Heróis em Crise e uma gigantesca oportunidade perdida | JUDAO.com.br

Na nova série cheia de potencial, Tom King consegue reunir um monte de ótimas ideias mas, infelizmente, não consegue costurar todas elas de maneira coerente. Uma pena… :(

SPOILER! Quando anunciou sua nova série na DC, o badalado escritor Tom King logo tratou de deixar claro que, apesar da palavra “crise” no título, não era MAIS uma daquelas sagas épicas que prometem colocar a cronologia nos eixos... “Vamos nos permitir abrir centenas de heróis ao tipo de exame que demos ao Scott Free”, contou o roteirista, em referência à sua premiada mini do Senhor Milagre.

Esta era uma notícia incrível, uma das melhores anunciadas na San Diego Comic-Con do ano passado. Afinal, depois do que ele fez com o herói escapista e igualmente com o Visão na Marvel, o potencial de uma história na qual exploraria o transtorno pós-traumático nos super-heróis, os efeitos da violência em seu cotidiano e como isso afeta a sua saúde mental, cara, era imenso.

Assim como foi imensa a decepção ao chegar no final dos 9 números da minissérie. Não estamos falando de algo que é um desastre completo porque, vejam, tem um escritor bastante inteligente por trás da batuta. Mas estamos falando de algo que poderia ser MUITO mais do que é. Aliás, para ser honesto, a grande questão com Heroes in Crisis é justamente que King parece ter sentido falta de trabalhar com uma ambientação mais INTIMISTA, focada em um pequeno grupo de personagens, tal qual em Visão ou Senhor Milagre. A narrativa dele definitivamente funcionaria melhor ao trabalhar um olhar microscópico.

No fim, ao ampliar demais o seu olhar, o roteirista traz diversas ótimas ideias, sendo que cada uma delas pode ser melhor desenvolvida daqui pra frente, funcionando mais como ponto de partida do que qualquer outra coisa. Mas o lance é que, todas costuradas, tentando fazer uma única história coesa, elas simplesmente não funcionam.

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Antes de tudo, um pouco de contexto: acontece um massacre no local chamado Santuário, que em tese deveria ser um porto seguro para a comunidade dos heróis. Trata-se de um local oculto, na parte rural de Nebraska, criado pelo Batman, fazendo uso de tecnologia kryptoniana e guiado por uma inteligência artificial cujos padrões são baseados na compaixão que a Mulher-Maravilha tem pela humanidade.

Trata-se de uma espécie de fazenda à qual os super-heróis, com poderes ou não, podem ir para tentar se recuperar de traumas psicológicos por conta do tipo de coisa que são obrigados a encarar em ação, num dia a dia de combates, de perdas, danos e difíceis escolhas de vida e morte. Todo o processo é anônimo e, justamente por isso, eles usam os robes brancos e as máscaras douradas, para que possam se ajudar sem qualquer julgamento, sem que as identidades venham à tona. Abaixo da fazenda, existem câmaras que, similares a um holodeck de Star Trek, ajudam a simular diferentes (e necessários) cenários para ajudar na terapia. E a reta final do tratamento é uma espécie de confissão, seguida então da retirada da máscara dourada.

Quem investiga a matança e quem tem que lidar com a existência do Santuário vindo à tona é a trindade Batman / Superman / Mulher-Maravilha. E os dois principais suspeitos são o Gladiador Dourado (aquele que tenta ser reconhecido como herói a todo custo, o rei das boas intenções) e a Arlequina (que passou por sua fração de traumas e, de vilã pura e simples, vem tentando se tornar um pouco mais do que isso).

King acerta no alvo no momento em que posiciona os heróis, tanto os mais A quanto os mais B, nos quadros triplos que são uma espécie de confessionário, alternando entre momentos que soam meio ridículos e outros que soam mais trágicos. King acerta no alvo na interpretação da Harley, que combate seus próprios pecados e medos sem nunca perder a essência que começou a se construir nos últimos anos, mas aplicando aqui uma camada extra de significado (o fato dela voltar a usar o macacão do desenho animados dos anos 1990, além de uma sequência linda que termina com um abraço na Batgirl, são prova clara disso).

E King igualmente acerta no alvo no retrato da dupla Gladiador Dourado e Besouro Azul, aquela formada na Liga da Justiça versão humor, uma amizade que ele trata da tradicional maneira divertida, à base de piadas infames, só que também aprofunda um tantinho mais trazendo ambos pra vida adulta e provando que dois caras podem, sim, se amar entre eles sem aqueles suspiros homofóbicos velados. Até estes dois podem crescer e amadurecer, afinal de contas. E tudo isso sem deixar de ser quem são.

Um monte de coisa legal, né? Mas estes alvos nos quais ele acerta, no final das contas, não formam uma história. São apenas pedaços, tratados de maneira rápida e, infelizmente, superficial, tal qual a investigação do crime, que se resolve num estalar de dedos e precisaria de mais tempo pra maturar na cabeça do leitor. São várias histórias, perdidas num único gibi. Ótimas ideias tratadas à parte de uma trama principal que não se sustenta. Todas estas histórias podiam e, aliás, DEVIAM ser ampliadas, amplificadas, ter mais espaço.

Se Heroes in Crisis fosse apenas sobre o Santuário, sem massacre, sem matança, apenas a apresentação do lugar e luta de alguém pela recuperação, enquanto pequenas referências sutis giram ao redor, talvez tivesse funcionado melhor. A escolha de Wally West, ex-Kid Flash original, aquele único que sobrou da reformulação e transformação de um universo em outro, aquele que perdeu a história, as memórias, a família, tudo depois dos tais Novos 52/Renascimento, para um papel-chave na história, é fantástica. Mas não do jeito que é conduzida, definitivamente.

Talvez tenha dedo de editor aí? Talvez sim. Talvez esta história tenha PRECISADO seguir assim para então servir como trampolim pro que vem pela frente, a introdução do Santuário no Universo DC, um novo olhar/novos títulos pra Arlequina e pro Gladiador, a criação de um novo lugar pro Wally nesta zona cronológica, tudo isso? Pode ser.

Não deixa de ser uma pena pro resultado final enquanto HISTÓRIA, começo/meio/fim. Sabe aquela coisa que a gente sempre fala sobre os universos compartilhados no cinema, Marvel style, que apesar de existirem precisam dar liberdade a cada um dos filmes para serem FILMES ao invés de pedaços, capítulos, episódios? Cabe bem aqui. Um desperdício de ótimas ideias. E de um ótimo roteirista.

Mais sorte na próxima.