Harry Brown: muito mais que um Gran Torino britânico | Judão

Além de Sir Michael Caine chutando bundas, o filme traz uma interessante visão da criminalidade na Terra da Rainha – e vale MUITO uma assistida ;)

Se você ama Gran Torino, a meio que despedida agridoce, porém brilhante, de Clint Eastwood dos filmes mais ~sérios (enquanto ator, claro) AND ao mesmo tempo te agrada a ideia de ver Sir Michael Caine chutando bundas do alto de sua idade avançada, você tem tudo para curtir o criminosamente pouco conhecido Harry Brown.

Lançado em 2009, o filme é uma realização britânica de raiz, levando a assinatura de Matthew Vaughn na produção e mergulhando de cabeça num tema frequente do cinema inglês (presente até em Kingsman, veja só): a delinquência juvenil nos bairros mais pobres de Londres e adjacências.

Caine vive, claro, o tal Harry Brown do título, um veterano dos fuzileiros reais britânicos que mora sozinho num conjunto habitacional cada vez mais engolido pela criminalidade.

Alternando seu tempo entre visitas à esposa doente no hospital e jogos de xadrez com seu único amigo, no bar, ele é um dia surpreendido pelo assassinato desse #parça. Revoltado, decide tomar a justiça nas próprias mãos e, bom, você pode imaginar o que rola a partir daí.

Ou, bom, talvez não possa imaginar não, já que Harry Brown se veste daquela já clássica história de contornos fascistas sobre um justiceiro civil para mostrar como a degradação dos jovens vem sempre de gerações muito anteriores às deles, numa estrutura social que conduz as pessoas a partir da falta de oportunidades.

Essa visão, inclusive, passou a ser partilhada pelo próprio Caine, a partir das filmagens. Para mergulhar no papel de Brown, o ator retornou ao sul de Londres, onde cresceu em meio à bandidagem lá nos anos 40, para conhecer a situação atual dos jovens britânicos. E foi surpreendido.

“Eu fui para esse filme com a atitude de ‘vamos prender todos eles e jogar fora a chave’, todas essa opiniões velhas. Mas, agora, eu mudei completamente minha visão”, afirmou ele, em 2009, numa entrevista ao Telegraph. “Conhecendo crianças nas regiões de Elephant e Castle, percebi o quão errado eu estava. Elas nasceram como quaisquer outras crianças, mas se tornaram o que se tornaram pela sociedade que nós criamos”.

Segundo Caine, durante sua infância não havia muita escolha quando o assunto era sobreviver: era necessário entrar em gangues. Agora, porém, a situação é ainda mais grave. “Eu estou falando de crianças que iriam te assustar para cacete, mas eu percebi que elas foram abandonadas. Na minha época era álcool e brigas, mas agora são drogas, armas, facas e mortes”.

Harry Brown é um filme que não poupa o espectador na representação dessa realidade testemunhada por Caine, mas é também um filme bastante divertido para quem quer curtir uma clássica trama de ação, só que um mínimo de noção e consciência social. Bem mais do que, por exemplo, um certo trailer da nova versão de Desejo de Matar aí não passou nem perto de mostrar...

Pode chamar de Gran Torino britânico, mas a real é que, semelhanças à parte, Harry Brown é muito mais do que só isso. Mas se apenas essa frase for te convencer a vê-lo, já tá mais que ótimo. :D