Helter Skelter e a obsessão mútua entre Charles Manson e o rock | JUDAO.com.br

O assassino de Sharon Tate direcionou parte de sua vida com base nas letras de um disco dos Beatles (embora dissesse que era o contrário) — mas o lance é que diversos roqueiros, de alguma forma, também resolveram que a obra do sujeito seria uma boa “fonte de inspiração”

Depois de bons trinta anos de carreira, muita gente parece nem se dar mais conta disso, mas o nome de palco de Brian Hugh Warner, aquele que NUNCA FOI o Paul de Anos Incríveis (infelizmente, mas é bom sempre relembrar), é uma justaposição de dois ícones da cultura pop dos anos 1950/60: Marilyn, claro, veio de Marilyn Monroe. E o sobrenome Manson vem de Charles Manson, líder do culto/família/comunidade que chacinou a atriz Sharon Tate e mais oito pessoas em Agosto de 1969.

A ideia era misturar o lado mais doce/sexy de Marilyn com a pegada sombria/macabra de Manson. No fim, deu certo e passou a mensagem — ainda que o próprio Charles Manson não fosse aparentemente lá muito fã da homenagem (o criminoso enviou uma carta escrita à mão, diretamente da cadeia, para o músico, na qual o ameaçava pelo uso do nome caso não topasse contribuir com sua “causa ambiental”. É algo que parece ser nesta linha, já que o texto não faz lá muito sentido (leia aqui e tente decifrar o mistério). A parte mais bizarra de tudo, no entanto, é pensar que, para Marilyn Manson, um Charles Manson fosse um “ícone pop” tão importante quanto Marilyn Monroe.

Esta estranha obsessão pela doentia figura de Charles Manson está longe de ser exclusividade do autor de Beautiful People, ainda que seu nome seja indicativo mais óbvio — mas, por exemplo, bandas como Kasabian e os eletrônicos do Spahn Ranch se inspiraram diretamente na “mística” em torno da Família Manson. Enquanto os primeiros escolheram o sobrenome de uma das seguidoras de Charles, Linda Kasabian, os últimos foram buscar inspiração no nome do rancho que abrigou o grupo na Califórnia. Isso sem falar nas muitas bandas que mencionaram o assassino em suas letras ou, vejam vocês, chegaram a regravar algumas de suas músicas.

Sim, sim, pois é. Antes dos crimes que o tornaram infame, Manson tinha lá suas pretensões artísticas. Conhecia Neil Young, que frequentava sua casa. E também compunha canções que, em sua maioria, só chegaram a ganhar algum tipo de notoriedade DEPOIS dos assassinatos.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

Cease to exist

Com a ajuda do amigo produtor musical Phil Kaufman, por exemplo, colocou na rua em 1970, depois dos crimes, Lie: The Love and Terror Cult, uma compilação de faixas meio folk-rock psicodélico escritas/gravadas entre 1967 e 1969 — e que acabou, num esquema bem independente, tendo apenas 2.000 cópias do LP prensadas, já que diversas gravadoras se recusaram a lançar o material de um assassino (palavra que, aliás, vamos repetir ALGUMAS VEZES ao longo deste texto, para ficar bem claro).

O disco trazia Cease to Exist, que é a versão original de uma canção que os fãs dos Beach Boys bem conhecem...

Eis o que aconteceu: certa vez, Dennis Wilson, o batera dos Beach Boys, deu uma carona pra duas garotas, assim, meio hippies. Eles ficaram amigos e as tais jovens foram responsáveis por fazer com que ele conhecesse seu mentor, ninguém menos do que Charles Manson. Na época, ele era apenas um tipo esquisitão que tentava retomar a vida depois de uma passagem pela cadeia (ah, “coisa de moleque”, sabe?), um cara que queria ser cantor/compositor, que mostrou pro Wilson uma de suas músicas. Era meio de esperar que eles se tornassem amigos.

O cara gostou, levou pra banda, mas eles acabaram mexendo na letra e até trocaram o nome, tornando-a Never Learn Not to Love, lado B do single Bluebirds Over the Mountain — tudo sem créditos pro autor original. Claro que Manson ficou puto, claro que Manson ameaçou a família de Wilson, claro que as canções que ele gravou no estúdio da banda e com produção de Brian e Carl Wilson nunca viram a luz do dia, claro que a amizade entre os dois foi por água abaixo.

Depois de tentar emplacar suas composições colocando-as nas mãos de Terry Melcher, produtor do grupo The Byrds, além de protagonizar uma lenda urbana sobre ter feito uma audição pra integrar os Monkees, Manson então se focou em sua missão: a preparação para uma espécie de apocalipse, cujo pontapé inicial se daria com uma guerra racial entre negros e brancos. Sabe quem falava sobre isso, senhoras e senhores? Os Beatles, é claro. Ou, pelo menos, na cabeça do Manson eles falavam, né?

Catherine Share, uma das seguidoras da Família Manson, revelou ao documentário Manson, de 2009, que quando saiu o Disco Branco do quarteto de Liverpool, em 1968, Charles simplesmente pirou (mais). “Ele ouvia sem parar, de novo, de novo e de novo. Ele estava convencido de que os Beatles tinham se conectado ao seu espírito, que tudo ia desmoronar e os negros iam se levantar”. Mas ela explica: “Não é que o Charlie ouviu o White Album e começou a seguir o que os Beatles estavam seguindo. Foi o contrário. Ele achava que os Beatles estavam falando sobre tudo aquilo que ele vinha expondo há anos. Cada canção do disco ele achava que era sobre nós. A música Helter Skelter, ele interpretava que significava que os negros iam dominar os brancos”.

Pois é, então. O tal cenário apocalíptico desenhado por Manson acabou sendo justamente batizado de Helter Skelter, a expressão que se tornou perpetuamente associada a ele mas que dava título à barulhenta canção de Paul McCartney que é considerada por alguns críticos como uma das precursoras do heavy metal. Na real, Macca queria provar que conseguia escrever algo sujo, fugindo da pecha de apenas e tão somente um bom baladeiro. Bastou ouvir Pete Townshend, guitarrista do The Who, dar uma entrevista pra uma rádio descrevendo I Can See for Miles como sua faixa mais pesada até o momento, para que o Beatle se inspirasse.

Surgiria ali uma canção sobre caos, sobre ir do topo ao chão, sobre derrocadas. E cujo nome vem de uma atração típica dos parques de diversão ingleses, um escorregador em espiral que vai descendo ao redor de uma torre. Só que pro Manson, ali tinha mensagem cifrada. Assim como em Blackbird e em Piggies. Todas, em tese, provariam a sua teoria de que uma guerra entre negros e brancos estava a caminho. E que caberia a ele, ah, vejam vocês, ajudar a deflagrá-la.

Se liga na porra da teoria do cara: lançar um disco com canções que tivesse mensagens tão sutis quanto esta do disco dos Beatles, sobre o “amor jovem”, ajudando a instruir as jovens mulheres brancas a se juntarem à sua família. Sem as minas brancas, os homens negros se veriam desprovidos das amantes potenciais cujo ambiente de liberdade sexual dos anos 1960 tinham tornando disponíveis para eles (!), iniciariam uma série de crimes contra os brancos (!!), o que geraria uma reação dos pobres brancos assustados (!!!). Então, os grupos organizados de negros militantes iniciariam uma campanha de extermínio e os brancos seriam varridos (!!!!) dos EUA, da América, da Terra, sei lá.

Mas a Família Manson, ah, eles estariam livres destes extermínio porque se esconderiam numa cidade secreta debaixo do Death Valley, que seria acessível por um buraco no chão. Então, eles seriam os únicos brancos sobreviventes, que surgiriam para dominar o mundo, já que os negros não seriam capazes de liderar as coisas por aqui. Esta foi a incrível visão que Charles Manson teve.

MAS VAI TOMAR NO MEIO DO SEU CU SEU RACISTA ESCROTO DO CARALHO.

O ponto é que, além da expressão “Pig”, outra expressão escrita à sangue, nesse caso na geladeira dos LaBianca e inspirada na obra dos besouros era, adivinha, “Healter Skelter”. É, tinha um A sobrando ali, mas já dá mesmo pra imaginar do que se trata, né? Quando um jornalista da revista Rolling Stone viu uma foto da tal inscrição icônica nas paredes da delegacia que tratava do caso, tinha tudo que precisava para o perfil que se tornou histórico de Manson, aquele que o catapultou de vez para as entranhas da cultura pop como sinônimo de loucura, insanidade, caos e morte. Mas que, para alguns, também tornou-se sinônimo de “rebeldia”, de “contestação contra o sistema”, de “enfrentar o mainstream, o establishment“. E foi aí que surgiu a faísca pra fazer o rock de alguma forma se “apaixonar” por sua imagem e por toda a iconografia ao seu redor.

Em Bloodbath in Paradise, canção do disco solo No Rest for The Wicked (1988), Ozzy conta a história de Charles Manson quase como se ele fosse um monstro de filme de terror, que pode aparecer para apavorar quem mora em Hollywood — a letra deixa claro que estamos diante de um bicho-papão para quem vive no “paraíso” das mansões da cidade das estrelas: “If you’re alone then watch what you do ‘cos Charlie and the family might get you”. Já os Ramones, em Glad To See You Go, fazem uma espécie de sátira pouco sutil na canção que serviu como despedida para a namorada de Dee Dee, Connie, que a banda inteira odiava, “I’m gonna laugh you’re gonna get a blood bath / And in a moment of passion get the glory like Charles Manson”.

O próprio Marilyn Manson faria lá sua homenagem ao gravar, em 2000, uma versão acústica de uma composição de Charles Manson, Sick City. O mesmo Marilyn Manson, aliás, que é amigo de Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que gravou todo o seu disco The Downward Spiral (1992) lá no 10050 da Cielo Drive, em Los Angeles. Tamos falando nada mais nada menos do que o endereço da mansão na qual Sharon Tate e seus convidados foram brutalmente assassinados pela trupe de Charles Manson. Manson, o Marilyn no caso, afirma ter sido apresentado a Axl Rose pelo próprio Trent Reznor nos bastidores de um show do U2 e que, no meio do papo, contara ao vocalista dos Guns ‘n Roses que parte da letra de sua canção My Monkey trazia trechos de Lie: The Love and Terror Cult, que o loirinho simplesmente desconhecia. Seis meses depois, bingo, lá está um cover de Look at Your Game, Girl em The Spaghetti Incident?, do Guns. “Virou modinha os músicos fazerem referência ao Charles Manson em suas músicas”, teria dito um MM meio puto da vida.

Axl não concorda com a versão, afirmando que foi seu irmão que descobriu o disco de Charles e lhe apresentou a obra. De qualquer forma, a canção sobre uma mulher “louca” em busca de amor acabou indo parar como “faixa secreta” do álbum de covers do GnR, gerou bastante controvérsia (com razão, sejamos francos).

A própria banda não topava a ideia — Slash achava que era uma música de Dennis Wilson, dos Beach Boys — e no fim apenas Dizzy Reed participou da gravação, na percussão. Para tornar a toda coisa ainda mais bizarra, Axl usou na turnê uma hoje icônica camiseta vermelha com a cara de Charles Manson e a frase “Charlie Don’t Surf”, que tanto referencia a música do The Clash quanto a relação de Manson com os Beach Boys.

“Eu gostei da letra e da melodia. Ouvir aquilo me chocou, e pensei que outras pessoas gostariam de ouvir”, justificou à época, em diversas entrevistas, um confuso Axl, que fez questão de deixar claro que, não, não estava glorificando Charles Manson. “De forma alguma posso ser considerado um especialista em Manson ou algo assim, mas as coisas que ele fez são algo no que não acredito. Ele é um indivíduo doente. (...) Manson é uma parte sombria da cultura e da história dos EUA. Eu usei a camiseta ‘Charlie Don’t Surf’ como uma declaração, porque a maioria das pessoas gostam de me pintar como o vilão. Lamento, mas não sou esse cara. Não tenho nada a ver com ele”.

De qualquer forma, os royalties da faixa acabaram sendo revertidos para Bartek Frykowski, filho de Wojciech Frykowski, uma das vítimas daquela noite na casa de Tate — e cujos próprios filhos eram fãs do Guns. Mesmo assim, ele processou a banda recorrentemente até que finalmente foi ouvido. “Mesmo que esta situação não possa mudar o passado, minha esperança é que algo positivo possa emergia disso no futuro”, declarou oficialmente quando o resultado judicial saiu. Bom, pelo menos esta grana não foi parar nas mãos de um ASSASSINO, né.

Também causou polêmica a declaração de Daron Malakian, guitarrista do System of a Down, ao dizer, em 2017, quando Charles Manson morreu, que estava “muito triste” ao saber do ocorrido. “Durante o tempo em que compus o disco Toxicity, as entrevistas e a música de Manson me influenciaram muito como artista”, afirmou em seu Facebook. Neste disco, inclusive, consta a canção ATWA, acrônimo para “Air, Trees, Water, Animals”, que define o sistema de suporte de vida na Terra como parte do movimento ambiental criado e defendido pelo assassino.

Este ano, ao ser questionado a respeito no podcast Talk is Jericho, apresentado pelo lutador e músico Chris Jericho, Malakian tentou explicar melhor o que quis dizer, já que quase se afogou uma enxurrada bastante justificável de críticas. “Não necessariamente acho que ele foi tratado de forma injusta. Eu nunca me interessei por assassinos ou coisas do tipo, apenas costumava assistir às audiências de condicional dele, daí me deparei com o que ele tinha a falar”, diz, ao defender que Manson era bem articulado e sabia passar sua mensagem de um jeito único, interessante e original.

“As pessoas pensam que estou apoiando um assassino. Quando se trata de seus pontos de vista sobre a sociedade e coisas do tipo, concordo com ele de muitas maneiras e acho interessante”, afirmou. “Meu interesse não é nos assassinatos. Manson também tinha pontos de vista muito válidos sobre a sociedade e o meio ambiente. Eu não respeito assassinatos ou assassinos de qualquer forma!”. Sei...

Quem tem um posicionamento similar, ainda que mais incisivo no que diz respeito a condenar as mãos sujas de sangue de Charles Manson, é o cantor e diretor de cinema Rob Zombie — que inclusive narrou um documentário sobre o sujeito, Charles Manson: The Final Words. Zombie chegou a começar a desenvolver para a Fox um projeto televisivo a respeito dos assassinatos, em parceria com o escritor Bret Easton Ellis (conhecido pelo livro que deu origem ao filme Psicopata Americano). “Eu sou obcecado por esta história desde que era moleque, então obviamente mergulhei neste projeto assim que tive a chance”, afirmou Zombie, em entrevista pra Variety. “Depois de conversar com Bret, imediatamente percebi que partilhávamos da mesma visão para este épico da loucura”.

Vale lembrar que o ex-cantor do White Zombie já tinha criado uma atração de Halloween em Los Angeles, o “Rob Zombie’s Great American Nightmare”, que nada mais era do que uma casa mal-assombrada com elementos que remetiam diretamente ao terrível crime.

Ano passado, numa entrevista para a revista Metal Hammer, na edição em que foi o editor convidado, Zombie afirmou que de forma alguma estaria de luto pela morte de Manson. “Ele tinha que estar preso? Mas é claro que sim! Só que ninguém pode negar que ele sabia ser divertido. É uma pena que não haja mais entretenimento vindo daquele cara”.

Rob, eu te adoro como músico e como cineasta (aqui talvez um pouco menos, confesso). Mas... não, Charles Manson não era divertido. Era um assassino, um racista escroto, um manipulador nojento que queria estar cercado de jovens garotas. Numa boa? Gostaria de poder acreditar em céu e inferno só pra ter a certeza de que ele está devidamente sentado no colo do capeta.

Amém.