Homem-Aranha no Aranhaverso é lindo. Como cinema, como animação, como filme do Homem-Aranha. Tudo. | JUDAO.com.br

A gente assistiu ao aguardado longa animado e já podemos dizer que o mundo dá tantas, mas tantas voltas, que olha aí uma produção da Sony esfregando um “veja aqui como se faz” na cara da própria Casa das Ideias

Se teve uma coisa que a Marvel fez direitinho nos seus gibis nesta última década foram os tais personagens-legado. Heróis e heroínas que carregavam os poderes, as cores e, algumas vezes, até mesmo o nome dos grandes medalhões da editora, servindo de substitutos para eles. Riri Williams, no caso do Homem de Ferro; Sam Wilson assumindo o manto do Capitão América; Jane Foster erguendo o Mjolnir e virando a Thor; Amadeus Cho se transformando no novo Hulk; e claro, o jovem Miles Morales saindo do Universo Ultimate e vindo pra cronologia corrente da editora dividir os holofotes com Peter Parker em pessoa.

Estes são apenas alguns dos muitos exemplos que a Marvel experimentou em tempos mais recentes e que, vamos lá, adivinha só o que têm em comum? Diversidade, né. Negros, latinos, asiáticos, mulheres. Permitir que o outro também se enxergue ali.

Outra coisa que também existia algo em comum entre eles que eram as ótimas histórias. De verdade. Tem material muito bacana aí, especialmente no caso da Thor, escrita de maneira divina (com o perdão do trocadilho) pelo Jason Aaron. Só que, em certo momento, a Casa das Ideias resolveu pisar no freio. E tornar os personagens-legado em meras “versões”. Riri Williams virou a Coração de Ferro, ganhou uma armadura diferente e um gibi próprio. Certo. Mas por que o medo de mantê-la como a titular do gibi do Homem de Ferro? Por que o medo de inverter a ordem das coisas e, ao invés de fazer o velho de um lado e o novo do outro, transformar o velho em algo novo?

Por medo do insuportável nerd homem cis branco que foi xingar muito na internet, oras. Ele ameaçou boicotar a leitura, gritou aos quatro cantos que ia parar de comprar as HQs porque achava um absurdo o que estavam fazendo com seus heróis favoritos, descaracterizando mitos por causa do ~politicamente correto. Com medinho e uma vontade cretina de querer agradar todo mundo, a Marvel voltou a dizer que o único Homem de Ferro é Tony Stark, o único Capitão América é Steve Rogers e por aí vai. Cagou. E esfregou na cara.

Aí sabe o que a animação longa-metragem Homem-Aranha no Aranhaverso fez? E com uma maestria que nem o mais esperançoso dos ARACNOMANÍACOS esperaria de uma produção da Sony, ela mesma, pro Cabeça de Teia? Foi lá provou que a Marvel e estes fãs idiotas estavam todos errados.

Provou que é totalmente viável criar uma nova versão do seu personagem favorito, tornando-a mais moderna, contemporânea, mais diversa e relacionável com outros públicos e, ainda assim, manter toda a sua essência viva. Provou que dá pra fazer duas versões do personagem conviverem juntas, ao mesmo tempo, funcionando. Provou que, sim, dá pra começar a pensar que aquele seu personagem favorito pode muito bem ser coadjuvante e não tem nada de mau nisso. E provou, que rufem os tambores, que talvez a gente precise muito mais de Miles Morales do que de Peter Parker daqui pra frente.

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Quem me conhece e sabe a quantidade de gibis, camisetas, bonequinhos, copos, canecas e toda a sorte de traquitanas do Homem-Aranha que eu tenho em casa, imagina que esta última frase tem um peso absurdo.

Homem-Aranha no Aranhaverso realizou um sonho particular deste leitor devotado do Cabeça de Teia que vos escreve: finalmente ver uma história que retrate Peter Parker adulto nos cinemas. Tá bom, já deu, todos nós já sabemos a origem dele, Tio Ben morre, com grandes poderes vem grandes responsabilidades. Tivemos CINCO filmes pra entender isso. Aliás, a animação até tira um bom quinhão de sarro desta coisa toda. E, tá bom, eu achei Homem-Aranha: De Volta ao Lar uma delícia, bem John Hughes meets MCU, mas esta coisa toda do Peter no colegial já deu pra mim. Eu cresci. Queria demais ver ele crescer também, como dá pra ver nas HQs mais recentes. Adulto, pagando contas, enrolado com relacionamentos de um jeito menos inocente e mais maduro. Tudo isso tá aqui neste filme. E é muuuuuuito legal.

Mas o mais curioso é que está no pano de fundo. O que tá longe de ser um problema. Porque, senhoras e senhores, todo o conceito do Aranhaverso que eles trouxeram, os muitos Homens-Aranha das mais diferentes realidades, é apenas uma desculpa para mais e mais Miles. A história não gira em torno de nada disso, como acontece na HQ original. O Porco-Aranha, a Spider-Gwen, o Homem-Aranha Noir, a Peni Parker, o Peter Parker tiozão que veio da “nossa” realidade, todos tão ali para ajudar a dar ainda mais corpo e dimensão à jornada deste menino.

Eles duram pouco em tela, preciso te dizer. Todos, sem exceção. Porque Homem-Aranha no Aranhaverso não é uma história de um Homem-Aranha qualquer. É a história de Miles Morales. PONTO. E ainda bem que isso aconteceu.

O que o Brian Michael Bendis fez, vamos lembrar?

Foi lá e criou o Miles, um personagem que não apenas serve pra que uma nova geração de leitores possa crescer junto, como deu outra roupagem aos seus conflitos adolescentes, aqueles que eram inerentes ao próprio Peter. O lance é que aqui não temos mais o nerd branquelo sofrido dos anos 60. É uma outra realidade, mais viva, verdadeira, atual. E Homem-Aranha no Aranhaverso explora isso tudo lindamente. O Miles das telonas é moderno, divertido, carismático, mas cheio de dúvidas, incertezas, do tipo que não está confortável numa escola de gênios, por mais que tenha capacidade para estar ali, e só quer voltar para a sua própria quebrada. Um garoto que não sabe qual é o seu futuro, que está dividido entre o pai que é seu modelo de ética e retidão e o tio gente boa, maneiro, divertido, lata de grafite na mão.

Este é daqueles personagens-legado pelos quais você torce, verdadeiramente, numa trama que mistura ação com emoção nas doses perfeitas. Tamos falando de um filme que tem o coração no lugar certinho. Que te faz rir, te faz emocionar, te faz pensar. O adjetivo, senhoras e senhores, não poderia ser um só que não fosse “lindo”

Até mesmo os vilões, sério, estão lá na medida, sem exagero. E olha que aparece vilão pra cacete, mais até do que os trailers sugerem, alguns até em versões completamente inesperadas (vamos lembrar que este universo no qual se passa a trama, o do Miles, em tese é uma realidade diferente na qual está o Aranha 616, portanto...liberdade total). Só que, assim como os Aranhas alternativos, eles estão lá para girar em torno do Rei do Crime, o real antagonista da porra toda. E cujos motivos, mesmo com toda a piração multicolorida e frenética ao seu redor, parecem de uma forma bem estranha bastante similares aos do Wilson Fisk da série do Demolidor no Netflix. Dá? Mas ô se dá.

Até a Tia May e a Mary Jane, cara, são visões tão adequadas a este universo e ajudam a contar e colocar ainda mais camadas no mito do Escalador de Paredes — e evitando, ufa, os estereótipos babacas. Referências? Tem de monte, que numa espécie de “aranha-caverna” vão fazer pular os olhos do mais atento fã quarentão e também do moleque que tá vibrando a cada DLC deste novo jogo do Aranha pra PS4. Mas elas estragam a trama? Nops, em simplesmente nada, jamais se tornando mais importantes do que a história.

Ah, sim, usar o adjetivo “lindo”, como usei lá em cima, não dá pra aplicar neste texto sem falar do visual, do estilo de animação, algo que chama atenção desde o primeiro vídeo liberado deste universo de aranhas. É mais do que um jeitão vanguardista de ilustrar e colocar os personagens em movimento, mas também é, isso sim, uma declaração de amor à linguagem dos quadrinhos. O Ang Lee tentou, de maneira meio tosca, reproduzir o efeito em seu ainda polêmico e divisivo filme do Hulk. Mas aqui a coisa atinge outros níveis. Você percebe que os personagens são reticulados. Os cortes de cena usando quadros, quadrinhos, quadrões. As onomatopeias se movendo por trás dos personagens, os balões de pensamento fazendo parte das cenas, os quadros de narrador em diferentes profundidades dentro de uma mesma sequência.

É de fazer chorar, muito mais do que qualquer referência ao clássico Aranha-Móvel, que, ah, legal, tudo bem. Só que a linguagem visual atua num nível bem diferente, classudo, é contar história numa mídia sabendo como usar elementos de outra sem parecer uma colagem barata. E ainda que os filmes sejam riquíssimos em efeitos especiais, os movimentos delicados das mãos, dos pés, a agilidade do Homem-Aranha, os pulos, o corpo se torcendo em meio a uma edição alucinada, aqui são quase como que imediatamente extraídos de um quadro desenhado por um artista de traços limpos como um Mark Bagley ou Mike Wieringo. Não consigo me lembrar de um filme do verbo CINEMA que tenha feito uso deste tipo de recurso desta forma.

E eles ainda se dão ao luxo de brincar com vários estilos de animação numa mesma cena — porque quando o Porco-Aranha aparece, ele e tudo ao seu redor se tornam um grande desenho dos Looney Tunes; no caso do Noir, fica tudo meio violento, obscuro, filme de detetive dos anos 40 preto e branco; no caso da Peni, para horror do Borbs, eles extrapolam ao máximo os traços e elementos característicos dos animes mais fofuchos. E o que é legal é que em certas ocasiões, as três coisas acontecem JUNTAS. E funciona.

A grande vitória na construção deste Miles como alguém que não depende do Homem-Aranha original e poderia tranquilamente substitui-lo, com direito a usar o nome “Homem-Aranha” sem problema algum, é o fato de que ele ganha um mote pra chamar de seu. “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades” ainda é bem forte. Mas é de outro cara. No fim, Miles faz referência a uma frase de outro autor que fez fama escrevendo o Homem-Aranha — mas não ele, vejam vocês, e sim o Peter Parker original, véio de guerra. “O Homem-Aranha pode ser qualquer um”, disse Dan Slott, certa vez. Pode sim. Ele pode ter múltiplas histórias diferentes. E todas cabem debaixo desta máscara.

Claro que as portas pra um segundo Homem-Aranha no Aranhaverso, que já sabemos que vai acontecer, acabam sendo deixadas mais do que abertas, tranquilamente escancaradas. Se AQUILO acontecer, vai ser legal demais. Mas sabe o que vai ser AINDA MAIS legal? Miles Morales.

Muito mais Miles Morales.

Por favor.

AHHHHHHH, SIM, bem importante: vale ressaltar que, além de uma delicada e emocionante homenagem a Stan Lee, a cena pós-créditos é de longe uma das mais legais e histéricas dos filmes recentes estrelados por personagens Marvel, talvez só comparável àquela loucura no finalzinho de Deadpool 2. Porque acontece uma parada que todo leitor dos gibis aracnídeos tava esperando que fosse rolar. E, logo na sequência, acontece uma outra parada que NINGUÉM podia sequer imaginar que fosse acontecer. E é MARAVILHOSO.