Por que nossos heróis são morféticos? | Judão

E nossos inimigos estão no poder!

Eu tinha largado mão de The Walking Dead, até que numa tediosa e, por isso mesmo, boa noite de dormingo, acabei vendo a estreia da temporada atual, a sétima. A partir daí, peguei gosto de novo e fui acompanhando os protagonistas vivendo suas lutas pessoais separados, todos com feridas em comum, e distantes entre si, provavelmente por causa disso. Ah, tem outra coisa que eles dividem: a sombra de Negan, o vilão sanguinário que tem um bando de escravos e um bastão de baseball cheio de arame farpado e miolos humanos (fora a bala da sem noção Rosita).

Tal e qual todo bom babaca, comentei empolgado nas redes sociais meu carinho renovado pela série a cada episódio, semana a semana, mas, para minha surpresa, uma galera falou que tudo estava chato, que estavam enrolando a audiência, críticas davam o veredito de que a série estava simplesmente torturando o espectador e mais nada, e por aí vai.

De uns tempos para cá, muito por causa do momento que vivemos como sociedade, decidi só entrar em debates e discussões quando realmente souber do que estou falando. Então me veio a solução: assistir de novo a todas as temporadas da série, sem pular um episódio sequer.

Há uma semana eu encaro essa aventura em todo tempo livre que tenho. Já chorei de novo as mortes de Sophia, Hershel, Bob, Beth e mais uma galera, vi Carl ir de menininho fofo a moleque xarope caolho, os caras enfrentarem o recém apocalipse, a loucura do Shane (embora todos tenham se tornado meio Shanes ao longo do caminho), o Governador (duas vezes), canibais, um hospital muito louco, enfim, todo tipo de filhos da puta até chegar no grande campeão da filhadaputagem, Negan.

Herdeiro da linhagem de Changeman, Power Rangers tem aquela estrutura turminha sendo turminha, treta menor, momento Scooby Doo de entendimento/investigação da treta menor, HORA DE MORFAR, enfrentamento de treta menor revela uma treta GIGANTE que é resolvida com garbo, chutes, lasers e um combo de robôs fodões.

A real é que a gente vive pela hora de morfar, aquele momento que todos os heróis se juntam quando a merda parece fedida demais para resolver na base do cada um bate como pode. Vem o líder, junta a galeren e organiza o combate à enorme caceta a ser derrotada para salvar esse mundinho véio sem porteira onde nos enfiaram.

É aquele momento que a máxima “a união faz açúcar a força” ganha sentido, nos inspira, que a gente infla o peito e vai à luta junto com aqueles personagens que a gente ama, que as crianças (de qualquer idade, tipo a nossa) falam “ah, eu sou o verde”, “eu sou o rosa”, “eu sou o Capitão América”, “eu sou a Viúva Negra”, etc.

QUEM não deu aquela contraída/dilatada nas áreas erógenas quando viu pela primeira vez a cena do fucking ASSEMBLE no meio da cidade destruída em Os Vingadores?

Pois é.

Meu preferido nesses momentos MORFÉTICOS é o macaco Caesar, da saga O Planeta dos Macacos. Quando ele convoca geral pra lutar, com toda aquela dor dele, eu procuro um cipó e uma lança para fazer o que ele mandar no campo de batalha. Rick Grimes e Michonne não ficam tão atrás do meu querido símio neste tema. Seja lá o tipo de ameaça sanguinária que pintar, eles não só organizam o grupo, mesmo que à sua revelia, como vão na frente de todo mundo.

Minha conclusão após rever as temporadas de The Walking Dead é que tá embaçado mesmo, tá demorando, o negócio anda meio arrastado, a gente não vê a hora dos fodidões estraçalharem os Salvadores após uma guerra sangrenta no meio do fim do mundo, por mais charmoso que seja o líder deles.

Talvez essa ansiedade seja por causa do hábito de BINGE WATCHING, mas eu, fina, elegante e sinceramente, acho que nossa pressa e amor pela hora de morfar é porque, no final das contas, os Power Rangers, os Vingadores, os macacos injustiçados ou a turma de Rick e Michonne são a gente lá, os guerreiros e guerreiras que diariamente acordam cedo, estudam, trabalham, botam comida na mesa, pagam boletos (quando sim), cuidam da molecada e detonam a saúde com comida zoada e noites não dormidas.

Eles lembram a gente que um dia pode chegar o acerto de contas com os que se julgam acima do bem e do mal, como aquele chefe escroto, um namorado abusador, o politicuzão ou qualquer outro pilantra ou situação de merda que surgir, e que nessa hora nossos amigos estarão lá.

No fundo, nós só não queremos esquecer que em algum lugar do caminho está A NOSSA hora de morfar, e a vida é sobre isso, basicamente, né não?