"Quem controla a cultura, controla a narrativa. E quem controla a narrativa, controla a história" | JUDAO.com.br

Enquanto você fica aí pensando se consegue explicar onde diabos existe qualquer traço de ativismo num filme como a cinebiografia da ex-garota de programa Raquel Pacheco, a gente te conta qual o destino da Ancine

Tava até meio óbvio pra qualquer um que estivesse minimamente interessado em prestar atenção: começou com a prometida extinção do Ministério da Cultura, que teve suas atribuições incorporadas ao recém-criado Ministério da Cidadania. Isso, claro, vindo de um governo que representa de maneira bastante VOCAL uma fatia da população que diz aos quatro ventos que odeia a tal da Lei Rouanet (mas nem sequer se esforça para tentar entender como ela funciona).

São os mesmos digníssimos representantes políticos que passaram o facão no patrocínio de 13 projetos culturais que a Petrobras apoiava historicamente, tipo Festival do Rio, Mostra de Cinema de São Paulo, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e Anima Mundi. Quem trabalha com o mercado audiovisual já imaginava qual seria o próximo alvo: a Agência Nacional do Cinema, a popular Ancine.

Quem curte cinema brasileiro já está mais do que familiarizado com a logomarca da Ancine, estampada inevitavelmente naquela tela preta inicial antes de praticamente todos os filmes produzidos por aqui. Estamos falando de um órgão criado em 2001, vinculado ao Ministério da Cultura, cujo objetivo é “fomentar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica nacional”. Uma de suas principais funções, ligada justamente ao verbo “fomentar”, é ajudar no incentivo à Sétima Arte por aqui, por meio de mecanismo de renúncia fiscal para a produção de obras audiovisuais.

Depois do governo anunciar que o Conselho Superior do Cinema — órgão colegiado composto por representantes de diversos setores da indústria audiovisual nacional, por representantes da sociedade civil e por técnicos e dirigentes governamentais, que tem como um dos principais objetivos o estímulo à presença do conteúdo brasileiro nos diversos segmentos de mercado — será oficialmente parte da Casa Civil, saindo do Ministério da Cidadania, a jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, afirmou que o presidente do país estaria pensando em extinguir a Ancine ou, quem sabe, transferi-la para a Secretaria de Comunicação (Secom), dentro do Ministério da Cidadania.

Um dos motivos? Além de uma ~preocupação com a “disputa de cargos dentro da área da cultura”, ele teria sido apresentado a projetos aprovados pela Ancine e que seriam “absurdos”, tal qual o reality show Born to Fashion, que será exibido no segundo semestre pelo canal E! e que terá o objetivo de revelar... estão preparados?... modelos trans.

Entendeu onde está, DE FATO, a tal preocupação?

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

Mas o real destino da Ancine seria revelado oficialmente nesta quinta (18), durante cerimônia em comemoração aos 200 dias de governo, lá em Brasília. Foi lá que o presidente da República afirmou que tem interesse em mudar a sede da Ancine do Rio de Janeiro para a capital federal — o que é, obviamente, parte de uma movimentação clara para acompanhar (e de alguma forma controlar) mais de perto a política nacional do audiovisual.

O Ministro da Cidadania, Osmar Terra, no entanto, garantiu que o órgão não muda para a Casa Civil — da qual fez parte brevemente quando foi criado — e continua sob sua tutela. “Pela lei, a direção da Ancine deveria ser aqui (Brasília)”, disse, em entrevista ao jornal O Globo. “Ela estava de forma inadequada no Rio de Janeiro. Vamos fazer um mutirão na área de cinema. Estamos com um cinema que não tem público. Gasta-se muito dinheiro e não tem público”.

Turma da Mônica – Laços, que acaba de completar 1,5 milhão de espectadores, mandou um abraço.

Para reforçar sua posição, no entanto, o presidente defendeu sua escolha para evitar algo que ele chama de ativismo. “Agora há pouco, o Osmar Terra e eu fomos para um canto e nos acertamos. Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir, em respeito às famílias”.

Enquanto você fica aí pensando se consegue me explicar onde diabos existe qualquer traço de ativismo num filme como a cinebiografia da ex-garota de programa Raquel Pacheco, o Palácio do Planalto reforçou que a transferência do Conselho Superior de Cinema visa “fortalecer a articulação e fomentar políticas públicas necessárias à implantação de empreendimentos estratégicos para a área”.

Curiosamente, é bom lembrar, os tais cineastas com aspirações “ativistas” aos quais o presidente se refere vinham sistematicamente reclamando justamente das dificuldades de superar a burocracia para fazer certos projetos culturais acontecerem. Além disso, conforme nós noticiamos aqui mesmo, começaram a surgir iniciativas como um edital vindo do programa de fomento do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) que distribuiu polpudos R$ 150 milhões a projetos de longa-metragem avaliando diretores, produtoras e distribuidoras com base no tal do êxito comercial.

Quem lançou menos filmes (como, talvez, um diretor iniciante?) ou quem não foi um verdadeiro sucesso de bilheteria, tem nota baixa e, portanto, tem direito a pouca grana. Justo pra caramba, né?

Se já tinha cada vez menos gente tendo chance de mostrar o seu trabalho, de sair desta fábrica de fazer moldes, um filme da Globo Filmes com o Leandro Hassum atrás do outro, imagina AGORA? Os independentes com boas histórias pra contar, com boas ideias para fazer algo diferente, único, provocativo, com assinatura, o tal do fora da caixa que os marketeiros amam colocar nas suas apresentações, estão fadados a ficarem pra trás, sem grana e sem estrutura para tentar captar alguma grana. Quem vai ter chance de contar com o fomento são os de sempre, os cidadãos de bem já bem cheios da grana que fazem as comédias inócuas “para a família” (mas família de quem mesmo?).

Na época da faculdade, uma professora maravilhosa sempre repetia pra gente que “quem controla a cultura, controla a narrativa. E quem controla a narrativa, controla a história”.

Já começou.