#HeForShe: estamos com você, Emma Watson | Judão

Se alguém ainda tinha alguma dúvida disso, a “Embaixadora da Boa Vontade” da ONU provou que não só pode conseguir a paz mundial, como é provavelmente o maior ser humano vivo. ;)

Educação. Pra nós aqui do JUDÃO, a base de qualquer coisa boa que se quer / possa construir começa com uma boa educação.

Não só ensino, aeiou, 2+2, mas toda e qualquer coisa que se pretende evoluir deve começar com uma boa educação. Que se ensine, que se explique, que se mostre e, o principal, que se aprenda.

Nesse domingo, 21, a Emma Watson lançou, em parceria com a ONU, onde é embaixadora da Boa Vontade da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, a campanha “He for She”, que pretende fazer com que os homens passem, também, a lutar com as mulheres pela igualdade de gêneros.

“Quanto mais eu falava sobre feminismo, mais eu percebi que lutar pelos direitos das mulheres tinha virado um sinônimo de ódio aos homens. Se tem uma coisa que eu sei com certeza é que isso precisa parar”, disse, durante um discurso na ONU, pelo qual foi aplaudida de pé. E, de fato, essa é a primeira impressão que muita gente tem sobre o feminismo. Eu, inclusive, não mais do que meses atrás.

“Minha vida é privilegiada porque meus pais não me amaram menos porque eu era uma menina. Minha escola não me limitou porque eu era uma garota. Meus mentores não assumiram que eu iria menos longe porque eu poderia ter um filho um dia. Essas influências são as embaixadoras da igualdade de gêneros que me fizeram ser quem eu sou hoje. Eles podem não sbaer, mas eles são os feministas que o mundo precisa hoje. Precisamos de mais.”

Sempre preferi as mulheres, pra tudo. Gosto mais de mulheres atuando, prefiro mulheres cantando, acho que vou mais longe com mulheres escrevendo, produzo melhor trabalhando com mulheres, me sinto melhor conversando com mulheres. Já até disse por aí que gostaria de ter nascido mulher.

Ao mesmo tempo, sempre compartilhei e consumo fotos e vídeos de mulheres; a medida que fui crescendo, ficando mais velho e ganhando experiência, passei a ser super a favor de que as mulheres deem pra todo mundo que quiser, usar o que quiser, falar o que quiser, fazer o que quiser.

Eu, na verdade, não vejo qualquer diferença entre os gêneros — tirando as físicas, que me atraem sexualmente e me fazem crer que o basquete e o futebol deveriam ter campos de jogos, bolas e regras é bem mais específicas. E peitos... Existe algo mais bonito que peitos? <3

Emma Watson ao lado do secretário geral da ONU, Ban Ki-moon

Emma Watson ao lado do secretário geral da ONU, Ban Ki-moon

Pra mim, portanto, não fazia sentido um movimento se chamar “feminismo” ao invés de “sexismo”, ou “humanitarismo”, não sei. Se o óbvio é a igualdade, por que esse nome? “Se você odeia a palavra, não é ela que importa. É a ideia e a ambição por trás, porque nem todas as mulheres receberam os mesmos direitos que eu”, disse Emma Watson.

Claro, a internet, tirando raríssimas exceções, não ajudava. O simples fato de eu compartilhar uma foto ou uma opinião sobre a beleza de uma mulher, resultava em ofensas; lia textos que atacavam os homens que não querem que o feminismo tenha esse nome (ainda que por motivos diferentes de mim); e, bem, o Tumblr né?

Há algumas semanas, porém, começou o tal do #GamerGate. Resumindo muito resumidamente, resolveram dizer que um jogo, feito por uma mulher, só foi bem falado porque ela teria trepado com um jornalista de games e, enquanto isso, uma série de vídeos que mostravam o tratamento dado às mulheres nos videogames causou uma revolta na comunidade gamer. Em busca da ética, da justiça, surgia o #GamerGate.

Pegaram fotos dessa dev nua e começaram a espalhar por aí, acabaram expulsando a outra de casa por ameaças. As ofensas iam diretamente ao fato de serem mulheres; e a esmagadora maioria dos que ofendiam, claro, eram homens. Um movimento totalmente orquestrado, que chegou a considerar a possibilidade do suicídio de uma das duas como vitória.

Assim como aquela menina que se matou porque teve um vídeo vazado na internet.

#GamerGate

#GamerGate

Acompanhar tudo isso de perto, todos os ataques, tudo o que se dizia, me fez entender porque o tal do movimento se chamava feminismo. Não há como fingir que não exista, NO MÍNIMO, um privilégio pra quem é homem nessa sociedade em que vivemos. E fica até mais fácil perceber não só o privilégio que tenho por ser homem como por também ser branco e heterossexual. Eu tenho plena noção de que vivo no topo de uma pirâmide que inventaram e que eu gostaria MUITO que não existisse.

Sim, sim, claro! Há também mulheres que fazem suas merdas. Que divulgam imagens e informações sobre homens, que abusam, que ofendem e que, em resumo, são babacas também. Mas, pare pra pensar... Quantas assim você conhece? E quantos homens assim você conhece?

Aí surge Emma Watson. A “minha, só minha” Emma Watson, como escrevo há ANOS aqui no JUDÃO. Uma das mulheres mais apaixonantes de que se tem notícia, usa toda a sua magia influência que tem sobre homens e mulheres, de todas as idades, com uma proposta educativa, não combativa, em relação a igualdade de gêneros. “Eles por Elas”. Uma proposta que tenta mostrar pros homens que o feminismo não é exatamente o que fazem parecer, tanto homens quanto mulheres, mas sim uma luta justíssima pra colocar as mulheres no lugar delas: no meio dos homens, de outras mulheres, de todas as idades, de todas as cores. Sem diferença nenhuma.

Afinal de contas, macaco é a putaquepariu. Somos todos humanos.

“Equalidade de gêneros não é só um problema das mulheres, é um problema de direitos humanos que requer minha participação. Eu me comprometo a tomar atitudades contra todas as formas de discriminação contra mulheres e garotas”. É isso o que você diz, ao “entrar para o movimento” no site HeForShe.org. E é o que nós aqui do JUDÃO dizemos, oficialmente, a partir dessa segunda-feira, 22 de Setembro de 2014. Primeiro porque é a Emma Watson; segundo e terceiro e quarto e enfim, porque é algo que pode ajudar a mudar o mundo. E, acima de tudo: é porque é o certo.

Dê uma chance à educação. Leia mais sobre essa proposta, abra sua mente, enxergue o seu lugar na sociedade, tenha uma posição mais questionadora em relação ao universo. Você que gosta de sempre bater de frente e atacar, também, pare pra pensar que talvez o problema não seja o que você fale, mas sim a maneira.

Não há nada de errado em mudar de opinião, saiba você. Essa é uma das belezas do ser humano. É assim que todos nós evoluímos como pessoas, como sociedade.

Essa é a missão do JUDÃO. Há 14 anos no ar, aprendemos muito, crescemos muito. Queremos divertir, queremos informar, queremos educar, queremos fazer pensar.

Nós e a Mione. ;)

Aí embaixo você confere a transcrição do discurso completo dela na ONU, em Nova York, traduzido pelos nossos amigos do QDNG. :)

    Hoje estamos aqui lançando a campanha HeForShe. Eu estou falando com vocês porque precisamos de ajuda. Queremos acabar com a desigualdade de gêneros – e pra fazer isso, todo mundo precisa estar envolvido.

    Essa é a primeira campanha desse tipo na ONU. Precisamos mobilizar tantos homens e garotos quanto possível para a mudança. Não queremos só falar sobre isso. Queremos tentar e ter certeza que é tangível.

    Eu fui apontada como embaixadora da boa vontade para a ONU Mulheres há seis meses e quanto mais eu falava sobre feminismo, mais eu me dava conta que lutar pelos direitos das mulheres muitas vezes virou sinônimo de odiar os homens. Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que isso tem que parar.

    Para registro, feminismo, por definição é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os sexos.

    Eu comecei a questionar as suposições baseadas em gênero quando eu tinha oito anos, fui chamada de mandona porque eu queria dirigir uma peça para nossos pais – mas os meninos não foram. Aos quatorze anos, sendo sexualizada por membros da imprensa. Com quinze anos, minhas amigas começaram a sair dos times esportivos porque não queriam parecer masculinas. Aos 18, meus amigos homens não podiam expressar seus sentimentos.

    Eu decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular. Aparentemente, eu estou entre as mulheres que são vistas como muito fortes, muito agressivas, anti homens, não atraentes.

    Por que essa palavra se tornou tão impopular?

    Eu sou da Inglaterra e eu acho que é direito que me paguem o mesmo tanto que meus colegas de trabalho do sexo masculino. Eu acho que é direito tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho que é direito que mulheres estejam envolvidas e me representando em políticas e decisões tomadas no meu país. Eu acho que é direito que socialmente, eu receba o mesmo respeito que homens. Mas infelizmente, eu posso dizer que não existe nenhum país no mundo em que todas as mulheres possam esperar ver esses direitos.

    Nenhum país do mundo pode dizer ainda que alcançou igualdade de gêneros. Esses direitos são considerados direitos humanos, mas eu sou uma das sortudas. Minha vida é de puro privilégio porque meus pais não me amaram menos porque eu nasci filha. Minha escola não me limitou porque eu era menina. Meus mentores não acharam que eu poderia ir menos longe porque posso ter filhos algum dia. Essas influências são as embaixadoras na igualdade de gêneros que me fizeram quem eu sou hoje. Eles podem não saber, mas são feministas necessários no mundo de hoje. Precisamos de mais desses. Não é a palavra que é importante. É a ideia e ambição por trás dela, porque nem todas as mulheres receberam os mesmos direitos que eu. De fato, estatisticamente, muito poucas receberam.

    Em 1997, Hillary Clinton fez um famoso discurso em Pequim sobre direitos das mulheres. Infelizmente, muito do que ela queria mudar ainda é verdade hoje. Mas o que me impressionou foi que menos de 30% da audiência era masculina. Como nós podemos efetivar a mudança no mundo quando apenas metade dele é convidada a participar da conversa?

    Homens, eu gostaria de usar essa oportunidade para apresentar o convite formal. Igualdade de gêneros é seu problema também.

    Até hoje eu vejo o papel do meu pai como pai ser menos válido na sociedade. Eu vi jovens homens sofrendo de doenças, incapazes de pedirem ajuda por medo de que isso os torne menos homens – de fato, no Reino Unido, suicídio é a maior causa de morte entre homens de 20-49 anos, superando acidentes de carro, câncer e doenças de coração. Eu vi homens frágeis e inseguros sobre o que constitui o sucesso masculino. Homens também não tem o benefício da igualdade.

    Nós não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos esteriótipos de gênero mas eles estão. Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não tem a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas. Tanto homens quando mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes.

    É hora de começar a ver gênero como um espectro ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. Deveríamos parar de nos definir pelo que não somos e começarmos a nós definir pelo que somos. Todos podemos ser mais livres e é isso que HeForShe é sobre. É sobre liberdade. Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos.

    Você pode pensar: Quem é essa menina de Harry Potter? O que ela está fazendo na ONU? É uma boa questão e acreditem em mim, eu tenho me perguntado a mesma coisa. Não sei se sou qualificada para estar aqui. Tudo que eu sei é que eu me importo com esse problema e eu quero melhorar isso. E tendo visto o que eu vi e sendo apresentada com a oportunidade, eu acho que é minha responsabilidade dizer algo. Edmund Burke disse: “Tudo que é preciso para que as forças do mal triunfem é que bons homens e mulheres não façam nada.”

    Cheia de nervos para esse discurso e em um momento de dúvida eu disse pra mim mesma: se não eu, quem? Se não agora, quando? Se você tem as mesmas dúvidas quando apresentado uma oportunidade, eu espero que essas palavras possam ajudar.

    Porque a realidade é que se a gente não fizer nada, vai demorar 75 anos, ou até eu ter quase 100 anos antes que mulheres possam esperar receber o mesmo tanto que os homens no trabalho. 15.5 milhões de garotas vão se casar nos próximos 16 anos como crianças. E nas taxas atuais não vai ser até 2086 até que todas as crianças da África rural possam receber educação fundamental.

    Se você acredita em igualdade, você pode ser um desses feministas que não sabem sobre os quais eu falei mais cedo. E por isso, eu te aplaudo.

    Estamos lutando, mas a boa notícia é que temos a plataforma. É chamada HeForShe. Eu convido você a ir em frente, ser visto e se perguntar: se não eu, quem? Se não agora, quando? Obrigada.