O Homem-Elástico estará na próxima temporada de The Flash. Mas não esse, o outro. | Judão

Porque, sim, a DC Comics tem dois ESTICADINHOS. E eles são dois heróis BEM diferentes, aliás.

Eis que este ano finalmente veremos ADENTRAR ao chamado Arrowverse um dos personagens da DC que mais tem a cara do climão destas séries do CW: o Homem-Elástico. Ralph Dibny já tá confirmado pra aparecer na quarta temporada de The Flash, a ser interpretado por Hartley Sawyer (Saving the Human Race).

Surgido justamente nos gibis do Corredor Escarlate, mais especificamente no número 112 de 1960, ele é descrito pela emissora como “um dos aliados mais icônicos do Flash, um detetive particular falador cujas habilidades de investigação rivalizam com as do Batman. Depois de descobrir que tem o poder de esticar seu corpo em qualquer tamanho ou forma, ele usará estas habilidades para ajudar o #TeamFlash a solucionar alguns dos maiores mistérios de Central City”.

“Mas que foda, hein?”, disparou um grande amigo. “Puta notícia. Sempre achei este personagem engraçadão. Adorava aquele desenho dele que passava na TV, no final dos anos 70, tinha até um bebê filho dele”.

Não, caraio. PERA. Aí já tão confundindo tudo de novo. Porque este do desenho animado também é da DC. Mas não é o Homem-Elástico e sim o Homem-Borracha. Sim, os dois são super-heróis. Sim, os dois já integraram a Liga da Justiça em algum momento da vida. E sim, os dois têm (praticamente) os mesmos poderes. Mas tamos falando de sujeitos COMPLETAMENTE diferentes em uma série de aspectos. A começar pela aparência física, claro. ;)

Os ESTICADINHOS da DC Comics

A gente entende a confusão. Afinal, o tal The Plastic Man Comedy / Adventure Show, lançado em 1979 e que durou até 1981, chegou ao Brasil traduzido como...o Homem-Elástico. Experimenta jogar “Homem-Elástico” no Google, por exemplo. No canto esquerdo, vai aparecer a descrição correta do personagem, alter-ego de Ralph Dibny e tudo certo. Mas as imagens relacionadas são do Homem-Borracha, o do maiô vermelho e óculos na cara. Puta zona.

Mas vamo lá.

Randolph William “Ralph” Dibny, o Homem-Elástico ELONGATED MAN é uma criação do roteirista John Broome e do desenhista Carmine Infantino, com SEVEROS pitacos do lendário editor Julius Schwartz, que queria um novo coadjuvante pro Flash mas meio que esqueceu que a DC já tinha em suas fileiras um certo Homem-Borracha, vindo da Quality Comics.

Quando adolescente, Dibny era fascinado por contorcionistas e pessoas que faziam apresentações atléticas, de agilidade. Foi aí que descobriu que todos os especialistas em manipulação corporal tomavam uma bebida famosa chamada Gingold. Ele então resolveu fazer a sua própria versão da parada: enfiou as caras nos estudos de química e desenvolveu um extrato superconcentrado de uma fruta rara da península do Yucatán chamada gingo, o que lhe deu a sua elasticidade ao acionar um gene metahumano que ele já tinha latente em seu corpo.

Assim que surgiu, o Flash achou que o Homem-Elástico podia ser um vilão, mas logo descobriu suas boas intenções e eles se tornaram amigos. Um dos primeiros heróis da Era de Prata que revelaram publicamente sua identidade secreta, Dibny também foi um dos primeiríssimos não apenas a casar com sua eterna parceira Sue, mas a manter um relacionamento estável que durante décadas escapou de qualquer solução rocambolesca dos roteiristas que iam e viam.

O Elástico é um personagem com senso de humor. Cheio de piadinhas infames, na melhor tradição do Gladiador Dourado e do Besouro Azul nos IDOS tempos de Liga da Justiça Internacional, ele é do tipo que tira qualquer Homem-Morcego do sério. De fato, parece que ele não tá levando bem as coisas à sério, mas só parece. Porque, mais do que sua habilidade de esticar o corpo e mudar de forma, é na capacidade de dedução e análise que está seu maior poder.

Outro efeito colateral de seus poderes é a durabilidade, a resistência maior a armas químicas e concussões e, claro, o olfato apuradíssimo, aquele que faz com que ele mexa o nariz no melhor estilão A Feiticeira, o que se tornou uma espécie de marca registrada do sujeito. Mesmo assim, ele é, invariavelmente, bem mais “humano” do que o Homem-Borracha, com suas limitações de poder e muito longe de ser considerado imortal ou indestrutível.

Além disso, é importante lembrar que Dibny está diretamente envolvido em um dos momentos mais trágicos e, ao mesmo tempo, em um dos arcos mais geniais da história recente da Distinta Concorrência: Crise de Identidade, minissérie de 2004 em sete edições, com roteiro de Brad Meltzer e arte de Rags Morales.

Porque é nesta série que Sue Dibny é assassinada, revelando um segredo sombrio sobre o estupro que ela teria sofrido nas mãos do Doutor Luz e DEFLAGRANDO os eventos que causariam um problema de confiança e estabeleceriam a paranoia entre os integrantes da Liga e da Sociedade da Justiça a respeito das mentes apagadas magicamente pela Zatanna.

Depois disso, durante muito tempo vimos um Homem-Elástico mais sombrio, incapaz de aceitar a morte da esposa e tomando decisões questionáveis para tentar trazê-la de volta. Antes d’Os Novos 52, ele acaba morrendo também e seu junta a Sue, fazendo com o que ambos se tornem um casal de investigadores do sobrenatural. Mas depois do reboot, os Dibny retornariam mais ou menos naquela pegada tradicional que os leitores conheciam tão bem.

Patrick “Eel” O’Brian é praticamente “o que aconteceria se um personagem dos desenhos animados da Hanna-Barbera fosse parar no meio do Universo DC?”. Cê viu o filme do Máskara, com o Jim Carrey? Pois é. Bem aquilo mesmo. Eel é, antes de tudo, completamente maluco. Um alucinado, fora de controle, uma gigantesca massa de humor non-sense e surreal que praticamente só ele entende mesmo. Digamos que, assim como o Homem-Elástico está pro Homem-Aranha, o Homem-Borracha tá bem mais pro Deadpool.

Criação do escritor/desenhista Jack Cole, o Homem-Borracha apareceu inicialmente em Police Comics #1, gibi de agosto de 1941 publicado pela editora Quality Comics. Mas quando a empresa foi pro buraco em 1956, a DC adquiriu uma grande parte de seus personagens, como o Borrachento e o Ray, mais tarde incorporados à cronologia da editora. Mas, embora nunca tenha sido necessariamente um sucesso comercial, Eel tornou-se um queridinho de uma série de quadrinistas contemporâneos tipo Grant Morrison, Alex Ross, Ethan Van Sciver e Kyle Baker (que, inclusive, produziu uma premiada série do herói, em 2004).

Nas histórias, o personagem era um ladrãozinho de meia-tigela, órfão aos 10 anos de idade e forçado a viver nas ruas. Quando cresceu, já parte de uma gangue, participou de um roubo noturno na Crawford Chemical Works, que acabou dando bosta assim que eles foram surpreendidos pelo vigia noturno. Durante a fuga, Eel foi atingido no ombro e teve o corpo banhado por uma substância química sem identificação. Já na rua, descobriu que os camaradas tinham dado no pé sem ele. Confuso graças ao ferimento e à exposição química, desmaiou aos pés de uma montanha perto da cidade, acordando mais tarde na cama, em uma cabana no alto da parada, sendo cuidado por um monge.

Enquanto descobria as mudanças que seu corpo tinha sofrido, dando-lhe poderes super-humanos, descobriu que sua desconfiança a respeito do tal monge não tinha motivo de existir, já que ele o ajudou a despistar os policiais que pintaram procurando pelo criminoso foragido. Aí, resolveu dedicar sua vida a ajudar as pessoas, adotando o uniforme emborrachado e os óculos na cara que, junto com o processo de “remoldar” seu rosto, escondiam do mundo sua verdadeira identidade. Mas as conexões no mundo do crime bem que ajudavam a conseguir as informações que ele precisava sobre a bandidagem.

Entre 1988 e 1989, depois da Crise nas Infinitas Terras, Phil Foglio recontou a origem do Homem-Borracha em uma minissérie. O começo todo é parecido, vida criminosa, assalto desastrado, tiro, substâncias químicas. Mas quando ele sai da fábrica, ainda sem controle de seus poderes, começa a causar um baita tumulto na cidade e, quando descobre que o monstro sem forma de quem as pessoas estão fugindo é ele mesmo, chega a tentar o suicídio. Mas um paciente de uma clínica psiquiátrica chamado Woozy Winks, expulso do lugar por causa da falta de recursos, que também queria o suicídio. No fim, ambos começam a trabalhar juntos para capitalizar sobre os poderes de Eel, abrindo uma agência de detetives em Nova York pra tirar algum no final do mês. Daí pra vida de super-herói foi um pulo.

O Homem-Elástico é bem-humorado, piada de tiozão, A Praça é Nossa. O Homem-Borracha é humor puro, escrachado, moleque, Hermes e Renato. No caso dele, a graça também não está só no poder de esticar o corpo, mas principalmente na coisa toda de mudar de forma. Ele vira uma bola gigantesca, um balão, uma imensa luva de boxe, uma mola... Fica gigantesco ou fica minúsculo. Tudo que sua imaginação imprevisível permitir. Neste caso, sua fisiologia é BEM diferente do Dibny: ele se estica rigorosamente o quanto quiser — enquanto o Elástico tem um limite claro, já explorado nos gibis — e ainda consegue fazer coisas como abrir buracos no próprio corpo.

Além disso, o Borracha tem um outro combo de poderes interessantes, que varia de controle de densidade (de duro como rocha à flexível como...está preparado...borracha) à regeneração, passando por imunidade à telepatia (“A mente dele não é mais orgânica, logo não pode ser tocada por outra mente”, já disse o Batman) e mudança de cor (sim, além de mudar de forma, se ele se concentra MUITO, pode até alterar a sua paleta de cores padrão que varia entre amarelo e vermelho).

E, sim, ele é praticamente invulnerável. E imortal, né, do tipo que sobrevive durante 3.000 anos com as moléculas separadas no fundo do Oceano Atlântico (é, isso aconteceu). Sua maior fraqueza talvez seja, por conta de sua natureza que é praticamente líquida, a exposição à temperaturas muito altas ou muito baixas, podendo derreter ou ser congelado e quebrado em centenas de pedaços.

Pois é. Em alguma coisa, pelo menos, o Homem-Elástico tinha que levar vantagem sobre o Homem-Borracha, não é mesmo? ;)