Faltou o principal à versão live-action de Rei Leão: emoção. | JUDAO.com.br

O realismo do filme é impressionante e absurdamente bonito, mas acabou tirando do filme o que o fez ser esse clássico do cinema

Quando a Disney resolveu começar a divulgar a versão live-action de O Rei Leão, com pôsteres, imagens e uns vídeos, a primeira discussão que surgiu ao redor das internets era sobre ser ou não live-action, um termo cunhado no século passado pra definir filmes com atores reais de verdade carne e osso.

O Rei Leão, claro, é completamente feito em computadores, tal qual uma animação tipo Toy Story 4 ou Frozen. A diferença é que é impossível chamar AQUILO de animação, já que os animais se parecem DEMAIS com animais reais de verdade carne e osso.

Aqui no JUDAO.com.br ndefinimos no nosso canon que, na falta de uma palavra melhor pra definir o que Jon Favreau e Minnie Mouse fizeram, seria mesmo live-action, já que o realismo é muito grande. A Disney entrou nessa onda também e até o diretor Daniel Rezende, quando foi gravar o ASTERISCO com a gente, afirmou que era a melhor maneira de definir esse filme.

A questão é que se trata de uma adaptação de um desenho animado. Não há qualquer outro material que se possa usar para inspiração, como foi com Mogli: O Menino Lobo e será com A Pequena Sereia e Mulan. O Rei Leão é uma ideia original (eu sei o que você já tá resmungando aqui, mas vamos manter assim mesmo). O resultado?

Um realismo enorme dos animais, absolutamente TODOS eles, da Savana africana, de tudo o que é visto. Um realismo tão grande, enorme, gigante, imenso, que acabou tirando de O Rei Leão o que o fez ser o que é na animação original: a emoção. Falta a Rei Leão o que SOBRA a Mogli – O Menino Lobo, falando em versões live-action de desenhos da Disney dirigidos por Jon Favreau, que é a magia, o coração. Aquelas duas coisinhas que te fazem entrar de cabeça na história, abrir um sorriso e lembrar porque é que você tá naquela sala escura.

O Rei Leão acaba sendo como um enorme documentário do Animal Planet com gente como Beyoncé e Donald Glover recitando diálogos. E isso, gente... Infelizmente tá errado demais.

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Você já assistiu a algum documentário do Animal Planet, não? Ou da BBC, ou da Discovery, enfim. Os caras ficam meses escondidos numas CHOUPANAS que simulam o ambiente natural e conseguem imagens impressionantes sobre a ~vida na selva. Essas imagens, algumas vezes, são transformadas em historinhas. A mãe que recuperou os filhotes, o bicho adoentado e perdido que encontrou novos amigos... E por aí vai. São histórias simples, contadas por um narrador, sobre imagens de animais sendo animais no seu habitat natural.

O que vemos em O Rei Leão é um monte de imagens impressionantes de animais dublados por gente maravilhosa e sensacional, sem que uma coisa se pareça minimamente conectada com a outra. James Earl Jones sendo novamente o Mufasa só parecia o Darth Vader sendo o Mufasa; a Beyoncé emprestando sua voz à Nala, bem, era só a Beyoncé sendo a Beyoncé. O Zazu, gente, só é tão maravilhoso porque é, literalmente, o John Oliver se divertindo. Nada, absolutamente nada além disso.

O Rei Leão é EMBASBACANTE de bonito e tecnologicamente avançado. Não é à toa que a gente chama de live-action algo que não exatamente é. É uma coisa tão absurda que a gente nem sequer consegue descrever de uma maneira que faça um sentido melhor e mais exato. O problema é que, bem, nem a Savana africana tem tantas cores quanto as do filme original, nem animais têm o costume de falar ou expressar muitas emoções faciais — algo mais do que necessário em um filme como esse.

Jon Favreau preferiu seguir por esse caminho e contar com as lembranças do filme original, ao invés de soltar um pouco mais a tal da licença poética, só o suficiente pra que alguns sorrisos fossem esboçados (dentro e fora do filme), pra que os olhos dissessem a mesma coisa que os atores de voz diziam — lembrando que eles falaram tudo aquilo pra absolutamente ninguém, num estúdio. :P

Em comparação com Mogli – O Menino Lobo e até mesmo o MUSICAL do Rei Leão, que é lindo e você deveria assistir quando / se tiver a oportunidade, a impressão que resta é que faltou um pouco mais de humanidade pra essa adaptação. “Ah, mas são bichos” que falam, que cantam, que tem toda uma filosofia de vida. Não tinha como colocar nenhuma pessoa no meio; embora eu curta a ideia, não acho que tirar todos os diálogos e colocar alguém pra narrar (podia ser a Beyoncé, sem problemas) também fosse a solução. Mas talvez fosse o caso de terem feito uma ADAPTAÇÃO de fato, e não só uma transposição.

Se tem alguma coisa que consegue se sobressair a esses problemas, surpreendendo um tal de zero pessoas, são o Timão e Pumba de Billy Eichner e Seth Rogen. Vivendo toda uma vida alternativa, é até natural que não fossem respeitadas todas as regras do DNA de ambos os animais. Atrapalha em algum momento? Sim, especialmente nos closes na cara do Timão e quando você percebe que não se lembra de ver o Pumba abrindo a boca direito; mas o trabalho tanto de Eichner quanto de Rogen é simplesmente MAGNÍFICO e é por isso que roubam a cena.

“Como deveria ser”, alguns vão dizer. E eu até concordo. Mas o filme se chama O Rei Leão, tem toda uma história de um tio QUEER (que no live-action não é exatamente assim) que resolve matar o próprio irmão e botar a culpa no sobrinho pra assumir o trono. E se todos esses personagens não conseguem ser lembrados por outra coisa que não “é a Beyoncé!” ou “é o Donald Glover”...

Acredito que qualquer um que goste de cinema, do VERBO cinema, deva ir assistir à O Rei Leão. Talvez depois de ver Turma da Mônica – Laços e até mesmo Homem-Aranha: Longe de Casa, dependendo da sua idade. Mas é realmente legal e interessante ver, numa tela enorme e muito bem calibrada, a TÉCNICA do filme. O quanto a gente tá evoluindo, tecnologicamente.

Pode ser até que você retorne cantando alguma música, ou querendo saber tanto mais que acabe indo atrás do desenho de 1994. Aí sim O Rei Leão terá feito seu papel mais nobre. Porque, fora isso... Completamente desnecessário, infelizmente.