Fazendo justiça ao baixo do Metallica | Judão

Instrumento, praticamente apagado do clássico …And Justice For All, ganha ares de protagonista em projeto do maluco Rob Scallon

Sabe, teve uma época em que, ao lado de “faxineiro de motel” e “moderador da área de comentários de grandes portais”, uma das profissões mais complicadas do planeta era “baixista do Metallica”. O cargo se tornou tóxico depois de 1986, quando James Hetfield e Lars Ulrich, os homens fortes do grupo, tiveram que superar a morte de seu colega Cliff Burton e encontrar um substituto para seguir em frente.

Burton era um tipo único de músico. Tranquilo, sossegado, apaziguador, era um verdadeiro monstro em seu instrumento, do tipo que trouxe influências diversas para o metal, tornando a sonoridade do Metallica diversificada o suficiente para atingir o seu ápice em Master of Puppets, um dos discos mais importantes da história do thrash metal, do metal, do rock e da música.

Que os outros três integrantes me perdoem, mas Cliff era o músico mais completo da formação. A canção instrumental Orion, uma verdadeira obra de arte sonora, que o diga.

Sua morte trágica e brutal, numa estrada congelada da Suécia, quando foi atirado de seu beliche para fora do ônibus e depois esmagado pelo veículo, deixou marcas para sempre em Hetfield e Ulrich. Quando finalmente escolheram seu sucessor, Jason Newsted, o coitado sentiu na pele todo o peso de substituir um gênio.

jasonnewsted

Jason Newsted, atualmente

Mas não apenas pela pressão – e sim pelas sacanagens. O vocalista e o baterista do grupo sempre fizeram questão de deixar claro quem é que mandava. E qual seria o papel do novato e qual era o dos veteranos.

Em sua autobiografia, Dave Mustaine, o homem por trás do Megadeth e guitarrista original do Metallica, conta que o apelido de Alcoholica, que a banda carregava com bastante orgulho, não era à toa.

Antes de qualquer droga, os caras bebiam pra caralho. Doses cavalares. Mustaine admite que, quando enchia a cara, se tornava um brigão insuportável, ficava corajoso, queria arrumar treta de qualquer jeito. Mas Hetfield e Ulrich não. Eles se tornavam uma dupla de patetas. Cheios de graça, queriam aprontar com todo mundo. Assim que Newsted entrou para a formação, adivinha só quem virou o alvo preferencial?

Começou com a coisa de pegarem táxis sozinhos e deixarem o sujeito para trás – uma piadinha pequena, você poderia dizer. Mas logo avançou para invadir o quarto dele às 4 da matina gritando “levanta daí que é hora de beber!”, arrancar o colchão com o cara ainda deitado e empilhar tudo, mesa, cadeiras, TV, em cima dele. “Eles jogavam minhas roupas, minhas fitas cassetes, meus sapatos, jogavam tudo pela janela”, contou Newsted em entrevista reproduzida no livro Metallica – A Biografia, de Mick Wall. “Espalhavam pasta de dentes por todos os lugares. O que me fez aturar tudo isso foi o fato de que estar no Metallica era ter um sonho virando realidade”. Detalhe: Newsted ficou 14 FUCKING ANOS no Metallica.

Trollagem da pura, trollagem da grossa, trollagem profissional. Batizado de Jason Newkid, o novo baixista era um jovem que, além de ótimo músico, também era fã do Metallica. E foi tratado eternamente como fã. Deu no que deu.

Uma das maiores estripulias da dupla pra cima de Newsted, no entanto, foi justamente aquela que entrou para a história. Sua participação em ...And Justice For All (1988), seu primeiro disco oficial de estúdio como membro do Metallica, foi praticamente apagada. Todo bom fã de rock sabe bem que o principal calcanhar de Aquiles deste álbum, sua maior fraqueza, é o fato do baixo ser praticamente inaudível. O problema, é claro, está no diacho da mixagem final – já que ninguém tem dúvidas de que Newsted deu tudo de si e mais um pouco para mostrar a que veio. Mas, bem, deu ruim.

“No outro dia, um garoto me encontrou na rua e me deu um disco chamado de ...And Jason For All”, conta Newsted, em entrevista ao Loudwire. “O menino disse: ‘cara, isso é pra você, como deveria ter sido’. E ele tinha remixado as faixas de baixo do Justice inteiro”.

Ao longo dos anos, talvez numa tentativa de evitar arrumar confusão com os amigos do Metallica, Newsted, agora em carreira solo, tentou minimizar o episódio. Numa entrevista para o Metal Exiles, por exemplo, disse que tudo aconteceu por conta de sua inexperiência. “Eu entrei no estúdio com um engenheiro assistente e ninguém mais, nenhum outro membro da banda, foi só entrar, plugar e fazer o meu melhor”, conta. “Eu fiz a mesma coisa que tinha feito com o disco do Flotsam and Jetsam [N. do R.: sua banda anterior], gravei minhas partes e fui pra casa. (…) Foi só ‘grave o seu baixo’ e foi isso. Então acabou tudo ficando na mesma frequência, meu baixo e a guitarra de James brigando pela mesma frequência”. Ou seja, na hora da mixagem, não haveria outra possibilidade que não fosse dar mais destaque à guitarra de James, baixando o baixo (com o perdão do trocadilho) do Jason. “Se eu soubesse naquela época o que sei hoje em dia, teria sido diferente, mas tornou-se um álbum clássico do mesmo jeito”, completa o músico. “Eu ficava puto com isso antes, mas isso já faz muito tempo”.

jasonnewsted_03
Uma linda história. Que os próprios integrantes remanescentes do grupo repetem à exaustão – mas que todo mundo que trabalhou ao redor dos caras no projeto nega totalmente. O produtor e engenheiro de som Steve Thompson, responsável pela mixagem das faixas de ...And Justice For All, revela em entrevista à revista Ultimate Guitar que o baixo ter sido derrubado foi ideia de uma única pessoa: Lars Ulrich.

Thompson afirma que tinha finalizado tudo, James aprovou e estava beleza. Logo na sequência, Lars entrou na sala, escutou um tantinho do resultado da mixagem e disse: “desliga isso”. O engenheiro então perguntou qual era o problema. “Lars disse ‘o que aconteceu com o som da minha bateria?’. E eu disse: ‘você tá falando sério?’. Tentamos aumentar o som da bateria de todo jeito. Eu não estava gostando. E aí ele vem com ‘sabe o baixo?’. E eu disse ‘sim, ele destruiu, muito bom’. Lars retrucou ‘quero que você abaixe este som do baixo até a medida em que mal se possa ouvi-lo’. E eu disse ‘você tá brincando, não é?’. Ele não estava. Baixamos e aí ele disse: ‘agora abaixe mais 5 decibéis’. Eu olhei em volta, olhei para o Hetfield e disse ‘Ele tá mesmo falando sério?’. Estava”, conta Thompson.

“Estava tudo lá, mas acho que ele estava procurando por um tipo de sonoridade mais garageira, sem baixo”, especula ele. “Mas o baixo estava incrível; estava perfeito”.

Metallica

Não são raros, na verdade, os casos de quem defenda que o baixo tem pouca importância no rock. Uma grande amiga, cantora de uma banda paulistana de rock independente, contou que certa vez foi convidada para fazer backing vocal durante algumas canções de uma grande banda de pop rock nacional. Em pleno palco, lá pelas tantas, o baixista colou do lado dela e disse: “aí, quer ver só como ninguém dá a mínima bola para o baixista?”. Ela riu. Ele simplesmente parou de tocar por uns 30 segundos. Depois voltou – e aí disse pra ela, ao pé do ouvido: “não falei? Ninguém nem percebeu”.

Verdadeira ou não, a divertida história ilustra um complexo de vira-latas que acomete baixistas desde que o rock passou a atender pelo nome de... rock. “Obrigado aos meus amigos por finalmente lembrarem do meu número de telefone”, brincou John Paul Jones quando o Led Zeppelin recebeu a sua indicação ao Rock and Roll Hall of Fame, em 1995.

Mas, apesar de não estar tão em evidência como a guitarra, que acaba sendo tão protagonista quanto os vocais, o baixo é responsável, ao lado da bateria, por criar a base através toda a música se desenvolve. Pesquisadores da McMaster University, em Hamilton, no Canadá, conduziram recentemente um estudo que comprova que nosso cérebro percebe o ritmo e a harmonia de uma música por meio das notas mais graves – o que significa, na prática, que se o baixista sair do tom, mais pessoas vão perceber e o trabalho estará arruinado.

Pergunte para sujeitos como Flea (Red Hot Chili Peppers), Paul McCartney (Beatles), Gene Simmons (Kiss), Geddy Lee (Rush), Nikki Sixx (Mötley Crüe) e Steve Harris (Iron Maiden) o que eles acham desta história e, acredito, eles vão concordar com a tal da pesquisa. O que dirá, então, do finado e genial Jaco Pastorius, um verdadeiro virtuoso do baixo, ao ter argumentos científicos pra esfregar na cara de qualquer Yngwie Malmsteen da vida.

Rob Scallon é outro que parece compartilhar desta visão.

Multiinstrumentista, Scallon é velho conhecido na web por quem curte música pesada – ficou famoso ao gravar uma série de impressionantes vídeos nos quais interpreta, com ares de caipira norte-americano, canções do Slayer num banjo e num ukulele. E quando o sujeito resolve tocar um típico heavy metal usando uma guitarra de apenas... UMA CORDA? Sim, isso é possível. E sim, é impressionante.

Na real, ele já tinha feito uma releitura do Metallica ao interpretar no baixo (ah, a ironia) a faixa instrumental Anesthesia (Pulling Teeth), do disco de estreia Kill ’em All. E um vídeo de tirar o fôlego, hypado nas redes sociais, no qual toca Enter Sandman toda ao contrário. Mas o último de uma série de vídeos que ele produziu em homenagem a James, Lars, Kirk e toda a trupe, fez justiça justamente ao instrumento desaparecido em ...And Justice For All. No vídeo apropriadamente batizado de ...And Justice For Bass, ele toca trechos de todas as músicas do disco apenas no baixo. Claro, né.

Ele usa um baixo elétrico, um pequenino u-bass e até mesmo um contrabaixo acústico, branco, lindíssimo, pra fazer um trabalho que soa tão pesado e brutal quanto o original. Ou seja... bom, acho que rolou um erro de cálculo aí para um certo dinamarquês baixinho que paga uma de baterista, não é mesmo? One fica simplesmente de chorar. E escute o que ele faz com Eye of The Beholder, Lars, seu miserável, por favor! ;)

Aqui, o que não falta é baixo. E se reclamar, cara, vai ter mais baixo ainda. De todas as formas, tamanhos e timbres. “Acabei fazendo este vídeo depois de receber uma porrada de mensagens via redes sociais de fãs me pedindo para fazer justiça ao baixo de ...And Justice For All”, explica Scallon.

Fala sério, senhores James e Lars. Duvido, honestamente, que os dois tivessem culhões de sacanear tanto assim o seu novo baixista se ele tivesse sido Hulk Hogan – sabe, o loirão que pratica luta livre? Pois é. Ele também é músico ainda e fã declarado do Metallica. Chegou até a mandar uma fita sua tocando para os empresários da banda, em busca da vaga. Mas jamais chegou a receber uma resposta.

É, acho que agora entendemos o motivo: receio de levarem um atomic leg drop na fuça. Até eu teria. :D