George Michael e a Realeza da Música Pop | Judão

Com mais de 100 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo ao longo de três décadas de carreira, o cantor britânico não foi apenas um hitmaker brilhante, mas um dos pilares do que a gente conhece como pop moderno

Virou tradição dizer que, no reino da música pop, Michael Jackson foi o rei insubstituível e Madonna carrega o manto de rainha. Mas o ponto é que, ao redor dos dois, orbita uma realeza poderosa que ajudou e ainda ajuda a sustentar os pilares do gênero.

Em pleno Natal, acabamos perdendo, aos 53 anos, outro ícone da mais pura intensidade, um guerreiro da linha de frente do pop: o inglês George Michael. Condes e barões que formam a corte da música pop estão oficialmente de luto. “Perdi um amigo querido, uma alma doce e generosa e um artista brilhante”, afirma Elton John, que também tem sua cadeira neste castelo majestoso de música fundamental e que não sai das nossas cabeças jamais.

Se pararmos para pensar, 2016 — essa demarcação de tempo que não exatamente significa alguma coisa, mas marca a história — nos levou três nomes icônicos que, mesmo envoltos em críticas e polêmicas, sempre nos ajudaram a ampliar a necessária discussão sobre diferentes tipos de sexualidade: Bowie, Prince e George Michael. Lutando desde a adolescência pela própria aceitação, o inglês Georgios Kyrriacos Panayiotou, filho de uma família dona de um restaurante grego em Londres, se definiu como bissexual durante muito tempo, sempre com medo da reação que sua mãe tradicionalista teria.

Embora admita que tenha se relacionado com dezenas de mulheres nos anos 80, jamais conseguiu se envolver romanticamente de fato. Quando aconteceu o tal “incidente do banheiro” na Califórnia, em 1998, e George Michael finalmente se revelou gay para o mundo, o cantor também se tornou uma voz importante pela igualdade de direitos para o movimento LGBT. Um grande amigo gay, do alto de seus quase quarenta anos de idade, estava chorando quando fez a comparação necessária: “perder George Michael, pra mim, é quase como seria perder a Lady Gaga para toda uma geração de vinte e poucos anos”. Faz sentido.

Perder George Michael é quase como seria perder a Lady Gaga para toda uma geração de vinte e poucos anos

Fanático por música desde sempre, George Michael conheceu sua cara-metade musical, Andrew Ridgeley, ainda na escola, no subúrbio londrino de Bushey. Em 1979, eles se envolveram com uma pequena banda de ska chamada The Executive, ao lado de outros três colegas. O projeto durou pouco, mas Michael e Ridgeley quiseram continuar em frente.

O nome da nova empreitada era Wham!, que eles descreviam como sendo o barulho que Michael e Ridgeley faziam quando se apresentavam juntos. Vendendo a si mesmos como um duo de rebeldes, dois jovens hedonistas orgulhosos de uma vida sem trabalho ou compromisso, rapidamente se tornariam um sucesso na Inglaterra, precursores das boy bands que surgiriam aos montes nos anos 90. As meninas adolescentes rapidamente piraram no visual e na atitude dos dois caras, além de sucessos esmagadores como Wake Me up Before You Go Go.

Aos 17 anos, dentro de um ônibus, quando ia para o trabalho, compôs Careless Whisper, cujo solo de saxofone deve estar tocando no seu cérebro neste exato momento. A canção saiu antes como o primeiro single solo de George Michael, no mesmo ano em que entraria no álbum Make It Big, do Wham!. Por sinal, o fim da dupla, depois de cerca de cinco anos de carreira, era inevitável graças ao sucesso da carreira solo de George Michael, focada num público muito mais adulto e “sofisticado” do que a audiência teen do Wham!.

Seu primeiro disco solo, Faith (1987), já mostraria a que George Michael veio. Além da ótima faixa-título, cujo clipe ajudou a consolidar a imagem sedutora do cantor de óculos escuros e calças jeans apertadas, o álbum trazia o single I Want Your Sex – cujas letras sugestivas fizeram a faixa ser banida de algumas rádios americanas. Três anos depois, viria Listen Without Prejudice Vol. 1, com o qual Michael tentou a todo custo reforçar a sua reputação como compositor, focando esforços muito mais em seu trabalho do que em sua imagem de sex symbol.

Em nenhum dos clipes produzidos para este disco, o vocalista daria as caras. Mesmo no lendário vídeo de Freedom, cuja letra é justamente sobre sua luta por identidade artística, o ainda novato diretor David Fincher não pôde contar com a participação do astro, substituído pelas presenças das supermodelos Naomi Campbell, Linda Evangelista, Christy Turlington, Tatjana Patitz e Cindy Crawford.

O Volume 2, a aguardada continuação do disco, acabou nunca acontecendo. Numa briga de facão com a Sony Music nos tribunais, ele acusou a gravadora de não se esforçar o suficiente para promover o álbum anterior, o que teria sido responsável por um sucesso comercial bem distante de Faith. Já a empresa rebatia, dizendo que seria impossível alcançar este tipo de resultado sendo que George Michael se recusou a usar sua própria imagem para servir de garoto-propaganda. O músico acabou doando três canções que estariam no disco para o projeto Red Hot + Dance, lançamento da Red Hot Organization cujo objetivo era arrecadar dinheiro para ajudar na luta contra AIDS.

Seguiram-se alguns anos de reclusão, quebrados apenas para participações em eventos como o tributo a Freddie Mercury, em 1992, no estádio de Wembley, quando cantou ’39 (uma de suas músicas favoritas na época de escola, aliás), These Are the Days of Our Lives (com Lisa Stansfield) e, claro, Somebody to Love, que rendeu uma performance inesquecível, aquela mesma que deixava a gente eternamente pensando: “bem que este cara podia sair em turnê com Brian May, Roger Taylor e, vá lá, John Deacon, não?”.

O próximo álbum, Older, só sairia em 1996, tornando-se conhecido especialmente pelo melancólico tributo ao namorado Anselmo Feleppa, falecido em 1993, com a bela faixa Jesus to a Child. Em 2004, foi a vez de Patience, marcado não apenas pela música Amazing, mas também pela forte postura pública de George Michael contra a invasão do Iraque. Seu último disco seria Symphonica, lançado em 2014, o registro ao vivo da turnê que aconteceu entre 2011 e 2012, com canções inéditas, alguns sucessos de sua carreira e covers que se tornaram representativos para ele (como Roxanne, dos caras do The Police).

Além de trabalhar atualmente em uma edição de luxo de Listen Without Prejudice Vol 1, em comemoração aos 25 do lançamento original (o que incluiria um documentário com imagens inéditas de arquivo e a participação de nomes como Stevie Wonder, Elton John, Mary J Blige, Tony Bennett, Liam Gallagher, James Corden e Ricky Gervais), George Michael também vinha plantando as primeiras sementes de um novo disco, a ser lançado em algum momento de 2017. Além de uma parceria com o DJ britânico Naughty Boy, havia a promessa de que este seria o seu prometido álbum “colaborativo gay”, com a presença de jovens e desconhecidos artistas gays e gay-friendly.

Embora deixe para a história um legado de música pop brilhante, George Michael poderia mostrar que estava longe de ser um artista ancorado em seu próprio passado de glórias – e que ainda tinha muita lenha para queimar. Como todo gênio inquieto sempre tem, aliás.

“I’ve had enough of danger and people on the streets. I’m looking out for angels, just trying to find some peace”, cantava ele, no começo da letra de One More Try. Pois ao invés de buscar, agora ele se torna mais um destes anjos. George partiu pra encontrar o Freddie, aquele mesmo que disse em sua última entrevista de rádio que adorava a música Faith, lá do outro lado.

Que música linda eles vão fazer juntos. Uma pena é que não conseguiremos ouvir por aqui.