Sing: Fiuk e Sandy só dublam, mas também deviam cantar | Judão

Conversamos com os dois dubladores famosos da animação que, ao misturar música e humor, acaba devendo bastante nos dois lados

Talvez uma das maiores reclamações a respeito de grandes animações gringas quando são lançadas aqui no Brasil, a presença de dubladores famosos está muito longe de ser um dos problemas de Sing: Quem Canta Seus Males Espanta. Na verdade, e você pode até achar surpreendente, a atuação dos atores-cantores Fiuk e Sandy, por exemplo, acaba funcionando como uma espécie de cereja no bolo, ajudando você a esquecer momentaneamente que a trama é daquelas de superação beeeeeeeeeem genéricas e que os momentos The American Factor Idol que tanto divertem nos trailers duram uns 8 minutos de projeção.

Chego a pensar que a presença dos ilustres convidados especiais possivelmente pudesse ficar ainda mais saborosa se eles, de fato, cantassem no filme, coisa que não acontece. “Nem me fala! Eu cheguei e já tava tudo certo. Acho que fui um dos últimos a dublar. Mas óbvio, não teve jeito”, conta Fiuk, que dá voz ao gorila Johnny, em entrevista ao JUDÃO. “Ainda cheguei a pedir, ‘e aí, gente, não vai dar pra cantar nada?’, mas já era tarde demais”. Sandy, dubladora da tímida elefanta Meena, explica ainda que a decisão acabou acontecendo porque são músicas de outros artistas, já conhecidas, e pela questão dos direitos autorais eles iam acabaram mantendo as vozes originais. “Se fosse pra cantar, eu ia amar”, confessa.

Foram vááááááários os momentos em que cabia deixar a faixa original de lado pra encaixar os brasileiros soltando a voz. Quando Johnny se empolga e cantarola no beco, esperando o papai bandido voltar com o produto de um roubo, qualquer boa música pop nacional funcionaria bem ali, por exemplo. Ou mesmo, vamos lá, o “parabéns pra você” que Meena canta pro avô e que acabou saindo como “happy birthday to you” e me deu um pouquinho de vergonha alheia, até. Era o caso de usar as músicas menos como NÚMEROS MUSICAIS e mais como algo que pudesse se integrar de fato à trama.

Ainda cheguei a pedir (...) mas já era tarde demais. Se fosse pra cantar, eu ia amar

No fim das contas, a única que canta é justamente Wanessa Camargo, cuja personagem acaba fazendo uma canção-original, devidamente traduzida para o português (e que não é lá a coisa mais empolgante do mundo, numa espécie de Avril Lavigne style). Mas, mesmo assim, tanto Sandy quanto Fiuk admitem que seus anos de experiência no mundo musical ajudaram muito na hora de dublar. “A minha timidez sempre me deixou com a fala meio assim, pra dentro, fechada. E cantar tem um monte de exercícios pra voz, estes BRRRRRRRRR que a gente faz com os lábios, e que quando você vai falar, também ajuda”, explica o cantor. “A dicção melhora, o som fica mais alto, mais audível, então ajudou muito na hora de colocar a voz”.

Segundo a filha do Xororó (ou irmã do Junior, como queira), outra coisa que ajudou bastante foi a noção de ritmo. “Porque, como temos que encaixar a voz na fala da personagem que já está pronta, na movimentação da boca dela, eu decorava o ritmo da fala original e conseguia fazer em cima, muito parecido. E acabou que quase não precisamos de recursos tecnológicos pra ajustar a fala”. Por falar em voz original, a Sandy diz que ouviu muito pouco do trabalho da dubladora original, a também cantora pop Tori Kelly, que se tornou conhecida nos EUA depois de começar a postar seus vídeos no YouTube, aos 14 anos. “Na hora que eu ia fazer a minha dublagem, eu tinha que silenciar ela no fone porque senão ia me atrapalhar. Eu acabava até pegando um pouco da entonação do inglês, que é totalmente diferente do português, da melodia da nossa fala”.

Para o herdeiro de Fabio Jr (BEIJO FABIÃO!), no entanto, ouvir a voz original de Taron Egerton (o protagonista de Kingsman, caso não esteja ligando o nome à pessoa) foi fundamental para o processo, por mais que a produção de dublagem brasileira não quisesse que ele se baseasse demais e entregasse algo tão diferente de seu próprio tom. “Eu precisei ouvir porque não queria fazer uma coisa completamente diferente, né. Queria dar uma continuação no que eles pensaram pro personagem, queria entregar a mesma coisa que eles entregaram lá fora. E acho que eu consegui”, analisa. “Não ficou igual, mas acho que eu consegui não deixar tão longe do tom original”.

No caso da dupla, não dá pra esquecer que ambos já tiveram seus trabalhos como atores – Fiuk deu as caras em Malhação entre 2009 e 2010 e já fez novelas como a nova versão de Guerra dos Sexos e Geração Brasil, enquanto a Sandy, vá, você lembra que teve até série de TV e estrelou filmes como o cláááááááássico Acquária e Quando Eu Era Vivo (puta filme, vejam MESMO). Goste você ou não, portanto, eles TAMBÉM são atores, além de músicos.

E nesta experiência inaugural de dublagem para ambos (Fiuk chegou a experimentar alguns episódios da série animada Larry e os Sinistros, do canal Gloob, mas segundo ele, “não deu certo o que era pra dar”), eles sentiram a diferença do tipo de interpretação que tinham que dar sem fazer uso do olhar ou dos movimentos corporais, por exemplo.

“Quando começou, eu não sabia direito se era atuar ou se não era, achei inicialmente que era só colocar a voz ali, encaixar direitinho e tudo bem”, confessa Fiuk. “Quando você tá atuando, é o teu corpo, teu movimento, você pega o personagem e coloca aqui dentro, no peito. Acho que dublar é fazer o contrário, é pegar você e encaixar dentro do ser que tá ali na tela. Teve momentos ali em que eu senti uma magia diferente pra mim, porque eu tava tão no meio da cena, tão empolgado que, quando acabava, me dava um branco, ôpa, espera aí, tô aqui dentro do estúdio, dublando”, brinca.

Com um jeito visivelmente mais tímido e contido, Sandy conta que acabou se acostumando a uma forma mais natural de atuar, mais sutil, falando menos e sugerindo mais. “Tá tudo no olho, tudo que você faz, por menor que seja, já imprime aquilo que você quer passar”. Mas, na dublagem, ela acabou tendo que ser mais teatral, mais exagerada na hora de falar as coisas. “Apesar, claro, de eu ser bem expressiva pra falar, eu mexo muito os braços, mas às vezes não era o suficiente. Eu tinha que ser um pouco mais caricata”.

O seu companheiro de filme também entrou nesta onda e por vezes se pegava até gritando mais do que devia. Aí, surgia nos fones a voz do diretor de dublagem dizendo ‘calma, cara, pega leve’. Ele morria de vergonha (“tinha vontade de enfiar a cabeça na terra”) mas não perdia a empolgação. “Quando eu via, lá estava respondendo pro meu pai do filme ali, sofrendo, mexendo o corpo junto, e aí eu escutava um ‘para de mexer tanto que sai no microfone’”, conta, se acabando de rir. “Tem hora que você vai embora, é muito louco. Não sabia que isso era possível, achei que era mais quadradinho mesmo”.

Quadradinho, mas quadradinho MESMO, só o filme, né, que estreia nesta quinta, dia 22.