Os aliens e zumbis que ajudaram a construir a Marvel Comics moderna | Judão

Antes dos super-heróis, a Casa das Ideias teve um outro nome e um foco completamente diferente daquele que você conhece – mas que a influencia até os dias atuais

A fadiga dos super-heróis chegou. Depois de duas décadas florescendo, os encapuzados e mascarados, tirando algumas exceções, caíram no esquecimento. Foi assim que começaram os anos 1950. De alguma forma, após o fim da Segunda Guerra Mundial, a chama dos heróis nos gibis foi diminuindo até que, com a troca de título de Captain America Comics para Captain America’s Weird Tales e, por fim, com o cancelamento da revista na edição 75, de fevereiro de 1950, a Era de Ouro dos Super-Heróis acabou para a pequena Timely Comics.

Martin Goodman, o Publisher, ainda assim não desistiu das HQs. Como o resto do mercado, a editora – liderada pelo primo da esposa dele, um cara chamado Stanley Lieber, que você deve conhecer como Stan Lee – migrou para outros assuntos, com histórias de crime, espionagem, humor, western e até animais fofinhos. Mas havia um segmento que chamava a atenção, com bom destaque e ótimas vendas: o de terror, que marca a Marvel Comics até os dias de hoje.

Quer dizer, naquela época não existia a Marvel, nem o apelido de “Casa das Ideias”. Aliás, nem o nome Timely durou. Após o fim dos super-heróis, Goodman passou a adotar nas capas o logo da Atlas News Company, a empresa de distribuição “do grupo”. Tanto é que esta fase, hoje, é chamada de Atlas Comics pelos fãs de quadrinhos.

Talvez o início dessa transição tenha sido a revista Marvel Mystery Comics. Publicada desde outubro de 1939, inicialmente com o nome de Marvel Comics, aquele foi o primeiro gibi da editora que, inclusive, acabaria servindo de inspiração para o terceiro e definitivo nome dela. No final da década de 1940, a publicação deixou Tocha-Humana e Namor de lado e, a partir do número 93 (de agosto de 1949) passou a se chamar Marvel Tales.

Histórias sobre lobisomens na Hungria, um cientista que faz os mortos voltarem à vida, gatos amaldiçoados na China para se transformarem em mulheres e a rainha do inferno deram às caras em Marvel Tales #93, mostrando exatamente o que estava por vir nos anos seguintes. Era um terrorzão que apostava não só em criaturas sobrenaturais, mas também nos estereótipos dos estrangeiros e na ficção científica.

Nos anos seguintes, a editora renomeou ou lançou títulos como Adventures into Terror, Adventures into Weird Worlds, Amazing Mysteries, Journey into Mystery, Menace, Mystic, Strange Stories of Suspense, Strange Tales, Suspense, Tales to Astonish e Tales of Suspense, entre diversos outros – uns durando menos, outros sendo publicados durante toda a década de 50.

De forma geral, Stan Lee e companhia se renderam à antologia, ou seja, basicamente esses novos títulos publicavam histórias sortidas, quase sem nenhum personagem fixo ou cronologia. Eram, mais do que tudo, histórias para divertir, sem muito compromisso e belas artes, mas com conteúdo freelance pago por valores irrisórios, inundando as bancas com revistinhas baratas – o preço, de 10 cents, era o mesmo desde os anos 1930, ainda na época da Grande Depressão.

Ainda assim, alguns personagens daquela época sobreviveram.

Um deles foi Zombie, uma criação de Lee com Bill Everett. Publicado pela primeira vez em Menace #5, de 1953, a história centrava em um zumbi que vivia nos pântanos da Louisiana e tinha como mestre um tal de Gyps, que ordena que o cara vá até New Orleans roubar dinheiro. O monstro volta de mãos vazias, para a raiva do mestre, que ordena que ele vá até a casa principal na propriedade e ataque a mulher que vive lá – tudo para o próprio Gyps, que é jardineiro no local, salve-a no último instante e ganhe algum bônus com isso.

O monstro ataca a mulher, mas ele não consegue prosseguir. O zumbi então se recorda que um dia ele foi Simon Garth, o dono daquela casa e patrão do jardineiro – e que aquela mulher é a filha dele.

Após a primeira publicação, o personagem ficaria esquecido por anos, até ser revivido por Steve Geber e Pablo Marcos no gibi Tales of the Zombie, de 1973.

Outra criação daquela época surgiu em Tales to Astonish #13 pelas mãos de Lee e Jack Kirby. Nessa história, um cientista vê um objeto caindo do céu e, ao investigar no dia seguinte, viu que havia um alien ali, que tinha absorvido objetos de madeira em seu próprio corpo, se transformando no que parecia ser uma grande árvore. Ele clamava ser o monarca do “Planeta X” e que veio até o nosso planeta pegar um terráqueo para que cientistas de lá pudessem estudar. Obviamente os humanos resistiram à bala, enquanto o alienígena transformou as árvores da floresta em um exército particular.

Eventualmente o tal cientista usou uma praga de insetos para matar o invasor – que, se você ainda não se ligou, se chamava Groot. Sim, esse mesmo que, depois, seria reaproveitado pela Marvel como parte dos Guardiões da Galáxia.

As coisas mudaram a partir de 1954. Naquele ano, o psicólogo Fredric Whertam publicou o controverso livro A Sedução do Inocente, que ligava a delinquência juvenil e a homossexualidade com a proliferação dos gibis. Os títulos de terror foram duramente atingidos pela onda conservadora que se seguiu, com algumas comunidades inclusive promovendo grandes fogueiras coletivas para destruir as publicações. A situação acabou no Congresso e, para se defender, s editoras criaram o Comics Code Authority, chamado aqui no Brasil de Código de Ética dos Quadrinhos.

A censura prévia do próprio mercado, junto com toda a comoção na sociedade, praticamente matou a concorrente EC Comics, que liderava esse filão do terror. Pelos lados da DC, esse movimento serviu para a editora apostar novamente nos super-heróis em larga escala, reintroduzindo o Flash em 1956 e iniciando a Era de Prata dos Quadrinhos.

A Atlas acompanhou esse movimento, claro. Stan Lee tentou retomar os super-heróis algum tempo antes da DC, mas não deu certo. Também abrandaram as HQs da linha de terror e se aprofundaram em outros nichos, como o humor e o crime – inclusive com personagens asiáticos como antagonistas, usando aquela história de “perigo amarelo”. Era, de certa forma, uma tentativa de comer pelas beiradas.

O jogo só foi virar mesmo em novembro de 1961, quando a editora publicou The Fantastic Four #1. Na capa, não se lia mais “Atlas”, mas sim “MC”. No miolo, se via que o gibi fora publicado pela “Canam Publishers”, uma das empresas de Goodman. Pouco importa: 1961 marca o começo da Marvel Comics moderna. As vendas da equipe explodiram, fazendo com que a agora Casa das Ideias focasse de vez nos heróis.

Só que, de alguma forma, aquela fase anterior de zumbis e aliens marcou a editora que estava “nascendo”. Aquelas temáticas, mesmo que misturadas com novos elementos, foram um dos trunfos do sucesso. E não é só isso: por conta de um acordo limitado de distribuição de revistas por mês com a Independent News, que era do mesmo grupo da DC, Stan Lee se viu obrigado a reutilizar títulos da época da Atlas, assim como colocar heróis dividindo a mesma revista.

A partir dali, Journey into Mystery se tornou uma HQ do Thor, Strange Tales passou a se identificar com o Dr. Estranho e Nick Fury; Tales to Astonish se tornou o lar de personagens como Homem-Formiga, Hulk e Namor; Tales of Suspense foi o primeiro gibi do Homem de Ferro e palco para as aventuras do Capitão América pós-retorno; e, por fim, Amazing Fantasy teve em sua derradeira edição o surgimento do Homem-Aranha.

Sim, toda vez que você ler “Amazing Spider-Man” é, mesmo que um pouco, o DNA do terror, dos anos 1950 e da Atlas Comics ali. Quem diria, né?