Harry Potter e a representatividade amaldiçoada | Judão

A saga do Menino que Sobreviveu ainda é um oásis de tolerância e aceitação mas, com The Cursed Child, dava pra ter ousado mais e dado um passo além

Na última semana, rolou um evento que não acontecia há quase 10 anos: o lançamento de um novo livro do Harry Potter. Cê sabe, Harry Potter And The Cursed Child. Livro que não é como os primeiros, é uma peça teatral, escrita para ser encenada, daquele jeitinho shakespeariano mesmo, com atos, descrição de cenários e as falas. O argumento foi escrito por Jack Thorne e revisado e estruturado pela própria JK Rowling, que resolveu lançar a parada em formato impresso, pra alegria dos potterheads.

A peça estreou em Londres no último dia 31 de Julho e a primeira versão do livro, chamada de Edição de Ensaio, foi lançada no mesmo dia no mundo todo. Em 2017, JK lançará a versão definitiva, que pode ter parte dos diálogos adaptados com base na reação do público à peça.

É verdade que o “Mundo Mágico de Harry Potter” nunca ficou muito parado. Na Pottermore – site que é parte comunidade, parte rede social, parte universo bruxo – JK sempre solta alguns textos, revela detalhes sobre Hogwarts e até dá updates sobre a vida dos personagens principais (sabiam que a Gina virou repórter esportiva e cobre quadribol pelo Profeta Diário?). Mas uma história inédita, completa, longa e fechadinha, com começo, meio e fim, nós não vemos desde 2007. E que viagem no tempo é essa história...

A trama começa exatamente onde o sétimo livro termina, naquele epílogo horroroso em que Harry e Gina levam o seu segundo filho, Alvo Severo Potter, pra embarcar pela primeira vez para Hogwarts. A partir daí, a história dá alguns pulos e a ação só começa, de fato, no quarto ano de Alvo, que é um dos protagonistas. “Um dos”, porque seu companheiro de aventuras merece tanto destaque quanto ele. E este companheiro é ninguém menos do que... Scorpius Malfoy, o filho do Draco.

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Say WHAT?

A história da tal “Criança Amaldiçoada” é sobre amizade, relacionamentos, tolerância e aceitação, que não são temas novos dentro deste universo. Inclusive, um estudo de 2014 publicado pela Scientific American afirmou que pessoas que cresceram lendo Harry Potter são mais tolerantes com as minorias. Mas a nova história explora esse tema de uma maneira muito mais radical.

Se a mensagem de aceitação aos nascidos trouxas ficou bem clara como uma metáfora contra racismo e xenofobia através da experiência de Harry, por outro lado, não vemos com bons olhos os puro-sangue da Sonserina. Traduzindo em termos Facebook.br, podemos dizer que os livros ensinaram que não devemos ser racistas, machistas e xenofóbicos, mas deixaram subentendido que praticamente todo mundo da Sonserina é coxinha e não presta. Mesmos os heróis sonserinos eram enormes babacas (sim, estou olhando pra você, Snape). Pois agora, na nova história, a sensação é que finalmente temos um ponto de vista mais equilibrado sobre a casa da serpente.

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JUSTIÇA, MEUS AMIGOS

Temos também um Harry cheio de problemas não resolvidos e com o mesmo complexo de Messias de sempre, em um relacionamento conturbado com seu filho adolescente — que odeia ter um pai famoso que, a seus olhos, é praticamente perfeito em tudo. A única pessoa com quem Alvo se identifica é Scorpius, que também herdou a fama do pai e o estigma de ser um ex-comensal da morte (entre outras coisas). Adicione aí a ameaça real de uma retomada do poder das trevas e nós temos uma aventura riquíssima, que dialoga harmoniosamente com os sete primeiros livros e, assim como o maravilhoso personagem do Alvo, faz jus ao legado e entrega muito mais conteúdo do que a encomenda.

Só tem um probleminha.

Quando JK começou a construir a história do Menino que Sobreviveu, lá no começo dos anos 90, a cultura pop ainda precisava contrabandear ideias REVOLUCIONÁRIAS como a tolerância. Comercialmente falando, pouca gente dava a cara a tapa e contava histórias de minorias. JK, que teve dificuldade em emplacar o primeiro livro, colocou uma pitada de personagens não brancos aqui, uns personagens não heteronormativos ali, mas nada que realmente exclamasse REPRESENTATIVIDADE para LGBTs e pessoas não brancas.

Entendam que existe muita diferença entre falar sobre tolerância e, de fato, entregar representatividade. Nenhum dos personagens principais é descrito como não branco, nenhum personagem – at all – tem relacionamentos não-heterossexuais. Dumbledore “saiu do armário” apenas off-screen. Apesar de sua homossexualidade ser considerada canônica, nos livros ele tem apenas insinuações discretas de um relacionamento há mais de 100 anos com outro bruxo (que veio a se tornar um vilão).

Existe muita diferença entre falar sobre tolerância e, de fato, entregar representatividade

Nessa nova história, vemos brevemente a introdução de um personagem de ascendência indiana chamado Panju, o que intrigou (e irritou) muitos fãs indianos, simplesmente porque Panju NÃO É NEM UM NOME! Seria o mesmo que fazer um personagem brasileiro e dar a ele o nome de Tapioca. E nós tivemos o mesmo problema com Cho Chang, que no livro tem ascendência chinesa, mas cujo nome é formado por dois sobrenomes coreanos.

A verdade é que JK realmente nunca foi muito boa em dar nomes aos seus personagens (Alvo Severo Potter, sério?), mas quando se trata de outras culturas, a impressão é de que ela inventa uns nomes que soam étnicos aí e pronto, tá ótimo. E nem a gente se salva disso! A seleção do Brasil de Quadribol, lá na Pottermore, tem uma mina chamada Alejandra Alonso. Oi?

Migos, a JK fala português, ELA MOROU EM PORTUGAL, ela sabe que Alejandra é um nome hispânico. Além disso, já existe o Google, não tem desculpa!

Mas, além de Panju, outro detalhe da nova história não desce muito fácil. E agora teremos pequenas revelações de enredo, então se você é spoiler sensitive, teje avisado.

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Segura a marimba

SPOILER! Os personagens principais, Alvo e Scorpius, criam uma conexão extremamente forte desde a primeira cena, desenvolvendo a partir daí um relacionamento sem precedentes dentro do universo de Harry Potter. Eles são melhores amigos, estão sempre juntos, se abraçam, se sacrificam um pelo outro, sentem ciúmes um do outro e até declaram, literalmente, que se amam. É uma construção doce e delicada de um relacionamento claramente amoroso que termina com os dois desenvolvendo crushes heterossexuais.

Como LGBT, essa decepção é muito familiar pra mim. É o chamado queer bating, um recurso usado à exaustão na cultura pop, que cria homoerotismo entre personagens heterossexuais para alívio cômico ou simpatia das audiências LGBT. Quer alguns exemplos? House e Wilson, Sherlock e Watson, Castiel e Dean... Esse tipo de “isca” é particularmente danosa para a comunidade bissexual, porque define apenas duas alternativas possíveis: hetero ou homo, ignorando a existência de todo um espectro bissexual que poderia ser introduzido sem alarde em todas essas narrativas.

Harry Potter and the Cursed ChildÉ possível dizer que isso já aconteceu, de forma muito mais sutil, na própria saga original, entre Sirius Black e Remo Lupin. Os dois são um caso extremamente doloroso para potterheads LGBT. Há alguns anos, inclusive, um fã se deu o trabalho de reunir todas as evidências de que Lupin era bissexual e os dois mantinham um relacionamento secreto. E, amigos, são MUITAS evidências. Canonicamente, eles são apenas bons amigos, e para nós só restam os ships e as fanfics. #Wolfstar

Precisamos reconhecer que, mesmo sujeita a críticas, a saga Harry Potter ainda é um oásis de tolerância e aceitação, que ajudou a tirar muitos fãs da depressão. Especialmente fãs LGBT, que encontraram no épico de Harry um enorme apoio durante aquele período complicado e confuso de descoberta da identidade sexual. É uma jornada maravilhosa que acabou de ser expandida lindamente com Harry Potter and the Cursed Child.

Em 17 de novembro ainda teremos Animais Fantásticos e Onde Habitam nos cinemas. Dentro deste universo, o céu é o limite! É só que… a nossa querida Jojo, que é bastante vocal em prol das minorias nas redes sociais, poderia ter aproveitado essa oportunidade para mandar um pouco mais de amor para esses fãs, deixando a representatividade mais evidente no seu legado. <3

A versão impressa do livro Harry Potter and The Cursed Child está sendo vendida por aqui em inglês, mas também pode ser adquirida na versão digital. A edição em português chega só no dia 31 de Outubro.