Hail To The King: se você for um PUTA fã de Godzilla, veja! | Judão

Agora, se você não for… ¯\_(ツ)_/¯

Desde sua origem, nos anos 50, até hoje em dia, a arte moderna do tokusatsu — termo aplicado a qualquer produção cinematográfica ou televisiva que use os tradicionais efeitos especiais japoneses —  já nos apresentou todo tipo de monstro gigante: da lendária tartaruga mutante Gamera, passando pelo monstrengo voador Rodan, chegando até os clássicos Mothra e Ghidorah, sem contar aqueles saídos de séries como Power Rangers, ou até Jaspion, Changeman e Ultraman.

Mesmo assim — e não à toa — um deles sempre se manteve à frente dos outros no coração dos fãs: o rei dos monstros, Godzilla.

Um ícone intocável da cultura pop desde sua primeira aparição cinematográfica, em 1954, o colossal dinossauro radioativo da Toho Studios protagonizou 28 filmes japoneses, além de outros dois (ou um, se você quiser desconsiderar a lagartixa bombada de Roland Emmerich, no filme de 1998), norte-americanos.

Inicialmente sérios e até assustadores, os filmes japoneses de Godzilla foram se tornando mais e mais leves e cômicos ao longo dos anos, conforme as técnicas de tokusatsu foram se tornando ultrapassadas e perdendo o ar realista.

Relegado cada vez mais a um nicho saudosista de mercado, o monstrão se viu na geladeira nipônica de ícones culturais quando, em 2004 — no seu aniversário de 50 anos — a Toho decidiu que não faria mais filmes do personagem por, pelo menos, dez anos. Uma pausa necessária, pros estúdios, para reavaliar a franquia. E fundamental, pro norte-americano Kyle Yount, pra ele decidir criar o que chama de “primeiro podcast 100% dedicado a kaiju da internet, dedicado a Godzilla e todos os seus inimigos emborrachados”.

godzilla_statue

Gojira e Kyle Yount

“Desde que houve uma pausa nos filmes do Goji, em 2004, eu me peguei focando mais em outros fandoms, mas eu precisava de uma boa desculpa pra voltar ao jogo”, escreve Kyle no histórico do Kaijucast. “Eu tenho alguns amigos que têm um programa de web-radio sobre filmes de terror toda sexta-feira e eles me chamaram pra participar do programa algumas vezes — foi demais! Então, depois da minha última participação, eu decidi começar a fazer podcasts”.

No ar desde 2009, o Kaijucast já teve quase 150 edições, (quase) todas elas dedicadas a discutir o poderoso DEUSZILLA e seu legado com fãs, jornalistas, blogueiros, pessoas envolvidas nas produções tokusatsu e, de vez em quando, a namorada de Kyle. Com contas no facebook, twitter, instagram, tumblr e, claro, youtube, o podcast conseguiu um bom número de ouvintes ao longo dos anos, e essa galera foi primordial pra que, em 2014, ele pudesse realizar seu mais ambicioso projeto: um documentário independente sobre o Rei dos Monstros.

Intitulado Hail To The King: 60 Years of Destruction, o filme mostraria uma viagem de Kyle e sua equipe ao Japão, pra visitar a Big Godzilla Special Effects Exhibition (uma exposição de cair o queixo, repleta de props dos filmes originais da Toho), e tentar capturar, por meio de entrevistas com cineastas, fãs e atores, o impacto do monstro na cultura do seu país — além de responder à obscura questão de qual será o futuro dos tradicionais tokusatsu no mundo tecnológico atual.

Anunciando o projeto em junho de 2014 — com uma data de lançamento prevista pra 3 de novembro do mesmo ano, no aniversário do monstro — Kyle resolveu voltar-se ao financiamento coletivo pra tirar a parada do papel, começando uma campanha no Kickstarter atrás US$ 8.000 DOLETAS para custear viagem, estadia e mão de obra duma pequena equipe.

Com apoio de outros podcasts, a imediata empolgação dos fãs com a ideia e um pouquinho de sorte, o objetivo não só foi alcançado, como foi muito, MUITO, superado, com Hail To The King angariando quase US$ 20.000. Mas se engana quem pensa que, a partir daí, deu tudo certo.

Voltando pros EUA, Kyle encarou o pesadelo de uma pós-produção cinematográfica pela primeira vez, logo tendo de adiar o lançamento do documentário com um vídeo de prestação de contas em seu canal do youtube. Com uma nova data prevista para o fim de novembro, sendo FAILADA mais uma vez, longa deve ter sido a espera dos financiadores, porque mais notícias sobre o filme só pintaram em maio de 2015, num novo vídeo.

Mas o que deve ter servido pra aliviar os ânimos da galera, dessa vez,  foi o fato de Kyle ter cravado uma data de lançamento um pouco mais ALCANÇÁVEL: 10 de julho, durante o G-Fest XXII — um festival anual dedicado totalmente ao Godzilla, realizado em Chicago.

Dito e feito. No dia 10 de julho, Hail To The King: 60 Years of Destruction estreou para todo o público presente no festival. No dia seguinte, chegou ao youtube, para todo o público presente... no mundo.

[fve]http://youtu.be/zVj-vNukfV8[/fve]

Eu não sou nenhum aficionado por Kaiju. Nem mesmo pelo simpático Godzilla (e olha que eu gostava até do filme de 1998). Mesmo assim, doido por cinema como eu sou, a ideia por trás do documentário de Kyle me pareceu brilhante, enquanto análise de um gênero extremamente relevante e igualmente influente pro que, hoje, curtimos do chamado cinema PIPOCA. :D

Só que o produto final de Hail To The King é um tanto quanto diferente do que eu esperava que fosse, por mais que faça sentido ser como é.

De antemão, já aviso: a edição não é genial, a fluidez não é das melhores e, dum ponto de vista jornalístico, o filme parece uma oportunidade perdida de se construir um verdadeiramente complexo e profundo retrato do impacto cultural de uma figura tão expressiva quanto Godzilla.

Só que, como praticamente todos os comentários feitos no vídeo, la no VOCÊTUBO deixam claro, nada disso importa pros fãs do monstrão. O que eles parecem querer é um exemplo do poder de Gojira em unir pessoas em torno de seu carisma nuclear — e isso, Hail To The King tem de sobra.

Logo de início, no documentário, acompanhamos Kyle e um contato seu no Japão, o militar Brandon Elijah Garza, passearem por uma exposição dedicada a Godzilla, uma enorme loja de brinquedos japonesa e baterem um descontraído papo. Brandon tem um canal no youtube voltado a brinquedos de Kaiju que ele encontra em Tóquio — o Tokio Toy Fiend — e aproveita seu tempo estacionado no país com o exército dos EUA pra produzir conteúdo pra ele.

Em seguida, o filme entra no que eu diria ser a parte de maior conteúdo — mas, também, de maior desperdício de potencial — com Kyle entrevistando Shinpei Hayashiya, diretor de longas como Gamera 4 e Godzilla vs Deathgilas, os atores Akira Takarada, Yoshio Tsuchyia, Akira Kubo, e a atriz japonesa Yukiko Kobayashi — todos parte do elenco de, ao menos, mais de um filme do Rei dos Monstros.

Os papos rolam de uma forma bacana — até bem-humorada em alguns momentos — mas Kyle não consegue ir a fundo em algumas boas questões levantadas pelos entrevistados, como o tamanho cada vez menor do mercado de Kaiju, no Japão, e a relação entre Godzilla e o medo de ataques nucleares no pós-Segunda Guerra.

papo com atores

Yoshio Tsuchyia, Akira Kubo, Yukiko Kobayashi, Akira Takarada e Kyle Yount

Logo, o filme chega no seu ponto-chave — aquele que deveria ser seu coração e principal razão de ser: a Big Godzilla Special Effects Exhibition. Resumida, SEM BRINCADEIRA, em um minuto de vídeo.

SÉRIO. :(

Dali, Kyle parte pra Kokubunji Studio, um tipo de coletivo estudantil que recria fantasias e efeitos especiais dos tokusatsu, como forma de estudá-los. Seria uma ótima forma de mostrar como são feitas as fantasias e props dos adorados longas. Mas não é isso que rola. Vemos algumas das excelentes réplicas produzidas pelos jovens e uma zoeirinha marota do diretor, mas nada de conteúdo ~real. Again.

Hail To The King se encaminha ao seu fim com uma passada pela fachada da Toho Studios — em que Kyle bate um papo pra lá de ensaiado com seu fotógrafo, David Eric Dopko — e um papo com alguns dos integrantes do Kokubunji Studio no Kaiju Sakaba, um bar temático dedicado aos monstros gigantes que o emprestam o primeiro nome.

Ali, dum jeito meio forçado, meio corrido, Kyle espreme a grande questão que se propôs a responder no início do projeto praqueles jovens apaixonados por Kaiju, e discute a aliança dos efeitos visuais práticos com o CGI que Hollywood fetichiza tanto (exatamente como J. J. Abrams está INTELIGENTEMENTE resgatando em Star Wars, ou como o próprio Japão está fazendo em produções como Attack on Titan). Todos entram num consenso. E sua jornada pela terra do Rei dos Monstros pode chegar ao fim.

Eu não sei se foi a falta de experiência, o cronograma apertado, a pressa em finalizar a edição do filme em meio a vários contratempos e atrasos, ou simplesmente a falta de bom material. Mas, pra mim, Hail To The King: 60 Years of Destruction acaba sendo muito mais uma viagem, de carona com Kyle, pelo Japão, do que, propriamente, um documentário analítico como ele se propõe a ser, bem no início. Em alguns momentos, confesso, fiquei com a impressão de estar assistindo um rolê de férias dum cara por aí. ¯\_(ツ)_/¯

Hail To The King: 60 Years of Destruction é um legítimo produto da internet moderna: feito por fãs, para fãs, com fãs e — em muitos momentos, infelizmente — mais sobre fãs do que qualquer outra coisa. Por isso, claro, ele funciona muito bem com — olha só — fãs do Rei dos Monstros, que vão se sentir convidados a essa viagem turística pelo Japão.

O problema fica por conta dos espectadores casuais, como eu, que podem não querer saber, por exemplo, quanto um youtuber que cobre brinquedos japoneses tem gastado de grana na sua coleção... :/