Há problemas no paraíso de aceitação e diversidade de RuPaul’s Drag Race | JUDAO.com.br

Não, nem tudo são flores. Quer dizer, pra algumas é. Já pra outras…

No último episódio da mais recente temporada de Ru Paul’s Drag Race, a apresentadora do reality mais inclusivo da TV americana exibiu um clipe feito sob medida para garantir as 12 indicações ao Emmy que recebeu neste ano: um vídeo mostrando dez anos de um programa que já expôs seu público a importantes temas como a causa trans, a prevenção do HIV, a intolerância religiosa...

Arrancando lágrimas de participantes e fãs que se relacionam com as narrativas ali criadas, Mama Ru — que ganhou seu 10o Emmy na categoria “apresentador de reality show” e viu a série ser considerada o Melhor Reality Show de competição — arrematou tudo com um de seus bons e velhos jargões: “Na comunidade LGBT+ podemos escolher nossas famílias”

Bom... Talvez isso espante quem acompanhou a temporada inteira e se deparou com um gigantesco elefante branco que ia sendo arrastado episódio a episódio e que por fim acabou PUTREFATO por falta de resolução na sala do telespectador mesmo: o racismo no programa.

Cristalizado na figura da participante The Vixen, o programa acabou por levantar uma questão não respondida: uma minoria racial PRECISA ser exemplar para ter o direito de existir?

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Bem, se você já assistiu a algum reality show na vida e conhece minimamente os truques de edição e narrativa escolhidos para se alavancar uma audiência, deve estar familiarizado com a classificação de pessoas em arquétipos conhecidos e relacionáveis com o grande público: a participante boazinha, a malvada, a duas caras, etc. Quando se faz parte de uma minoria racial, entretanto, alguns estereótipos costumam ficar mais marcados que outros — deixo aqui, aliás, a recomendação da primeira temporada de UnReal, que comenta magistralmente sobre os clichês narrativos da angry black woman –  em linhas gerais, uma mulher negra que “não leva desaforo para casa”.

Durante a 10a temporada de Drag Race, Vixen assumiu uma postura de combatividade em relação a muitas participantes brancas do programa, o que gerou uma trajetória pouco relacionável com o público durante sua atuação. Uma baixa base de fãs é um risco que se corre em aparições televisivas e não é isso que discutimos aqui. O real problema surge quando o fanatismo da audiência extrapola a torcida e afeta a vida pessoal das ex-participantes: no Twitter, The Vixen relatou por meses medo de sair de casa devido a ameaças de morte vindas de fãs de outras participantes.

Essa SEQUER é a primeira vez que ocorrem reações negativas por parte da audiência especificamente direcionadas a candidatas parte de minorias raciais. Basta lembrar dos baixos cachês oferecidos a drags negras e latinas em marcação de shows e também infame episódio de Phi Phi O’Hara – drag de ascendência filipina que teve um fã do programa ameaçando aparecer a um de seus shows para jogar ácido em seu rosto por conta de sua participação no reality.

RuPaul pessoalmente, ou mesmo a produção do programa, não podem ser responsabilizados pelo tratamento de fãs a algumas drags; há um recente levante, entretanto, de minorias raciais cobrando posicionamentos mais contundentes do reality nesse tipo de situação. Abre-se aqui uma discussão ainda mais séria sobre um problema muito comum dentro do corpo social LGBT+: a completa ausência de autocrítica. Ser parte de uma minoria não te torna automaticamente empático a todos os preconceitos do mundo.

Uma forma bem simples de enxergar a questão é se lembrar de como é homofóbico o meio do hip hop, de raízes culturalmente negras e, TEORICAMENTE, mais aberto à compreensão de opressões. A realidade, entretanto, trouxe (e ainda traz) letras recheadas de insultos à LGBT+. A fachada que contamos a nós mesmos é de que todos são bem-vindos no guarda-chuva de aceitação do espectro sexual de minorias. Mas a verdade é que existem C E R T O S perfis de homossexual que são melhor aceitos e têm maior passabilidade dentro de ambientes gay friendly.

Denunciar esse separatismo seria a forma mais óbvia de tentar derrubar os muros que vêm sendo construídos por esses grupos. Porém a simples crítica – que busca unicamente a melhora do movimento social como um todo – é tratada por muitos membros da comunidade como a destruição da própria comunidade por dentro. Sublinhar preconceitos, para essas pessoas, é considerado uma demonstração de desunião que rivaliza o movimento e enfraquece a causa como um todo.

Uma série que conseguiu ao mesmo tempo mostrar a força no senso de comunidade das minorias e criticar a elitização e sentimentos de superioridade presentes na causa LGBT+ foi Pose. Produzida por Ryan Murphy, mas felizmente escrita por outras pessoas, Pose não apenas tem o MAIOR FUCKING CASTING de pessoas trans da história da TV norte-americana como conta a história do auge dos ballrooms – competições em que membros da comunidade disputavam troféus pela primeira colocação dentro de categorias específicas na Nova York do final dos anos 80.

Por mais extensa que seja a sua bolha de empatia em relações sociais, esse não parece um tema a render uma temporada inteira, e foi até apontado por alguns jornalistas (antes da estreia) como um sistema de produção de TV que não poderia se sustentar por muitos episódios, já que se imaginou que mostraria as competições por “melhor voguing”, “mais bem vestido da noite” e etc.

Pose, entretanto, é muito mais que isso: à medida em que passam os episódios fica mais claro para quem assiste que o palco dos ballrooms é um espaço de protagonismo e pertencimento. Personagens que na sociedade são renegados à margem da existência: mulheres trans empurradas a prostituição, latinos que por falta de educação formal se voltam ao tráfico de drogas, mulheres negras enxergadas unicamente como objetos sexuais... Todos eles encontram nos bailes a chance de ganhar troféus por exibirem autenticidade entre seus pares.

Apesar de todos dramas e competição, os ballrooms eram espaços em que existe celebração em se viver do modo mais honesto com seu eu como se pode. Uma bolha de segurança e aceitação que só em gerações mais recentes ganha corpo e substância, que se externaliza aos ambientes ESTRITAMENTE LGBT friendly. Enquanto celebra a diferença e sobrevivência em uma sociedade homofóbica e sanitarista durante o auge da epidemia de HIV, Pose ainda encontra tempo para mostrar o sentimento de superioridade de casta corrente em alguns homens gays brancos quando se veem em frente de gays negros efeminados ou mulheres trans. Lições para se prestar atenção.

RuPaul’s Drag Race, um reality FUNDAMENTADO na ideia de aceitação de minorias, não pode escolher QUAIS dessas minorias são bem vistas na produção

Para se formar uma família, é necessário aceitar as diferenças nas personalidades que formam esse grupo social. Enquanto Pose mostra como pessoas muito diferentes e que se desentendem o tempo todo conseguem enxergar a NECESSIDADE de apoio entre elas em detrimento da rejeição do mundo externo, RuPaul’s Drag Race vai se tornando uma ilha de aceitação para quem atende a alguns preceitos raciais.

Como diria George Orwell: “somos todos iguais, mas alguns são mais iguais que outros”.