Gays, casamentos e como as HQs mostram a evolução da sociedade... dos EUA | Judão

A Suprema Corte do país de Obama liberou o casamento do mesmo sexo em todos os estados, numa evolução da sociedade de lá que pode ser acompanhada pelos gibis

A-Arca JUDÔNICA tem como INTUITO resgatar algumas das melhores publicações dos quase 15 de existência do Judão... e d’A-Arca. Republicaremos por aqui algum artigo, entrevista, podcast ou qualquer coisa que tenhamos feito na nossa vida que faça algum sentido nos dias de hoje. Gotta get back in time!

E os Estados Unidos deram, finalmente, o grande passo: a Suprema Corte do país declarou legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo, liberando o chamado casamento gay em todos os estados (que, sabemos, não são tão unidos assim). Antes dessa decisão, a união LGBT estava liberada em 37 dos 50 estados, além do Distrito de Columbia, num movimento iniciado em 2003.

Um motivo pra comemorar, mas não aqui no Brasil — a não ser, claro, que você esteja pensando em se mudar pra Miami. Por aqui, homofobia não é crime, deputados discutem (a sério) a cura gay, a tal “família tradicional Brasileira” ainda é algo que se ouve por aí. Casamento? Bom...

De qualquer forma, a cultura pop dos EUA sempre influenciou os brasileiros. E, claro, a atitude da Suprema Corte é a imagem de uma evolução da sociedade de lá que tem reflexos nessa cultura pop, incluindo aí os quadrinhos. Na esperança de que essa boa influência nos alcance, o JUDÃO republica uma matéria de maio de 2012 sobre como essas lutas sociais são parte inerente das HQs norte-americanas.

Homossexualidade e quadrinhos. Dois temas que não pareciam ter muita ligação até um mês atrás, mas que agora tomam as manchetes de muitos veículos que cobrem a indústria das HQs em todo o mundo, principalmente por conta dos mais recentes movimentos das duas maiores editoras dos EUA. De um lado a Marvel irá casar, no próximo mês, o personagem assumidamente gay Estrela Polar, que faz parte dos X-Men. Do outro, a DC anuncia que um importante personagem da editora, antes hetero, agora será gay em sua versão pós-reboot – e provavelmente este cara é o Lanterna Verde original, Alan Scott. Enquanto isso muitos leitores elogiam, ouros criticam e esboça-se um movimento da sociedade conservadora dos EUA por conta disso tudo.

Mas, afinal, o que está acontecendo?

É bom que se diga que as histórias em quadrinhos são um fiel retrato da sociedade. Para você pode parecer estranho como gibis cheios de caras com roupas colantes e com superpoderes tenham essa ligação, mas ela é óbvia e importante para a sobrevivência do próprio meio. O Superman, por exemplo, surgiu como uma resposta aos tempos da Grande Depressão dos EUA, sendo uma forma barata de se entreter e para fazer a população imaginar que existia alguém mais forte lutando por eles. Na Segunda Guerra Mundial o Capitão América foi criado para ser uma propaganda em prol dos States, um enviado da pacifica América para combater os malvados europeus (bom, era o que eles acreditavam). Nos anos 60, o Homem-Aranha surgiu como uma resposta para a garotada que não tinha mais ídolos e que buscava alguém mais próximo a eles para se identificar.

Sendo assim, para continuarem vivos, os quadrinhos devem beber da nossa realidade — até para garantir a polêmica e, por consequência, as vendas. Por isso os gibis são um retrato da evolução da sociedade e do fim, ou melhor, da diminuição dos preconceitos.

E, por isso tudo, é válido fazer um paralelo entre a presença LGBT e dos negros dos quadrinhos.

Negros nas HQs

Por uma série de motivos que mais cabem em uma tese de sociologia do que aqui, os quadrinhos demoraram para dar espaço aos negros em suas páginas, muito por conta do preconceito na sociedade estadunidense. Quando apareciam, eram como vilões ou como personagens menores. Foi apenas em 1965 que surgiu o primeiro gibi estrelado por um herói negro, o Lobo, pela hoje desconhecida Dell Comics – e que chegou a ser a maior editora de quadrinhos do mundo. Na Marvel, foi só em 1966 que a editora criou seu primeiro herói negro, o Pantera Negra, e foi em 1972 que a Casa das Ideias lançou o primeiro gibi estrelado por um personagem com a mesma etnia, chamado Luke Cage, Hero for Hire.

Na DC, um dos grandes momentos da quebra deste paradigma foi na revista Green Lantern/Green Arrow, na qual o anárquico Arqueiro Verde mostrava ao (então) certinho Lanterna Verde Hal Jordan a realidade dos EUA. Entre edições que abordavam temas como consumo de drogas, obsessão religiosa e preconceito, a dupla de quadrinistas Dennis O’Neil e Neil Adams introduziu um novo Lanterna Verde, negro, chamado John Stewart. Isso foi na edição 87, de 1971, que escancarava não só o preconceito da sociedade, mas também preconceito do próprio Hal Jordan.

GL 87

Se heróis afro-descendentes eram raros, imagine então relacionamentos inter-raciais. Por algum tempo o máximo que a DC chegou perto disso foi em 1970, quando a editora lançou Superman’s Girlfriend Lois Lane #106, no qual a eterna namoradinha do Azulão virava... negra! Isso porque ela estava curiosa sobre como era a ~vida entre os negros que viviam em uma parte de Metropolis chamada “Little Africa”. Mas, antes de ir até lá, ela chega para o Superman e pergunta na lata: “Agora que sou negra, você casa comigo?”. “Você continua vulnerável aos meus inimigos”, responde o Azulão avisando que cor de pele não tem nada a ver com o assunto. E lá foi a Lois entrar na parte negra da cidade em uma época que todo mundo achava normal existir um bairro ~fechado com determinada etnia.

Com o tempo as barreiras foram caindo. Hoje, por exemplo, Luke Cage é casado com Jessica Jones (que é branca) e lidera uma das equipes d’Os Vingadores. Já John Stewart é um importante personagem dentro da Tropa dos Lanternas Verdes e da DC.

Gay é o novo negro

No mundo, hoje, não há nada mais real e polêmico que a união homossexual. Estamos naquele momento que a causa já foi reconhecida por vários governos e abraçada por muitas organizações que nem LGBT são. O presidente Barack Obama, em plena campanha para a reeleição nos EUA, já disse abertamente que apoia a aprovação nacional do casamento entre pessoas do mesmo sexo – algo que é regulamentado apenas em alguns estados.

Dá para dizer que o gay hoje é o negro dos anos 70.

Como o debate já chegou até nas eleições presidenciais, nada mais justo do que estar nos quadrinhos. Desde o começo dos anos 90 a Marvel tem ampliado aos poucos seus esforços neste sentido. O Estrela Polar foi criado em 1979, mas foi em 1992 que o personagem se assumiu homossexual — na época foi motivo de críticas e manchetes. De lá pra cá outros personagens assumiram sua homossexualidade ou já foram criados como sendo abertamente gays, mas todos sem a mesma importância do Estrela Polar. E depois de deixar o personagem ~sozinho por um bom tempo, foi em 2009 pela primeira vez a Casa das Ideias deu ao mutante um companheiro, chamado Kyle.

Na DC, mais conservadora que a sua concorrente, personagens gays tiveram menos importância ainda. Uma das primeiras a ser abertamente homossexual foi a policial Renee Montoya, que surgiu na série Batman – The Animated Series nos anos 90 e foi incorporada às HQs. Tempos atrás a Renee foi o trampolim para aquela que é, até hoje, a personagem lésbica mais importante da editora, a Batwoman, que passou por vários atrasos no lançamento de seu gibi mensal – fato que alguns ligaram justamente com o fato dela ser gay. Além disso, a própria policial se transformou em heroína, a nova Questão.

ArchieSó que foi a pequena e tradicional Archie que deu o primeiro grande salto. Agora em março, a editora dona de franquias como Sabrina e do próprio Archie, casou o personagem Kevin, um veterano da Guerra do Iraque, com o médico que cuidou dele após um ferimento nessa guerra, chamado Dr. Clay.

Muita gente chiou, reclamou e protestou. A organização conservadora One Million Moms convocou um boicote do gibi no qual isso aconteceu. O resultado? A edição vendeu tão bem que esgotou.

Isso chamou a atenção da DC e da Marvel. Afinal, se a pequena Archie conseguiu tanta repercussão, o que elas conseguiriam? Sem contar que essa era mais uma demonstração de que o casamento gay tem uma importância tão grande na sociedade que deve ser sim reproduzida nos quadrinhos.

A primeira delas a se movimentar foi a Casa das Ideias, anunciando que Estrela Polar casará com Kyle no próximo mês. Depois foi a Distinta Concorrência, que, sem um grande personagem gay masculino para casar, anunciou que um importante herói da DC terá a orientação sexual mudada. Pelas informações que surgiram, este cara será o Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde [N.R.: o que seria confirmado semanas depois].

Caso não conheça o Alan, aqui vai uma breve retrospectiva: trata-se de um herói da Era de Ouro, criado em 1940 e que não tem mais a mesma importância desde a década de 50. Sem qualquer ligação com a Tropa dos Lanternas Verdes, ele originalmente se casou e teve dois filhos, os heróis Manto Negro e Jade. O novo Alan Scott, pós-reboot, vive em um universo alternativo e está sendo estabelecido agora pela DC.

Não preciso dizer que muitos fãs não estão gostando dessa mudança. Talvez não por preconceito, mas sim por mudar algo já amplamente registrado. Talvez tivesse sido mais interessante criar um novo herói gay, mas pense um pouco como a DC: o Lanterna Verde teve um filme recentemente (mesmo que estrelado por um personagem completamente diferente) e falar que ele é gay dá mais buzz.

Conservadorismo e crianças

Não preciso nem dizer que a parte conservadora da sociedade já está se movimentando. Mais uma vez a organização One Million Moms se pronunciou, afirmando que “as crianças desejam ser como os super-heróis, imitando as ações deles e até vestindo roupas que lembrem estes personagens o máximo possível. Você pode imaginar um pequeno garoto falando ‘Eu quero um namorado ou marido como o X-Man?’. Isso é ridículo! [...] Estas empresas estão influenciando pesadamente nossa juventude usando os super-heróis das crianças para dessensibilizar e fazer uma lavagem cerebral em suas cabeças para que eles acreditem que o estilo de vida gay é uma escolha normal e desejável. Como cristãos, sabemos que a homossexualidade é um pecado (Romanos 1:26-27)”

Kyle

Nem entrarei no mérito se o estilo de vida gay é uma escolha normal – na real acredito que deva ser uma escolha difícil, principalmente por conta de organizações como essa – mas a One Million Moms se equivoca ao afirmar que quadrinhos de super-heróis são para crianças. Não são, apesar do que muitos acreditam.

Uma recente pesquisa encomendada pela DC (feita nas comic shops dos EUA, internet e uma lista de e-mails online) analisou quem seriam os compradores de Os Novos 52, que é o nome editorial do reboot na cronologia. Apesar da intenção de atrair um público um pouco mais jovem, a pesquisa feita pela Nielsen identificou que apenas 1% dos compradores ouvidos em comic shops e na lista de e-mails têm até 17 anos. Ainda nas comic shops, a maior parte dos leitores têm entre 25 e 35 anos (representam 42%), seguido por aqueles que têm entre 35 e 44 (34%). Os jovens entre 18 e 24 anos são apenas 14% dos compradores de Os Novos 52.

“Ah, mas os mais jovens compram tudo pela internet”, alguém deve responder. Não é bem assim. Se considerar apenas o questionário feito pela web, a maior parte dos leitores continua tendo entre 25 e 34 anos (40%), seguido por 35-44 (27%) e, aí sim, por quem tem entre 18 e 24 (22%). Os adolescentes entre 13 e 17 anos são apenas 2%.

Ou seja, quem lê HQs da DC (e provavelmente da Marvel) não é criança, muito menos adolescente. São jovens adultos e até pais de família, gente com a orientação sexual formada há tempos e que tem amigos gays – isso se ele próprio também não for homossexual assumido. União estável entre pessoas do mesmo sexo já faz parte do dia a dia dessas pessoas (seja no noticiário ou nas pessoas em volta), então nada mais natural do que também estar no gibi.

Todos precisam perder esta ideia de quem super-heróis são para crianças. Não são mais. Não nos quadrinhos. Claro, desenhos animados, filmes e outras produções atraem o público mais jovem, mas aí o papo é outro.

Na realidade, as crianças e adolescentes estão lendo mangás. E as produções japonesas já lidam com a questão do homossexualidade há muito mais tempo que os gibis ocidentais – e com muito menos preconceito, afinal, por exemplo, um personagem ~afetado no mangá não quer dizer que ele seja, necessariamente, homossexual. É apenas a personalidade dele, que deve ser aceita.

No fim das contas a união estável entre homossexuais já está aí, faz parte da nossa sociedade e não deve demorar muito para ser regulamentada na maioria dos países democráticos, inclusive no Brasil. Ter personagens gays nos quadrinhos e acompanharmos a união entre eles se tornará mais e mais comum.

Resta a você apenas aceitar isso.