Chegou a vez de Grant Morrison invadir a TV | JUDAO.com.br

Em acordo de conteúdo com a Universal, roteirista escocês vai começar pela produção da adaptação d’Os Invisíveis, seu maior sucesso autoral nos gibis

Lá nos anos 1980, da mesma forma que rolou com o rock duas décadas antes, o mercado americano de quadrinhos foi “invadido” por roteiristas ingleses que subverteram tudo que vinha sendo feito até o momento e ajudaram, na DC Comics, a dar forma ao icônico selo de gibis adultos Vertigo. “Foi a fermentação letal de chá forte e tédio político”, explicou a respeito desta efervescência, em entrevista ao JUDAO.com.br, o escritor Peter Milligan, um dos quatro nomes mais destacados desta leva.

Os outros três integrantes do quarteto são, ainda hoje, ícones consagrados da Nona Arte: Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. E quer saber o mais curioso? Parece que, aos poucos, esta mesma turma da tal Invasão Britânica começa a levar seus talentos para outra mídia: a televisão. Além de seu trabalho inspirar as séries Constantine e Human Target, Milligan chegou a escrever uma série animada para a BBC (Meta4orce) e um filme pra TV (Um Anjo para May, com Tom Wilkinson no elenco). Gaiman, então, nem se fala: além de produzir Deuses Americanos, ele tá escrevendo e ainda cuidando pessoalmente do posto de showrunner na aguardada adaptação do livro Belas Maldições.

Agora é a vez do Grant Morrison se juntar a esta trupe, já que o roteirista assinou um contrato com a Universal. Isso quer dizer que ele vai trabalhar com o estúdio para produzir não apenas adaptações de suas próprias obras mas também conteúdo original que pode ser negociado com canais de TV tradicionais e mesmo com serviços de streaming.

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O namoro tinha começado no ano passado, já que a divisão de produções à cabo do estúdio estava criando, pro SyFy, a primeira temporada de Happy!, baseada na HQ de Morrison e Darick Robertson, com participação do escocês no papel de produtor. Deu tão certo que a segunda já tá em andamento, com o retorno confirmado de Christopher Meloni como o ex-policial corrupto Nick Sax e Patton Oswalt na voz do cavalo azul voador imaginário que dá título ao seriado, uma criado quase que irritantemente positiva que acaba mudando completamente a vida do camarada.

Além disso, o autor também já estava trabalhando também para a Amblin Television, ao lado de David Wiener e Brian Taylor, na adaptação televisiva da clássica obra distópica de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. Publicado em 1932, o livro antecipa uma série de conceitos hoje bastante comuns, como tecnologia reprodutiva, aprendizado do sono, manipulação psicológica e técnicas de condicionamento, todos combinados para gerar uma sociedade futurista de cidadãos geneticamente modificados e com uma hierarquia social baseada quase que inteiramente na inteligência. Prato cheio pras pirações que o Morrison ama escrever. ;)

Os Invisíveis

O primeiríssimo projeto deste acordo entre ele e a UCP é justamente uma versão pra TV de Os Invisíveis, talvez a obra máxima de Grant Morrison, uma história em quadrinhos publicada pela Vertigo entre os anos de 1994 e 2000 e que por muito pouco não virou um seriado de TV pra BBC (Morrison chegou a escrever dois roteiros, mas na hora do vamos ver, quem tinha que aprovar achou tudo “maluco demais”). De qualquer maneira, a sinopse do comunicado oficial da parceria fala assim sobre Os Invisíveis: “ambientada em 2020, a série acompanha um grupo de elite internacional de ocultistas e guerreiros da liberdade dedicados à criação de um mundo melhor para todo mundo, não importa a que custo”. O que é, de verdade, uma primeira sinopse BEM da reducionista.

Na verdade, Os Invisíveis é uma gigantesca e complexa maluquice que mistura muita violência, teorias da conspiração, magia e viagem no tempo — cuja influência, segundo o autor, o teria deixado doente, além de ter sido em parte inspirada em histórias contadas por alienígenas que o teriam abduzido durante uma viagem a Kathmandu.

Ao longo da trama, acompanhamos uma célula do grupo chamado Invisible College, uma organização secreta revolucionária cujo objetivo primordial é combater todo tipo de opressão.

A primeira formação traz na liderança King Mob, um escritor de livros de horror que também é um carismático e violento assassino que tem uma relação de amor e ódio com sua persona de “terrorista contracultural”, e tem como integrantes Boy, um ex-policial nova-iorquino; Ragged Robin, uma telepata com um passado misterioso; Lord Fanny, uma mulher transgênero nascida no Brasil e que também é uma espécie de xamã; e Jack Frost, outrora chamado Dane McGowan, um moleque violento vindo de Liverpool sem perspectiva nenhuma e que, vejam vocês, pode ser o próximo Buda.

Junte a isso o fato de seus maiores inimigos são os Archons of the Outer Church, deuses alienígenas interdimensionais com transtorno obsessivo-compulsivo que já escravizaram a maior parte da raça humana sem que ela mesma tenha percebido, puro Caos x Ordem, e você vai sacar que REALMENTE aquela sinopse diz pouco sobre o que esperar dos Invisíveis.

Em 2009, numa entrevista pra MTV, Morrison dizia que Matrix talvez fosse o motivo de não termos visto, até aquele momento, Os Invisíveis virarem filme: afinal, ambos tratavam de alguma forma sobre vivermos uma realidade que é, na verdade, uma falsa simulação. “Eu quero uma pegada diferente, porque Matrix saiu e cobre muitas áreas similares, tem os carecas em roupas fetichistas lutando kung fu. Já vimos isso, então quero ir por outro caminho”.

Milligan, Gaiman e Morrison. Da primeira leva da Invasão Britânica — já que, mais tarde, viriam outros caras como Warren Ellis, que tá escrevendo Castlevania pro Netflix, e Garth Ennis, envolvido com a produção de Preacher e The Boys — não tá faltando, sei lá, um C E R T O nome? Ah, mas tá sim. E se depender DELE, vai continuar faltando. Pelo menos, com um crédito que seja diferente de “o escritor original”. ;)