Álbum do Greta Van Fleet prova que não, definitivamente eles não são um cover do Led Zeppelin | JUDAO.com.br

A banda que virou queridinha dos noticiários musicais no último ano, enfim lança seu primeiro disco completo

Que esse papo de que o rock morreu é tão velho e mofado quanto alguns medalhões insuportáveis do próprio rock, isso a gente sabe há muito tempo — aliás, até escrevemos uma matéria sobre isso. Mas se tem OUTRO papo diretamente relacionado que enche demais o saco é esta necessidade de parte dos fãs e da própria imprensa em buscar insistentemente a salvação do gênero. Aquela banda ou artista que iniciaria uma “rebelião” pra tirar o pop da frente e trazer o rock de volta ao seu “trono”. Sei.

Se o rock claramente não morreu e nem está morrendo (a não ser, obviamente, que você insista em ouvir apenas aqueles mesmos de sempre, aí a sensação decrépita tá claríssima), por que diabos ele precisaria ser salvo mesmo? Por que caralhos a gente estaria tão loucamente em busca dos próximos Beatles ou, quem sabe, do Black Sabbath da vez? “Nós precisamos disso mesmo? A boa notícia é que temos uma vitrine de novos talentos extraordinários vindos de todas as partes do mundo, nos mais diferentes gêneros do rock”. Quem disse isso? Ninguém menos do que Rob Halford, do Judas Priest.

Portanto, é importante deixar também este elefante branco de lado ao se ouvir uma pequena pérola chamada Anthem of The Peaceful Army, o primeiro disco completo do quarteto americano do Michigan chamado Greta Van Fleet — nome que tem sido constantemente repetido e incensado na imprensa musical desde que o single Highway Tune explodiu, entre 2016 e 2017, e que ganhou ainda mais combustível com o lançamento do ótimo EP Black Smoke Rising e de sua versão estendida, From the Fires. A expectativa para uma bolacha integral foi nas alturas.

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Mas é preciso dizer que se trata de uma baita sacanagem, isso sim, escutar este disco com esta pecha de “salvação do rock” ou “nova promessa” ou qualquer merda assim na cabeça. Anthem of The Peaceful Army não é um disco revolucionário, experimental, que veio pra fazer história, comandar uma revolução. Tira este peso todo daí. O que os irmãos Kiszka (John nos vocais, Jake na guitarra e Sam no baixo) estão fazendo com o amigo batera Danny Wagner é se divertir pra TE divertir. É entregar aquele hard rock de sabor setentista com riffs deliciosos pra te dar vontade de dançar enquanto corre ou sua em bicas na academia, enquanto chacoalha no busão ou no metrô na volta pra casa, quando precisa esfriar a cabeça no meio do dia de trabalho.

É pra te fazer mais leve.

E digo mais: não que os músicos pareçam de verdade se importar, como já deixaram claro em uma série de entrevistas. Mas eu acho também uma sacanagem colossal fazer o Greta carregar nas costas esta coisa de “o novo Led Zeppelin” — ou, no caso de quem NÃO gosta dos sujeitos, “banda cover de luxo do Led Zeppelin”. Injusto pra caralho.

“Ah, o Kings of Leon também é uma banda formada por irmãos, também carrega uma dose cavalar de influências do rock clássico mas sabe dosar isso muito melhor para soar único”, ouvi um amigo dizer sobre o sabor claramente retrô do GVF. Olha, pode até ser. Há quem defenda que, quando o assunto é dialogar com o passado, em especial com aquela galera que o ouvinte típico da Kiss FM adora ouvir, nomes como Rival Sons, Graveyard, Lucifer e mesmo esta atual versão mais lisérgica do Opeth fariam muito melhor.

Entendo de verdade todos estes argumentos — e sim, Anthem of The Peaceful Army tem Led pra caralho na mistura, não dá pra negar, a referência tá mesmo na cara. Basta ouvir a poderosa Lover, Leaver (Taker, Believer) pra sacar isso de imediato. Mas o meu ponto é que o disco tem BEM mais a oferecer do que SÓ isso, meramente a nostalgia pela nostalgia, do que um apelo babaca ao saudosismo. Assim como, por exemplo, os caras do Airbourne são bem mais do que apenas e tão somente “os herdeiros naturais do AC/DC”, saca? Rola um tempero diferente, que faz com que eles busquem naturalmente uma distância de Jimmy Page e cia.

Existe ali algo genuíno, verdadeiro, algo que no palco deve ser uma verdadeira loucura, repleta de jams, improvisações, muita maconha e chapação. E quando você ouve o disco de uma banda de rock e já fica ansioso pra ver como aquilo deve ficar no palco, sinal de que a gravação cumpriu DEMAIS o seu papel, né?

O guitarrista Joe Satriani usou um bom adjetivo pra se referir aos moleques: exuberantes. Faz um sentido incrível quando você os escuta logo na faixa de abertura, a viajandona Age of Man. Aqui, aliás, cabe o parêntese sobre a voz de John Kiszka: nesta música, por exemplo, ele soa muito mais como o Vince Neil do Mötley Crüe do que efetivamente como o Robert Plant ao qual é tão frequentemente comparado. Num combo de suas próprias qualidades com o clima da produção do disco, ele consegue provar que tem muito mais a entregar em sua performance, ora mais melódica, ora mais agressiva e rasgada, do que uma emulação do ídolo.

O que ele não perde, no entanto, é a sexualidade que também é típica de Plant. E ainda bem, aliás. Se liga em When The Curtain Falls. Ouvir tanto um quanto outro cantando é tipo ir se sentindo seduzido, ao pé do ouvido. Em uma era de berros guturais ou sussurros quase inaudíveis de pura tristeza, dá até um alento se deixar envolver assim.

Vejamos por outro lado o caso de Watching Over, que tem esta camada meio oriental por conta da cítara e tudo mais. Tamos falando de uma faixa que é bem mais aquele bom rock sulista americano, um rock caipira flertando com country e blues, tipo Allman Brothers Band, do que qualquer coisa remotamente similar ao Led. E por falar nesta parada meio interiorana, pô, You’re the One tem lá seu teclado bem anos 70, ok, mas tamos falando de uma balada gostosinha de tudo e que é country na veia. Em certo momento, nem parece a mesma banda tocando. Não é uma diversificação forçada, na marra. Não. É simplesmente esticar um pouco mais as amarras mas ainda dentro do mesmo espectro que eles escolheram ficar.

Outra parada que merece destaque é a guitarra de Jake Kiszka. Se por um lado ela é meio Page mesmo, por outro ela consegue soar até meio Pete Townshend, do The Who, nos riffs sacanas de The Cold Wind. E em The New Day, ela se metamorfoseia em algo quase pop, dá vontade de sair pulando e cantando junto cada nota.

Lá pro finalzinho de Anthem of The Peaceful Army, vale aumentar o volume e entrar bem no clima da canção Anthem, na qual John incorpora inexplicável e maravilhosamente bem Janis Joplin, numa daquelas faixas beeeem ripongas. “In all the noise facing every day / The colored world has turned into grey, you say / And from the void, the place in which we came / Can we step back and see we want the same”, diz a letra, numa mensagem que parece até inocente diante do mundo que a gente vive hoje. Mas... quem sabe, né?

O Greta Van Fleet tá encontrando o seu jeito, o seu formato, e com Anthem of The Peaceful Army eles dão um passo importante neste caminho. É um som pra pirar, pra sacudir, pra transar. É som pro tiozão pirar ao lembrar do Led, mas também é som pro moleque que tá começando a ouvir ROQUE agora escutar e descobrir uma viagem diferente, uma acidez menos indie, mas menos ríspida do que os metaaaaaaaaal da parada e definitivamente bem mais alucinada e alucinante do que o rock-padrão de um Coldplay ou Maroon 5 da vida.

Ansioso por saber onde estes quatro caras vão parar. E que não parem.