveria ter.

Além da história sem vida, que não me fez temer por nada e nem por ninguém, o brilhante elenco não entrega nem de perto o que se esperava deles. Michael Shannon está longe de ser um vilão realmente marcante e assustador, como em A Forma da Água. Michael B. Jordan demonstra um pouco mais de esforço para dar vida à Montag, mas sua rápida transformação de um bombeiro apaixonado para uma ferramenta fundamental para a causa rebelde não é convincente. E Sofia Boutella aparece como aquela personagem feminina misteriosa, que trará conhecimento e terá um envolvimento com o protagonista masculino. E só.

Como se fosse pouco, o filme ainda apresenta algumas incoerências.

Fahrenheit 451 faz uma crítica completamente genérica sobre os assuntos abordados

Logo no início é estabelecido que esse regime existe há muito tempo e o próprio Montag nunca tinha visto um livro ao vivo. Então para que usar livros em uma doutrinação escolar se GERAÇÕES nunca viram um livro? Se boa parte dos livros já foram extintos, por que dar uma aula prática para crianças temerem algo que elas nunca viram? É como você nunca ter visto um chocolate na sua vida e alguém te apresentar o doce e dizer: “Ei! Você não pode comer isso, ok?”

Sem perceber, o filme deixa nas entrelinhas que a guerra contra os livros já foi vencida há muito tempo, porque a população nunca viu o que deve temer.

Outra incoerência está na ideia de compartilhar cultura no DNA das pessoas. Se os rebeldes encontraram uma forma de fazer isso, por que simplesmente não injetam nas pessoas? Pra que criar um plano complexo que depende de outros fatores?

Nessa atualização, Fahrenheit 451 poderia ter ampliado questões abordadas no livro de Bradbury. Ao se perder em pontos básicos da narrativa, acabaram com a chance de executar uma história distópica de qualidade. As ferramentas estavam em suas mãos e a nossa sociedade está constantemente oferecendo situações ainda mais absurdas que poderiam servir de inspiração.

Infelizmente, não foi dessa vez.