A HBO quer mais. MUITO mais. Mas até aí... | JUDAO.com.br

…a gente sabe que QUERER nem sempre é PODER. E vamos lá, o que eles querem nem sempre é uma coisa boa…

Depois do Departamento de Justiça dos EUA aprovar a fusão histórica entre o grupo Time Warner e a AT&T, gigante americana das telecomunicações, tava todo mundo esperando pra saber que impacto isso teria no braço de entretenimento, que mudanças traria pro que a gente já conhece e consome. E eis que a mudança, quem diria, tá prometida pra começar justamente pela HBO (que, caso você não se lembre, também é parte da Time Warner).

E isso, vejam só, porque antes da aquisição de U$ 85,4 bilhões, os executivos da AT&T inicialmente reconheceram que a Time Warner tinha uma cultura corporativa diferente e se comprometeram em não interferir na HBO, por exemplo. Mas, pelo visto, esse discurso não durou muito tempo... Afinal, pra AT&T, a soma de conteúdo e streaming significa o futuro.

De acordo com o jornal New York Times, John Stankey, o novo CEO da Warner Media (conglomerado que inclui, além da HBO, também o estúdio de cinema Warner Bros., a CNN, a DC Comics, o CW e todos os canais da Turner, tipo o Cartoon Network), deu uma palhinha do que está por vir em uma reunião com 150 funcionários da HBO. Segundo ele, os próximos meses trarão mudanças difíceis, mas necessárias para modificar a direção do canal. A ideia é que a rede de TV por assinatura se torne “maior e mais larga” para competir com as novas gigantes de streaming como o Netflix, se adaptando ao cada vez maior fenômeno de “cortar o cabo”, principalmente nos EUA.

Aliás, apesar do Netflix não ter sido mencionado diretamente, o CEO sugeriu que ESTE seria o caminho a perseguir, aumentando substancialmente o número de assinantes e o tempo que os espectadores passam assistindo as produções, além de novos investimentos para aumentar o conteúdo oferecido. Resumindo? Injetar mais dinheiro para novas produções e aumentar o catálogo em busca da expansão.

Talvez esta cena e esta quantidade de estatuetas pra HBO não seja tão comum na próxima edição do Emmy, afinal...

Esse discurso de Stankey ganhou ainda mais força depois que saíram, na semana passada, as indicações ao Emmy 2018. Depois de 18 anos consecutivos liderando a corrida em busca das estatuetas máximas da TV americana, a HBO perdeu sua liderança para o próprio Netflix – a empresa de streaming lá de Los Gatos levou 112 indicações, enquanto a HBO levou 108.

Durante anos, a rede de TV por assinatura vinha sendo vista como um modelo de sucesso na indústria, exatamente por conta dessa diferença importante em relação à diversas outras criadoras de conteúdo. Um modelo de sucesso que sempre atraiu profissionais de primeira linha, que colaboraram para HBO permanecer aclamada pela crítica e pelo público. E, vamos lá, com o sucesso inegável de Game of Thrones e Westworld, a HBO arrecadou quase US$ 6 bilhões de dólares nos últimos três anos, gastando apenas US$ 2 bilhões.

Mas o que virou um direcionamento OFICIAL obviamente já tá no radar deles tem um tempo. Vide o HBO Go — que, infelizmente, já nasceu como uma ideia antiga, já que, pra assinar o serviço, originalmente você precisaria de uma de operadora de banda larga — que, normalmente, também vende TV, em especial em mercados como o latino americano. Ainda assim, uma espécie de balão de ensaio pro que estava por vir. Afinal, ano passado, lá em Cannes, Richard Plepler, CEO da HBO, deixou escapar que eles teriam uma “plataforma global” do chamado over-the-top em algum momento deste ano. Por “over-the-top”, ou OTT, entenda-se como STREAMING.

Talvez a AT&T esteja dando uma pressionada pra ACELERAR este processo?

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

De qualquer maneira, se a ideia é focar no modelo do Netflix, a frase “injetar mais dinheiro para novas produções e aumentar o catálogo em busca da expansão” faz todo o sentido. A parte de “aumentar o catálogo” talvez possa começar a ser resolvida junto aos outros parceiros do mesmo grupo — que, sejamos francos, não são poucos. Mas vamos nos focar aqui mesmo é na parte de “novas produções”. Tamos falando aí, portanto, de ORIGINAIS. Ouvidos pela imprensa especializada, alguns analistas de mídia, como Craig Moffett, da MoffettNathanson, em entrevista ao TheWrap, expressaram preocupação com esta “corrida” pra aumentar simultaneamente a produção da HBO e sua lucratividade.

A ganância desta “nova” HBO poderá levar a rede a um caminho sem volta. Com uma quantidade maior de produções simultâneas, a qualidade das produções pode sofrer uma queda significativa. Com isso, a HBO poderá passar pelo menos problema recorrente do Netflix: entregar uma quantidade INSANA de produções que nem sempre estão no mesmo nível de qualidade.

A HBO só produz coisas boas? Não, Fahrenheit 451 e Vinyl são provas de que todos podem fazer escolhas equivocadas. Mas quanto mais seletivo é seu processo de produção, menor a chance de você entregar uma bomba e gastar uma grana que não retornará ao seu bolso. Essa mudança de estratégia pode aumentar seu catálogo, mas também pode afastar o assinante que prefere a qualidade e não a quantidade.

É isso. Mas não EXATAMENTE isso.

“Olha, nesse universo, nós percebemos várias coisas como falhar não ser uma coisa tão ruim assim, e se você não está falhando é porque talvez não tenha tentado o suficiente”, chegou a afirmar Ted Sarandos, o CCO do Netflix, durante uma conferência sobre os resultados financeiros, no final do ano passado. “Nós temos um bom índice de sucesso e, mesmo com os nossos cancelamentos recentes, ainda temos 93% de renovação das nossas séries”. Já em abril deste ano, numa carta enviada aos acionistas, Sarandos disse que eles ainda estão dispostos continuar tendo um fluxo livre de caixa negativo para poder fazer com que a sua oferta de conteúdo original cresça rapidamente.

Esta é uma estratégia e, principalmente, um risco que a HBO tá disposta a manter?

Além disso, esses novos gastos da HBO vão além da produção de conteúdo. Para “acomodar” essa quantidade enorme de assinantes que eles desejam, vão precisar gastar uma grana considerável para melhorar seu serviço. TECNOLOGIA, né? Basta lembrar da quantidade de reclamações que a HBO recebe sempre que seu serviço cai antes do início de um novo episódio de Game of Thrones. Tem que estar preparado para segurar a onda da demanda.

Se o desejo da nova Time Warner + AT&T é atrair o público do Netflix, o novo combo de empresas terá uma caminho muito longo pela frente para se aproximar dos incríveis 118 milhões de assinantes globalmente do concorrente. E, claro, vai precisar abrir BEM as carteiras.