House of X traz Jonathan Hickman no seu melhor papel de costureiro e arqueólogo | JUDAO.com.br

Roteirista não poupa esforços em sua missão de recolocar os mutantes num papel de destaque dentro do Universo Marvel — e, já no primeiro número da série que vai apresentar este novo status quo, joga com todas as armas para mostrar o plano brilhante de Charles Xavier para trazer paz aos homo superior

SPOILER! “Humanos do planeta Terra: enquanto vocês dormiam, o mundo mudou”. A frase do Professor Xavier que abre a primeira edição da série House of X, o marco zero do retorno dos X-Men e consequentemente da figura dos mutantes a um lugar de maior importância na atual cronologia Marvel, pode ser lida da mesma forma de sempre, o pacifista e idealista dizendo que precisamos nos unir, humanos e mutantes, que agora vivemos num mundo sem fronteiras, o Martin Luther King da Casa das Ideias.

Pois não se engane, querido leitor: a grande sacada do roteirista Jonathan Hickman, incumbido de construir esta nova ambientação para os mutantes no coração de um universo dominado pelos Vingadores na última década, é justamente um Professor Xavier com um plano absolutamente brilhante para ESTABELECER uma fronteira definitiva entre os Homo sapiens e a novamente crescente população de Homo superior. É isso mesmo: fiquem aí vivendo a vida de vocês e a gente fica aqui na nossa, tá? Nossa nação, nossos cidadãos, nossos estadistas, nossas leis. A noção de paz de Charles Xavier parece ter mudado ligeiramente de direção.

Este é um Charles, aliás, que não mais está confinado a uma cadeira de rodas. Mantido prisioneiro pelo Rei das Sombras no plano astral, ele retornou bem diferente justamente porque, em troca de sua liberdade, Fantomex teve que ficar em seu lugar. Fazendo o sacrifício supremo, Charlie Cluster, esta espécie de supersoldado criado como um híbrido de humano e tecnologia dos Sentinelas, permite que a mente do líder dos mutantes tome conta de seu corpo. Desde então, assumindo a simples alcunha de X, Charles vinha se mantendo bem na moita, tranquilão, sem chamar muita atenção. Até, claro, finalmente conseguir colocar sua obra-prima em prática.

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Tal qual aconteceu certa feita com Genosha, os mutantes agora têm uma ilha que atende por sua morada: Krakoa. É, ela mesmo, a ilha viva e igualmente mutante que agora abriga aqueles que há anos procuravam um lugar para chamar de seu e jamais conseguiram. Um gigantesco bioma que na verdade é um habitat autossustentável, como parte de uma consciência interconectada.

Um lar que têm plantas muito especiais, belas e arroxeadas flores que criam “portais” para que apenas os mutantes possam caminhar livremente de um canto a outro do mundo. Mas estas flores também geram remédios que, para os humanos, para aqueles que não têm o gene X, podem estender as suas vidas em até cinco anos, podem servir como um superantibiótico como nunca visto e podem curar certas doenças mentais.

Este seria um presente dos mutantes para os humanos. Ah, mas aí é que está o brilhantismo de Xavier e de Hickman: na verdade, ele quer que isso seja uma moeda de troca.

Quer que isso sirva como a garantia de que Krakoa vai ganhar anistia para se tornar uma nação independente. E que os mutantes terão preservado o seu direito de viver em paz para sempre, longe de guerras, longe de perseguições. Esta é a proposta que embaixadores de alguns países do mundo recebem, quando convidados a visitar a nação-mutante (ou quase isso). Mas eles ouvem a proposição não da boca de Xavier, mas sim do embaixador de Krakoa: ninguém menos do que Magneto em pessoa. Já dá pra sacar que estar diante de um ex-terrorista e um dos seres mais poderosos e irascíveis do planeta não torna o papo mais fácil...

De qualquer maneira, nesta simples mudança de paradigma, Hickman reintroduz de vez os mutantes no Universo Marvel de uma forma que não dá pra ignorar. Do jeito que esta coisa toda é grande e tem potencial impacto global, mexendo com os brios das autoridades humanas, é impossível que eles vivam ali a vidinha deles num cantinho sem fazerem parte massiva do mundo de histórias interconectadas marvetes. Eis aí o principal acerto do roteirista, que não poupa esforços e já chega arrebentando, pé na porta e soco na cara.

Era inevitável que num determinado momento a gente visse o impacto que isso tem na relação dos cidadãos-X com outros heróis — e portanto, Hickman já coloca diante desta inusitada situação ninguém menos do que a primeira família da Marvel, o Quarteto Fantástico, justamente os heróis estimados pela população, sem máscaras, sem identidades secretas. Quando uma unidade de interceptação de importantes dados sobre as tecnologias perdidas de Tony Stark e Reed Richards acaba se deparando com o Quarteto, e esta tal unidade formada por Groxo, Mística e Dentes de Sabre se prepara para escapar da perseguição utilizando um dos portais-flores de Krakoa, eis que surge Ciclope para interceder por eles, outrora seus inimigos, hoje apenas seus irmãos mutantes.

O Ciclope de Hickman, conforme prometido, parece ser uma empolgante mistura do líder estoico que se conhecia de outrora com o Scott Summers mais firme que Brian Michael Bendis nos apresentou naquela visão rebelde/revolucionária. Diplomata, ele chega perguntando como vai todo mundo, cumprimenta o Tocha, é simpaticão com o Coisa, mas não demora a se posicionar de maneira bastante firme diante do Senhor Fantástico, que defende que principalmente o Dentes de Sabre violou uma série de leis naquela última hora. “É irritante, eu sei, mas é como nós somos. Novos começos demandam medidas mais amplas”, defende Scott, que na despedida completa: “Minha família passou a vida sendo caçada e odiada. O mundo me dizendo que eu era menos quando eu sabia que era mais. Vocês honestamente acharam que íamos ficar sentados para sempre aguentando isso?”.

E finaliza: “por favor, mande lembranças ao seu filho por mim e diga que, quando estiver pronto, ele tem uma família esperando por ele em Krakoa”.

Pois é, caso você não se recorde, Franklin Richards, filho de Reed e Sue, é um mutante. E dos mais poderosos do planeta, com uma habilidade de manipulação de realidade que ultrapassa à da Feiticeira Escarlate e à do próprio Legião.

Tudo isso só na tensão das palavras, sem que o Scott dispare uma única rajada óptica.

Só mesmo um cara como Jonathan Hickman para colocar num mesmo balaio uma leva considerável de personagens que voltaram recentemente do mundo dos mortos — além de Xavier e do próprio Ciclope, temos ainda o Wolverine e a Jean Grey, que agora anda por aí usando seu uniforme clássico de Garota Marvel — e alguns de seus principais antagonistas, todos de alguma forma FINALMENTE integrados em torno de uma causa que FINALMENTE faz sentido para todos os envolvidos.

Aliás, este é um dos maiores trunfos de ter Hickman por trás desta construção, que vai servir de ambientação para os primeiros títulos mutantes renovados que chegam só em outubro. Estamos falando de um verdadeiro tarado por cronologia e organização que tem uma habilidade de costura entre tramas, sejam elas clássicas, sejam elas contemporâneas, tendo sido criadas por ele ou não, que passam a fazer um baita sentido num contexto geral. Ele vai desencavando histórias aqui e ali, criando uma trama inevitável e que, da mesma forma que aconteceu um dia com as incursões que culminaram nas novas Guerras Secretas e num Doutor Destino enfim reconhecido de maneira apropriada para todo o Universo Marvel e não apenas nas histórias do Quarteto, deve dar um pouco de trabalho para seus colegas roteiristas.

O negócio tem um tamanho que, por exemplo, inevitavelmente deve colocar os Vingadores diante do time de Xavier. A escala não permite este tipo de escolha, ainda que Jason Aaron decida nem tocar no assunto. Não tem jeito. E você, pobre (?) leitor, se vê quase que imediatamente tão envolvido de um jeito que fica esperando pra saber o que acontece nos próximos capítulos. Ainda mais porque, cá entre nós, o plano aparentemente sem falhas de Xavier tem um cheiro estranho no ar. O comportamento dele, quase messiânico, combina muito mais com um Magneto (que faz questão de encerrar seu encontro com os embaixadores dizendo, com a arrogância que lhe é peculiar, “vocês têm novos deuses agora”) do que com o Charles que conhecemos desde sempre.

Estaria Xavier, de alguma forma, sendo influenciado pela personalidade errática do próprio Fantomex?

E a trama, que vai se alternar durante seis edições com a de outra série, Powers of X, esta ambientada 100 anos no futuro, mostrando os REAIS os efeitos da ~utopia do líder X, ainda promete muitas reviravoltas. Ainda mais porque, ora ora, a humanidade REALMENTE não ficaria paradinha esperando um grupo de seres superpoderosos que sempre foram perseguidos se organizarem como uma nação única, com imunidade diplomática e a capacidade de ir e vir em grupos de onde e para onde bem entenderem.

Justamente por isso surgem os tais Protocolos Orchis, uma iniciativa preparada para o crescimento da densidade populacional dos mutantes como uma ameaça real e de nível apocalíptico para a humanidade. Devidamente ativados, eles reúnem tecnologia vinda da Controle de Danos (a empresa que faz a limpa sempre que dois ou mais seres poderosos saem na mão e quebram uma grande cidade) e formam times plurais com agentes vindos da SHIELD, da STRIKE, da IMA, da HYDRA, da Tropa Alfa e por aí vai. Seu primeiro objetivo? Botar pra funcionar a Forja, uma estação espacial surgida a partir de uma criação de Tony Stark durante o tempo em que o próprio Hickman escrevia Novos Vingadores. A ideia central? Reunir poder suficiente para praticamente apagar um planeta inteiro do mapa, se for preciso. Para tanto, o Orchis conta ainda com a ajuda de Karima Shapandar, humana que na verdade era uma Sentinela Ômega dormente e que, inclusive, chegou a ser acolhida como parte dos X-Men durante a passagem de Chris Claremont pelo título nos anos 2000.

Também ajuda ter a tal Forja conectada à cabeça de um Molde-Mestre, basicamente um gigantesco Sentinela que tinha a capacidade de produzir OUTROS Sentinelas.

A merda tá feita. Ainda mais porque a líder científica dos Orchis, Doutora Alia Gregor, conduziu um estudo que dizia que, de acordo com uma série de variáveis, não fosse o assassinato em massa da população mutante em Genosha, os mutantes já teriam se tornado a espécie dominante do planeta há uma década. Nós humanos ganhamos, portanto, de acordo com a linha do tempo da cientista, no máximo 20 anos. Magneto parece saber disso. E, principalmente, este novo Xavier também.

Esta parece ser, de fato, uma junção de fatores bastante empolgante e, por que não dizer?, ousada para que tenhamos a turma X retornando ao papel que lhes cabe neste latifúndio. Resta saber, mais até do que o quanto isso tudo pode servir de sopa primordial para a aparição dos mutantes no MCU, se a Marvel dos quadrinhos mesmo vai ter realmente pulso firme para bancar a proposta.

Eu, enquanto leitor, neste momento “dane-se o que vai rolar no cinema”, adoraria que sim.