Homem-Aranha Superior: o meio justifica o fim (e o começo)? | Judão

Fase encerrada no último mês nos EUA teve bons momentos, mas o início e a conclusão botaram tudo a perder

Quem está acompanhando o Especial Homem-Aranha aqui no JUDÃO sabe: a história do Homem-Aranha é cheia de altos e baixos. O azar inerente ao Peter Parker, de alguma forma, respinga no destino de suas histórias de tempos em tempos. Veja, por exemplo, a fase Homem-Aranha Superior, encerrada nos EUA agora em abril – e sobre a qual se refere esta resenha, cheia dos devidos spoilers para quem lê os gibis do herói no Brasil.

Ainda em 2012, o roteirista Dan Slott teve uma ideia polêmica: promover a troca de mentes entre Peter Parker e um dos seus maiores inimigos, o Doutor Octopus. As sementes disso já havia sido plantadas na saga Ends of the Earth, na qual Dock Ock já aparecia moribundo e começava a orquestrar seu plano. Porém, o maior golpe veio a partir de Amazing Spider-Man #698, com a mente de Octopus no jovem corpo do Aranha, enquanto a mente do nosso herói acabou no corpo do vilão moribundo. Em Amazing Spider-Man #700, última edição da clássica revista, o corpo de Octopus morreu, junto com a mente de Peter. O vilão venceu, mas, com a segunda chance, veio também o peso na consciência e toda aquela história de que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Hora, então, de fazer algo pela humanidade, juntando o seu conhecimento com os poderes de aranha. Assim nascia o Homem-Aranha Superior.

LEIA TAMBÉM! Especial HOMEM-ARANHA: Tudo o que fez o Cabeça-de-Teia ser o que é hoje

Eis o Homem-Aranha Superior, em seu primeiro uniforme

A história era difícil de engolir. E ainda é. Como assim troca de mentes? Parecia algo digno de filme da Lindsay Lohan. Como assim o grande Homem-Aranha ~morrer de forma nada digna? Enfim, era algo que não colava, principalmente da forma que foi concebido.

O novo gibi, Superior Spider-Man, também começou em 2013 aos trancos e barrancos. Menos de um mês depois de “morrer”, descobríamos que a mente de Peter Parker ainda estava viva na sua própria cabeça, apesar de ser controlada por Otto. O embate mental, no entanto, acabou poucas edições depois, com a consciência de Peter sendo soterrada em um mar mental. Para Octavius, acabava também o acesso às memórias do antigo ~dono daquela cabeça.

Olha, veja bem: nada disso pareceu definitivo. Em momento algum. Afinal, estamos falando de quadrinhos, Universo Marvel 616. Só duas pessoas realmente estão mortas e vão continuar mortas para sempre: tio Ben e Gwen Stacy, para desespero do Amigão da Vizinhança. Porém, jogar o Aranha em todas essas transformações parecia exagero. Mas, hoje, eu até entendo Dan Slott.

Entenda que depois de 50 anos, já não há quase o que se fazer com o Homem-Aranha. Apesar do personagem não envelhecer junto com o mundo real, ele envelhece, sim. Ele cresce. Porém, esse crescimento nunca pode passar uma linha imaginária, a linha que define o personagem. É legal sim ver Peter sendo uma pessoa melhor do que era em 1962, mas se ele, por exemplo, deixar de ser totalmente um cara atrapalhado com a própria vida pessoal, isso vai contra os princípios fundamentais do personagem. Também não se pode perder a identificação com o público-alvo da revista – foi exatamente por isso que, em 2007, acabaram com o casamento entre o Escalador de Paredes e a Mary Jane.

Segundo visual do Homem-Aranha Superior

Segundo visual do Homem-Aranha Superior

Assim, deixar Peter de lado e construir uma nova mente para o Homem-Aranha tornou possível não só que Slott segurasse um pouco mais o crescimento do herói, como também possibilitou ir em lugar e fazer coisas que ele nunca poderia fazer com o personagem origem sem ultrapassar a linha imaginária do que ele realmente é.

No final das contas, pudemos acompanhar por um ano e quatro meses um Cabeça-de-Teia mais ganancioso, mais seguro de si, capaz de machucar e até matar – ainda que fosse para proteger alguém, nem que fosse a si mesmo. Ao mesmo tempo, vimos um Peter Parker com atitudes mais modernas, em confronto com seu elenco de apoio e que, veja só, criou até uma startup.

Momentos impensáveis antes aconteceram: o Aranha lutando ao lado de J. Jonah Jameson, saindo dos Vingadores, usando tecnologia para melhorar muito mais o seu próprio trabalho, enfim... Muita coisa aconteceu. E, quer saber? Foi legal acompanhar.

Peter Parker voltou!

Peter Parker voltou!

Comecei a pensar que o meio interessante poderia ter superado o começo enrolado. Só que aí veio o último arco, Globin Nation, com o derradeiro ataque do Duende Verde. De forma apressada, Nova York mergulhou no caos. Otto Octavius percebeu que falhou ao ser um herói superior, levando a cidade para aquela situação. E eis que PIMBA: a mente de Peter Parker reaparece sem nenhuma explicação. Por um amor, o vilão desiste de tudo facilmente e apaga a própria mente da cabeça do antigo inimigo. Peter Parker volta a ser o único e verdadeiro Homem-Aranha.

E assim, em apenas uma edição, o Duende Verde e seu plano de transformar a população de Nova York em duendes (plot reciclado de outras sagas, só troque “duende” por “lagartos” ou “poderes de aranha”, bom...) são detidos.

No final das contas, fica a lição de que Peter Parker, com seus defeitos e qualidades, é o único e verdadeiro Homem-Aranha. Mas que Otto também tinha um bom coração, no final das contas. Só não tinha exatamente uma boa índole.

A história também define um novo (e até que interessante) status quo para o relançamento do clássico gibi Amazing Spider-Man. O Homem-Aranha voltou a ser odiado por toda a cidade, Jameson deixou de ser prefeito, Mary Jane está completamente afastada de Peter Parker (tô com medo de que eles não saibam mais o que fazer com ela, já que isso poderia significar uma morte definitiva...) e o nosso herói tem a sua própria empresa pra tocar. Nesse mundo no qual todo mundo quer criar a startup de um milhão de dólares, até que demorou para o Peter ter uma.

Ah, sim: me empolguei tanto falando do roteiro, que esqueci da arte. Durante toda a fase do Homem-Aranha Superior, os desenhos foram feitos por Ryan Stegman, Giuseppe Camuncoli e Humberto Ramos. Os dois primeiros fizeram um bom trabalho, com um traço mais clássico. Já Ramos, pessoalmente, não empolga. Ele tem até que um traço caricato que lembra o do Steve Ditko, co-criador do herói, mas não é bonito, não empolga, sabe como é? Então.

Pois é. No final das contas, o troca-troca de mentes não foi o melhor que poderia ter acontecido, mas até que gerou boas histórias. Foi legal acompanhar o Homem-Aranha Superior por aí. Mas, convenhamos, é mais legal ainda saber que o bom e velho Cabeça-de-Teia está de volta. ;)