A Guerra dos Mundos: quando o poder da mídia supera o dos ETs | Judão

Assim que o clássico de H.G. Wells ganhou uma adaptação para o rádio, cortesia de ninguém menos que Orson Welles, teve gente achando que era uma invasão real. Mas… foi TANTA gente assim mesmo?

“Contudo, através do abismo do espaço, as mentes que são para as nossas mentes como as nossas são para as dos animais, aqueles intelectos vastos e frios, olharam para esta Terra com olhos invejosos e lentamente desenharam seus planos contra nós”. Este é um trecho que praticamente resume A Guerra dos Mundos, ícone da literatura de ficção científica escrito pelo inglês H.G. Wells, talvez um dos primeiros encontros entre a humanidade e os alienígenas na tal da cultura pop que, bom, naquela época nem era chamada assim.

Afinal, antes mesmo de sair num volume único, Guerra dos Mundos saiu em capítulos nas páginas da revista Pearson’s Magazine entre os meses de abril e dezembro de 1897, como era comum para os livros na época.

Contada em primeira pessoa por dois protagonistas sem nome, um irmão mais velho em Surrey e o mais novo em Londres, a história trata de uma invasão de ETs vindos diretamente de Marte pra conquistar nosso simpático planetinha. São criaturas com cabeçonas enormes e um monte de tentáculos (originando o visual moderno dos chamados octópodes), dispostas a nos varrer da face enquanto o autor reveste seu texto com suas visões sobre a teoria da evolução de Charles Darwin e um punhado de crítica velada ao imperialismo britânico.

Além, é claro, de uma série de conceitos científicos bastante à frente de seu tempo. Robert H. Goddard, por exemplo, tinha apenas 16 anos quando leu o livro – mas ficou empolgadíssimo com tudo que leu e passou a vida, essencialmente, ajudando a desenvolver foguetes. Parte de seu trabalho é usado até hoje, influenciando desde a missão da Apollo 11 quanto os drones que visitam um certo planeta vermelho...

Senhoras e senhores, eis Orson Welles SEM BARBA

Só que A Guerra dos Mundos ocuparia um OUTRO capítulo na cultura pop, tão importante quanto a publicação original, quatro décadas depois. Não, cacete, esquece o Spielberg, esquece o Tom Cruise. Estamos em 1938. A mídia que pega aqui é o tal do rádio, aquele mesmo, lembra? Então. Todos os domingos, a rádio Columbia Broadcasting System (CBS, se você não ligou o nome à pessoa) tinha uma antologia dramática chamada The Mercury Theatre on the Air, especializada em adaptações literárias. Para o programa do dia 30 de outubro, véspera do Halloween, eles tavam querendo fazer algo BEM especial. E acabaram entrando pra história.

O produtor John Houseman e o diretor-assistente Paul Stewart queriam ir pro lado da ficção científica e chegaram a pensar em adaptar obras como A Nuvem Púrpura (MP Shiel) e O Mundo Perdido (Arthur Conan Doyle), mas quando conseguiram os direitos de adaptação de Guerra dos Mundos pro rádio, ah, aí ninguém mais teve dúvida do que fazer.

Com roteiro de Howard E. Koch e direção/narração de um jovem que se tornaria bastante famoso nas telonas nos anos seguintes, um certo Orson Welles, a atração teve lá o seu quê de “pegadinha” porque Welles teve a ideia de usar o lance mais factual do livro e fazer mais da metade da história ser contada como se fossem plantões de notícias, sugerindo que SIM, uma invasão alienígena estava de fato acontecendo. Junte a isso falsos informes do exército, da aeronáutica e da porra toda, relatos de supostas testemunhas, e a bagunça tava formada.

Claro, foi necessária uma adaptação, trazendo a história da Inglaterra do século 19 para Grover’s Mill, Nova Jersey, nos EUA. E o que mais ajudou a dar este clima foi o fato de que o The Mercury Theatre on the Air era um programa sem intervalos comerciais. Portanto, a primeira parada para falar sobre programação da rádio rolaria só 30 minutos depois que ele já tinha começado, seguindo direto e reto com a “farsa” de Wells. “Eu tive a ideia de fazer uma transmissão de rádio simulando como se uma crise estivesse realmente acontecendo”, afirmou Welles anos depois, como parte do processo que moveu contra a CBS para ser creditado como coautor. “A ideia era dramatizar de um jeito que parecesse que tinha algo real rolando e não fosse apenas uma daquelas peças de rádio”.

Tá bom que a ideia não era exatamente nova. Basta lembrar, por exemplo, de Broadcasting the Barricades, programa curiosamente escrito pelo padre católico Ronald Knox para a BBC que, em 1926, interrompeu a leitura de uma peça de literatura do século 18 para fingir a transmissão de que um tumulto generalizado tava tomando conta das ruas de Londres (aliás, o próprio Welles admitiria mais tarde que parte da sua inspiração veio daí).

Mas o ponto que fez Guerra dos Mundos entrar na história é que milhares, QUIÇÁ milhões de pessoas teriam acreditaram naquela história toda e botaram fé que tinha uma invasão acontecendo. Dizem que rolaram tumultos em Nova York, onde ficavam os estúdios da CBS, e em diversas outras cidades dos EUA. Histeria coletiva, afirmaram alguns, mesmo com o aviso, no começo e depois no minuto 40 do programa, de que se tratava de uma obra de ficção. As manchetes dos jornais, no dia seguinte, falavam em puro caos e desordem, tratando a emissora como irresponsável e Welles como um maluco.

Apareceram, segundo relatos, policiais no estúdio, as linhas ficaram congestionadas de gente ligando, os executivos da rádio piraram com medo de um processo a caminho (rolou apenas um, de alguém que pedia US$ 50 mil por ter ficado “emocionalmente abalado”, mas foi logo desconsiderado), e teve até rumores de pessoas se jogando das janelas (!!!). Críticos do programa ficaram ainda mais putos e colocaram lenha na fogueira, enquanto políticos pediam à Comissão Federal de Comunicações que discutisse uma nova regulação. Se bobear, você já ouviu esta história alguma vez na vida, né? Virou lenda, daquelas que vão aumentando com o passar dos anos.

Só que os relatos foram BEM exagerados

Mas é bom que se diga: o passar dos anos também foi bom para que se descobrissem importantes informações que dão conta que o tal do pânico que a icônica transmissão de rádio causou não foi assim tããããããããããããão grande quanto o mito perpetuado sugere. A começar pelo fato de que o The Mercury Theatre on the Air estava MUITO longe de ser um fenômeno de audiência. Apesar de um público fiel e cativo, digamos que ele levava pau toda semana do programa cômico de variedades Chase and Sanborn Hour, atração da NBC com o ventríloquo Edgar Bergen. Alguns especialistas defendiam que, quando os ouvintes de Bergen mudaram de estação assim que entrou a parte musical da história, se depararam com os relatos de horror narrados por Welles – e isso justificaria os tais “milhões” de espectadores apavorados.

Mas aí vem outro ponto: naquela mesma noite, cinco mil espectadores receberam telefonemas como parte de uma pesquisa de opinião sobre programação de rádio conduzida pela empresa C. E. Hooper, uma espécie de Ibope da época. A pergunta que receberam foi “que programa de rádio vocês estão ouvindo?”. E menos de 2% disseram que estavam conectados na ideia de Welles ou tampouco em um certo programa jornalístico informando a chegada de ETs. Consideremos ainda que grandes afiliadas da CBS, como a de Boston, por exemplo, simplesmente ignoravam o programa do titio Orson e colocavam no ar programação local que pudesse ser comercialmente mais viável, com anunciantes e tudo mais.

Parte da força que a história ganhou se deve ao estardalhaço que a imprensa impressa (viu o que eu fiz aqui?) produziu nos dias que se seguiram à transmissão, com manchetes como “Radio Listeners in Panic, Taking War Drama as Fact”, que foi parar na página principal do The New York Times. O mesmo valeu para grandes publicações como Chicago Herald, San Francisco Chronicle, The Boston Daily Globe e The Detroit News. Por mais que o número de 12.500 artigos a respeito do assunto ao longo de um mês, bastante repetido em textos sobre o assunto, não seja o tipo de coisa que dê para ser confirmada assim com tanta VEEMÊNCIA, não dá pra negar que principalmente os jornais se interessaram bastante pelo tema. A explicação é bastante simples e mundana: DINHEIRO.

DINHEIRO: isso explica toda a lenda criada sobre a transmissão

De acordo com um interessante artigo do Slate, que ouviu alguns estudiosos da área de mídia como Jefferson Pooley (Muhlenberg College) e Michael J Socolow (University of Maine), os jornalões tinham uma agenda claríssima. “O rádio é novo mas tem que ter responsabilidades de adulto. Ele ainda não se especializou no tipo de material que usa”, disse um editorial, à época. Mas aqueles eram também os anos aproximando-se da Grande Depressão, quando o rádio enquanto MEIO roubou uma imensa fatia publicitária dos jornais, tornando-se a fonte de informação favorita dos americanos. Logo, aquela foi a oportunidade perfeita para bater na questão do “pânico”, possivelmente tentando desacreditar o rádio e mostrá-lo como “não-confiável”.

Sacou como não existe almoço grátis, cara pálida?

No fim, sem importar o tamanho da coisa toda, Orson Welles só se beneficiou deste barulho. Logo seria descoberto por Hollywood e eis que seu segundo filme longa-metragem, que também protagoniza, se tornou aquele que é costumeiramente chamado pelos cinéfilos tradicionais de “o melhor filme da história”: Cidadão Kane (1941).

Mas o que pensava deste lance todo o próprio H.G. Wells, cuja obra inspirou o programa de rádio? No primeiro e único encontro que teve com Welles, em 1940, quando ambos estiveram fazendo palestras em San Antonio, no Texas, e foram convidados aos estúdios da rádio KTSA, o escritor foi bem cético ao ser perguntado sobre a tal onda de pânico. “Vocês têm certeza de que teve este terror todo na América ou era só a sua diversão típica de Halloween?”.

O velho mestre, certeiro como sempre. ;)