Mais de um veste a máscara no Aranhaverso | Judão

Chris Miller e Phil Lord apresentam não apenas o primeiro trailer do longa animado estrelado por Miles Morales, mas também um conceito dos mais interessantes e divertidos dos gibis, um abraço ao Multiverso que veio por cortesia de Dan Slott

Depois do sucesso de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, era inevitável que a Sony ficasse empolgadona pra meter todas as suas fichas naquela tão prometida expansão do universo aracnídeo nos cinemas. Vindo por aí tem Venom, Gata Negra e Silver Sable, planos para dar espaço solo pra vilões como Mysterio e Kraven, aquele papo de um filme do Morbius... Cada hora pinta uma ideia mirabolante acompanhada de belos cifrões nos olhos.

Aquela que me deixou REALMENTE empolgado, porém, em meu papel de fanboy do Cabeça de Teia, foi a tal animação anunciada pouco depois do acordo com a Marvel por De Volta ao Lar. Não apenas por ser baseada num roteiro / conceito da dupla Phil Lord e Chris Miller, responsáveis por aquela delícia chamada Uma Aventura LEGO, cheia de humor e emoção, mas também por ser estrelada não pelo Peter Parker velho de guerra, e sim pelo igualmente incrível Miles Morales, criação de Brian Michael Bendis que eu hoje amo tanto quanto o sobrinho da Tia May.

Se antes de ver qualquer coisa sobre o filme eu já cravava o dito cujo como “um dos filmes que mais quero ver em 2018”, agora, depois de assistir a esse teaser de Homem-Aranha no Aranhaverso...

A animação é linda. Estilosa, elegante, fluida, com agilidade e muita personalidade, carisma, um brilho diferente. Confesso que não esperava nada sequer parecido com isso. Só que, além disso, é preciso dizer que, pelo menos CONCEITUALMENTE, a Sony foi bastante inteligente ao abordar o conceito do Aranhaverso, um mergulho escancaradamente maluco do roteirista Dan Slott no multiverso, reunindo praticamente todas as versões possíveis do Homem-Aranha em QUALQUER MÍDIA numa trama que durou cerca de quatro meses entre o final de 2014 e o começo de 2015, conectando todos os gibis derivados do aracnídeo.

A ideia é até bem simples: o vampiro energético interdimensional Morlun tá de volta. Poderia ser uma tragédia. Porque sabe aquela ideia merda de que os poderes do Aranha são, na verdade, parte de um totem-aranha ancestral? Então, ela também voltou. Na real, Morlun é parte de uma família de sugadores de energia dos totens-aranha de toda e qualquer dimensão e, depois de conseguirem domesticar o poder do chamado Tecelão Mestre, não apenas eles tomam conta do Mundo-Tear como agora conseguem viajar entre dimensões para uma caçada aos avatares-aranha. Mas é claro que os muitos Homens-Aranha do multiverso sacam a ameaça que tão sofrendo e se unem, pulando de mundo em mundo em busca de ajuda, traçando (ou seria tecendo?) uma estratégia conjunta pra dar cabo de seus inimigos e manter a continuidade intacta.

Eu sei bem o que você tá pensando e concordo: na mão de qualquer outro roteirista, Aranhaverso poderia ser um fracasso completo. Mas Slott não apenas conhece tão bem e tão a fundo a mitologia do Homem-Aranha como também sabe costurar um bocado de referências como ninguém. O resultado é uma coleção de momentos divertidíssimos, reunindo personagens como o Homem-Aranha Noir, o Homem-Aranha do desenho dos anos 60, o Homem-Aranha do desenho com o Homem de Gelo e a Flama, o Homem-Aranha do seriado japonês (LEOPARDON, PORRA!!!!!), o Aranha-Punk (surgido na Inglaterra do final dos anos 70, onde mais?), o Aranha-Macaco, o Porco-Aranha... Sério. É simplesmente genial ver a interação entre eles, mais do que qualquer outra coisa. É aí que a série acerta, ao jogar pras CUCUIAS, sem medo de ser feliz, qualquer necessidade de lógica.

Além de criar uma inteligente conexão entre o nosso Peter Parker original e o Homem-Aranha Superior (aka o Doutor Octopus no corpo do Escalador de Paredes), o que justifica totalmente o encerramento da fase superior, o roteirista ainda criou uma ótima plataforma de lançamento pra Spider-Gwen (que ganhou série própria e tudo), trouxe de volta das trevas o Homem-Aranha 2099, fez a Mulher-Aranha (Jessica Drew) e a recém-lançada Teia de Seda brilharem, deixou os fãs rindo à toa ao retomar a Garota-Aranha (filha de Peter e MJ), fez a gente se importar pela primeira vez na vida com o clone “defeituoso” Kaine e, obviamente, colocou enfim Miles Morales no circuito da cronologia Marvel fora do mundinho Ultimate, ainda que temporariamente, deixando o terreno preparado para que, depois de Guerras Secretas, o garoto se tornasse parte integrante do Universo-616 junto com Peter Parker.

No trailer, quando o Miles — que, aliás, parece ser mais velho do que o Miles que tirou a máscara no começo do vídeo, o que pode significar muita coisa — pergunta pra alguém que claramente parece ser o Peter (no caso, um Peter mais velho, trintão, como na cronologia atual dos gibis e exatamente como os roteiristas confirmaram que ele vai aparecer no filme) “quantos de nós existem”, a porta pode estar escancarada para uma piração tão grande quanto o Aranhaverso das HQs, que requer um mínimo de conhecimento prévio para ser melhor aproveitada. Mas o Aranha 2099, talvez? O Porco-Aranha, como alívio cômico? E talvez... a Spider-Gwen? É nela, aliás, que dá pra apostar mais fichas, já que ela será destaque na iniciativa animada Marvel Rising e, segundo ESPECULAÇÕES, pode até aparecer na atual temporada de Agents of SHIELD.

O potencial de tudo isso é enorme e dá possibilidades criativas sem fim pra este filme que eu já estou amando com todas as minhas forças (é, eu ainda me deixo levar por certas ondas de hype).

O começo do trailer, no entanto, indica que muito da história deve ser adaptado do começo da jornada de Miles ainda no Universo Ultimate, tudo escrito com uma ótima amarração pelo Bendis e com a arte econômica e certeira de Sara Pichelli.

Depois que o Peter Parker Ultimate é morto pelo Duende Verde em uma derradeira batalha contra o Sexteto Sinistro, entra em cena o moleque de 13 anos nascido e criado no Brooklyn, filho de um pai negro e uma mãe porto-riquenha. A lápide do vídeo muito provavelmente traz o nome “Peter Parker” — e, ainda de tênis e com o moletom por cima do uniforme, temos um Miles não apenas descobrindo seus poderes (que, nos gibis, vieram de uma tentativa da Oscorp de replicar o incidente que originalmente deu as habilidades para o menino Parker, usando seu próprio sangue e uma outra aranha) mas também tentando entender o seu lugar no mundo, como alguém que carrega um LEGADO.

Além disso, para os olhares atentos, ficou claro que o cara de moto que ele persegue pelo meio da cidade é ninguém menos do que o Gatuno. A versão Ultimate do personagem é Aaron Davis, tio de Miles, um ladrão ao qual já fomos apresentados nos cinemas — ele é interpretado por Donald Glover em De Volta ao Lar, numa reviravolta bastante interessante depois da campanha online que o ator/cantor fez para interpretar o Homem-Aranha no filme de 2012, levando Brian Michael Bendis a se inspirar nele para criar, vejam só, o próprio Miles Morales. Como foi a tentativa de roubo do Gatuno que levou pra fora da Oscorp justamente a aranha que picou Miles, temos aí mais um indício de que a história também terá, claro, um tom de origem, até pra apresentar este novo Homem-Aranha para um público até então acostumado ao Pete.

Dirigido pela trinca Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, Homem-Aranha no Aranhaverso terá Shameik Moore (o Shaolin Fantastic de The Get Down) na voz de Miles, enquanto Mahershala Ali será seu tio Aaron e Brian Tyree Henry (o Paper Boi da série Atlanta, de Donald Glover!) viverá seu pai, Jefferson. Liev Schreiber também tá confirmado no elenco, num papel ainda não especificado mas que muito provavelmente será o de um vilão.

Seria ele o Morlun? ;)