Game of Thrones: o começo do fim

Muita gente tá dizendo que esse S08E01 foi um episódio “fraco” ou “morno”. A verdade é que foi um episódio bem inteligente.

Game of Thrones é um animal muito diferente. E muito inquieto.

A série ganhou milhares de fãs, rendeu inúmeras cópias dos livros e criou motivos para a HBO investir alto em efeitos, direção de arte e espetáculo. E ao longo dessa década, conseguiu dar à cultura pop e à “alta fantasia” elementos tanto políticos quanto filosóficos, econômicos e espirituais, as vezes elementos viajados, outras vezes com ambos os pés firmemente no chão, a tal ponto que o público se pega atordoado com as ideias, enlouquecendo em fóruns na internet.

Por exemplo, aquela velha história romântica sobre “o bem, o mal e de quem é o triunfo”. Desde o episódio 9 da primeira temporada, todo mundo entende que os arquétipos mais tradicionais da narrativa clássica estariam todos mortos e enterrados. O bem só vence o mal se subornar as pessoas certas, alimentar seus soldados, criar uma estratégia inteligente ou usar uma bomba atômica escamosa. Mesmo com elementos obtusamente fantasiosos, parecia que o “niilismo” da série a aproximava demais do mundo real.

Foi bom enquanto durou, hein?

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Desde que se separou da narrativa guiada pelos livros, a série começou a ter soluções muito mais simples e muito menos criativas para a maioria dos seus conflitos. Na última temporada tivemos até “Draco Ex Machina” para “tirar os heróis de mais essa enrascada”. As tensões emocionais, as dívidas pagas e o poder de uma morte surpreendente, porém completamente contextualizada pela narrativa, foram se esvaindo à medida que a série caminhava com as próprias pernas.

Isso não tornou a série RUIM. Só tornou-a um pouco mais comum. Parece que sem a guia do Papai Noel do Inferno ou do seu Livro Interminável, os criadores da série só conseguem seguir lugares comuns. Lugares comuns tremendamente bem filmados, com atores no topo de suas criações e com um ritmo afiadíssimo.

Lembremo-nos, esses caras não são conhecidos por terem ideias originais tão geniais assim. Eles realmente acharam bom, por exemplo, criar uma série sobre um Estados Unidos rachado no meio porque o sul ganhou a guerra civil, existindo um país nos dias de hoje onde afro-descendentes ainda seriam escravizados.

Esta última temporada começa tentando fazer a gente acreditar na nova versão do romance entre o Joey e a Rachel. Daenerys e Jon Snow (ou o que quer que seja o nome dele!) estão se amando, e não estão conseguindo convencer nem aquele dragão bisbilhoteiro. E mesmo que tudo em volta deles seja realmente interessante, quer sejam profecias, problemas políticos, surpresas reveladas, o estranho foco no romance promete se estender até o final.

George R. R. Martin, confesso fã de Tolkien, que reclama de Tolkien nunca ter se interessado pela “política real do Rei Aragorn”, deve ter se orgulhado da pergunta de Sansa: “como vamos alimentar esse exército todo?” E com o episódio sendo recheado por um coro fúnebre de desconforto com essa nova “rainha dragão”, podemos nos preparar para aqueles bons e velhos imprevistos inacreditáveis, dessa vez totalmente dentro do conceito original da série.

Muita gente anda dizendo que foi um episódio “fraco” ou “morno”, mas foi um episódio inteligente.

Eles estão, como de costume, colocando as peças no tabuleiro, tudo em seu devido lugar. Cersei está testando seu território, seus aliados, a força de seu plano. Theon termina sua “main quest” e já parte para o lugar onde vai terminar a série.

A cena final do episódio fecha um ciclo que está lá desde o primeiro episódio, tanto em termos de narrativa como para o arco pessoal de quem talvez seja o personagem mais interessante da série toda, Jaime Lannister. Se ele está mesmo se redimindo de cada um de seus terrores, chegou a hora de limpar a barra completamente... ou morrer tentando.

Estamos perante o final de um dos mais influentes e importantes faróis da cultura pop dos anos 2010. A preocupação é: serão os produtores capazes de recapturar aquele relâmpago? Ou eles só vão “matar muitos personagens”, chocar por chocar? O problema não é exatamente a obviedade. Como mencionei, a série sempre se valeu das nossas expectativas por surpresas e puxou nosso tapete por ir por um caminho que anunciava como óbvio. Se este personagem parece que vai morrer, ELE VAI MORRER MESMO porque sua trajetória assim indicou. Preto no branco. Sem salvação divina.

Serão semanas muito intensas nos Sete Reinos e aqui, nos nossos corações.