Blood Machines: fantasmas alienígenas, máquinas e sintetizadores na melhor tradição dos anos 1980 | Judão

Nós conversamos com os franceses do Seth Ickerman, que estão reprisando a parceria com o músico Carpenter Brut e transformando o universo de um clipe no curta sci-fi retrô Blood Machines

Uma SPACE OPERA inspirada no melhor espírito da música e dos filmes dos anos 1980. Ou, talvez, nas palavras deles, “a volta da pegada de caras como Michael Jackson, que levou a estética dos videoclipes próxima ao que melhor se fazia no cinema da época”. Ousado? Um pouco arrogante, até? Pode ser. Mas que ouvir os franceses do duo Seth Ickerman explicarem desta forma o seu ambicioso projeto, o curta Blood Machines: Turbo Killer 2, dá até gosto, isso dá. Em especial quando você descobre onde esta história toda começou. Porque aí dá pra VER de fato o potencial da porra toda.

A dupla, que fala em conjunto mesmo nesta entrevista exclusiva pro JUDÃO e prefere não usar seus nomes verdadeiros, trabalha junta desde... sempre. Dois fanáticos por cinema, em especial de ficção científica e terror, eles viveram o auge da produção clássica (e, bom, até daquela nem tão clássica assim...) dos anos 1980. Seu grande primeiro projeto, que demorou seis anos para ficar pronto e foi concebido na garagem dos seus pais, foi Kaydara, nitidamente inspirada em Matrix e com um visual futurista e repleto de efeitos especiais que chega a impressionar pelo resultado feito com absoluta falta de grana e muita criatividade.

A partir daí, os caras se tornaram uma produtora independente, produzindo (“e dirigindo, e escrevendo, e fazendo efeitos especiais”) por conta própria para clientes como LG, Samsung e Ubisoft. “Somos autodidatas. Fomos, aos poucos, aprendendo a fazer melhor”. Mas, obviamente, sem perder aquele tesão de fã – que os levou a dar uma pausa na produção de seu primeiro longa (Ickerman, sobre um professor nostálgico e viciado em carros antigos e filmes em 35mm em pleno futuro de naves espaciais) para embarcar num projeto VIAJANDÃO: o videoclipe de Turbo Killer. Se ainda não viu, faça este favor a si mesmo, porque além do visual ser lindo, a música é DO GRANDE CARALHO.

“Algumas pessoas dizem que Turbo Killer é uma mistura de Tron com O Bebê de Rosemary”, descrevem eles, orgulhosos. O vídeo, que lhes tomou mais de seis meses de trabalho apenas na confecção dos efeitos especiais, foi feito para ilustrar uma das canções do músico francês Carpenter Brut e, aqui, cabe um parênteses pra falar deste sujeito. Embora se saiba que seu nome real seja Franck Hueso, muito pouco se sabe da vida pessoal deste artista da música eletrônica. Assim como o Daft Punk, ele faz questão de cultivar uma aura de mistério ao seu redor, enquanto solta um EP atrás do outro, com uma sonoridade vibrante e pesada que mistura um electro cheio de sintetizadores com heavy metal e trilhas sonoras de filmes de horror. Não por acaso, no ano passado, ele fez uma turnê pela Europa e pelos EUA ao lado de ninguém menos do que a banda mascarada sueca Ghost. Combinação perfeita.

Mas, enfim: o sucesso de Turbo Killer na MTV europeia e as mais de 2 milhões de visualizações no YouTube fizeram os caras pensarem um bocado sobre o futuro daquilo. Entre os comentários do clipe na internet, um se repetia com frequência e ficava pulando na cara dos diretores: EU QUERO VER UM FILME DESTE NEGÓCIO! “Sempre pensamos Turbo Killer como um segmento de algo maior, o que poderia ser um filme. Dá pra dizer que Blood Machines é outra parte deste filme completo”. Onde eles foram parar? No Kickstarter, claro. Lá, conseguiram mais do que o dobro dos 75.000 euros (o equivalente a cerca de R$ 250.000) originalmente estipulados. Resultado? Até o final do ano, a parada está devidamente finalizada.

Na história, dois caçadores espaciais – o quarentão Vascan, que atua como piloto, e seu parceiro, o sessentão Lago, mecânico experiente – estão perseguindo uma máquina alienígena que está tentando se libertar por conta própria. Mas quando eles conseguem abater a dita cuja em um planeta, presenciam o que parece ser o espírito de uma jovem mulher (Mima, a mesma garota com a cruz invertida na testa de Turbo Killer) sai das ferragens e alça voo, como se a nave tivesse uma alma própria.

Tentando entender o que rolou, eles começam a persegui-la pelo espaço. “Se a relação entre homens e máquinas é um tema clássico da ficção científica, queremos retratar isso com um tom mais poético e fantástico”, explicam eles. “Com o desenvolvimento da inteligência artificial, as máquinas podem ter comportamentos mais complexos. Algumas pessoas até imaginam que as máquinas têm consciência e, talvez, até alma”.

Pra explicar melhor o caminho da história do filme, eles recorrem a uma metáfora saída diretamente do final de Blade Runner. “Quando o replicante Roy Batty morre, ele deixa uma pomba sair voando, como se fosse o símbolo de sua alma partindo. Gostamos de pensar que Blood Machines começa onde Blade Runner terminou. Nossos heróis vão perseguir esta pomba pelos céus, mas logo vão entrar em uma jornada rumo à escuridão – tudo ao som da música demoníaca de Carpenter Brut”.

Além de Blade Runner, os dois citam como referências (embora algumas delas, segundo eles, venham mais inconscientemente) de Ennio Morricone a Pink Floyd, passando pela obra-prima 2001, pelo mangá Space Adventure Cobra e pelos desenhos animados Os Mestres do Tempo (com roteiro de um tal de Moebius) e Ulisses 31, produção franco-japonesa de 1981. Obviamente, uma mistureba que tem bastante música no tempero. “Pra nós, a música é como um ator do filme. Tratamos do mesmo jeito que fazemos com um personagem: desde o roteiro está na nossa cabeça”.

Blood Machines será, mais uma vez, uma parceria com Carpenter Brut, só que agora vai funcionar de um jeito ligeiramente diferente. Em Turbo Killer, tudo que eles tiveram que fazer foi imaginar uma narração em torno da faixa pré-existente do músico, tentando fugir da tentação de apenas ilustrar a canção o que, vejam só, já foi um puta trabalhão.

“Queríamos que cada nota fosse traduzida em imagem. E, por isso, a gente sofreu tanto no processo”, confessam. Só que agora vai ser pau a pau, as duas visões, os dois objetivos e as duas linguagens terão que encontrar um equilíbrio. “Nossas imagens e roteiros influenciam o trampo do Carpenter e nós alimentamos, em troca, a nossa imaginação com as composições dele. Vai ser uma mistura verdadeira de filme e música”.

Para ilustrar o resultado final, eles relembram tanto o desenho animado Heavy Metal (1981) quanto o longa-metragem Interstella 5555, que reuniu os vídeos de todas as músicas do disco Discovery, do Daft Punk, em uma única história com cara de animação japonesa. “Estamos falando de um filme de verdade, com narrativa de cinema, mas com sequências musicais orquestradas por Carpenter Brut. É um projeto híbrido”.

Além de Brut e dos Ickerman, o projeto de Blood Machines ganhou recentemente uma adição de peso, no papel de “produtor executivo”: David Sandberg. Só de nome, assim, você não reconhece bem? Deixa então eu acrescentar aqui duas palavrinhas: Kung Fury. Melhorou, né? ;) O diretor e protagonista do curta se envolveu com Blood Machines não apenas por conta de sua óbvia relação com a estética oitentista, que ele usa em seu próprio filme, mas também por sua experiência com financiamento coletivo. “Ele tem uma imensa comunidade ao seu redor, sempre ansiosa pra descobrir projetos como o nosso. Como o filme dele foi muito bem-sucedido na campanha do Kickstarter, é natural que ele e seu time de colaboradores pudessem nos dar muitas dicas de como financiar o filme”.

Mas os diretores ainda não sabem se, a exemplo de Kung Fury, Blood Machines vai estar inicialmente 100% disponível no YouTube. “Estamos discutindo isso neste momento, sobre distribuição. Mas dá pra dizer, por enquanto, que o clipe musical que será feito a partir do filme, este sim, vai estar na web de graça”.

Na página do Kickstarter, eles deixam ainda uma imensa porta aberta, ao afirmar que “Turbo Killer é a fundação de um universo que Blood Machines vai continuar a explorar”. Logo, os dois caras do Seth Ickerman deixam claríssimo que outros projetos, incluindo plataformas como games e quadrinhos, estão totalmente nos planos. “Mas cada spin-off tem que trazer uma coisa nova pra mesa e, principalmente, ser algo de qualidade muito boa”, explicam. “E para criar algo bom o suficiente, a gente precisa da quantidade certa de dinheiro, além do esforço. Como ainda somos um time pequeno, veremos o que evolui daqui pra frente”.