A ideia de Emily Meade que muda pra sempre as cenas de sexo da HBO | JUDAO.com.br

HBO anunciou recentemente a contratação de profissionais que garantem a segurança e conforto de atores envolvidos em cenas de sexo — o que, convenhamos, DEMOROU.

Uma vez, há bastaaaante tempo, lembro de estar assistindo a Romeu & Julieta com uma amiga em uma dessas noites preguiçosas de sábado. Era a versão de 1968 e rolava uma cena de nudez dos dois. Minha amiga então disse: “Cara, jamais conseguiria ser atriz. Imagina! E se você não quiser fazer alguma coisa com o cara? É obrigada mesmo assim? Credo”. Concordei. Porque, né? Imagina que sufoco precisar compartilhar ~certas intimidades~ com um colega que não te inspira confiança.

Nos últimos tempos, com a explosão do #MeToo, Time’s Up e uma discussão mais do que tardia sobre assédio sexual na indústria do entretenimento, bastante gente questionou sobre medidas preventivas. Mulheres já sabem desde SEMPRE que não rola ficar confiando em homens a torto e a direito – mesmo que sejam profissionais, mesmo que pareçam bonzinhos. E pensando nisso, a atriz Emily Meade teve uma ideia.

Emily interpreta Lori Madison no seriado The Deuce, da HBO. A história se passa nos anos 70, durante a ascensão da indústria pornográfica e Lori é uma prostituta envolvida nisso. Em uma cena, ela precisava fazer sexo oral em um pênis (de mentira, mas era um dildo bem realista). Ela se sentiu exposta demais e ficou BEM preocupada com a sua imagem, pensando até no clássico “e se um dia eu tiver filhos e eles assistirem a isso?”. Por isso, resolveu sugerir ao time de produção da série que contratassem uma pessoa que tivesse certeza de que sua imagem e ações dentro da produção estivessem condizentes com seus limites pessoais. E rolou! A HBO acatou a ideia e resolveu aplicar a TODAS as produções originais um novo membro na equipe: Coordenadores de Intimidade.

De acordo com a Rolling Stone, a cena de The Deuce correu com detalhes diferentes: Meade recebeu almofadinhas da coordenadora Alicia Rodis pra não machucar os joelhos ao assumir sua posição pra cena. Entre as tomadas, Rodis oferecia água, spray bucal e lubrificante saborizado para a atriz. Durante todo o tempo de gravação, ela estava lá, monitorando tudo junto com a equipe e trabalhando para que nada dentro do estúdio ocorresse de forma constrangedora ou fora do que Emily havia consentido.

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Alicia Rodis é a fundadora do Intimacy Directors International, uma organização sem fins lucrativos que reúne profissionais de intimidade pra garantir que tá tudo certinho e que os profissionais envolvidos em cenas de sexo estejam amparados profissionalmente AND emocionalmente. Eles se baseiam em cinco pilares: contexto, comunicação, consentimento, coreografia e conclusão.

Contexto significa que todo o ato sexual precisa realmente servir DE ALGO pra trama e todo mundo precisa saber direitinho o que vai acontecer. Comunicação tem a ver com a equipe estar entrosada e que TODOS garantam o cumprimento dos limites pra que se sintam seguros. Consentimento é aquilo, né? Receber a AUTORIZAÇÃO EXPLÍCITA da outra pessoa para ser tocada, beijada e tudo mais. Coreografia é uma parte bem interessante: o ato precisa ser coreografado. Todos já sabem qual mão vai aonde, qual braço fica pra baixo, quem fica por cima… e tudo ganha um porquê narrativo. A conclusão é uma ideia genial: ter um ritual ou uma ação que CONCLUA a cena, simbolizando o fim daquilo. Pra que o sexo fique lá no âmbito PROFISSIONAL da coisa e ninguém sinta que agora tem ~liberdades com seu colega porque a cena aconteceu.

Mudança, meus amigos. Progresso. Coordenadores de intimidade estão ali pra finalmente garantir segurança e um contexto profissional pra coisas assim. É com atitudes como essa que dá pra prevenir que certas doideiras de diretores não interfiram na segurança física e emocional do elenco. Como aquela cena de O Último Tango Em Paris, em que Maria Schneider não tinha conhecimento de que seria penetrada com uma baguete suja de manteiga. Na época, Bertolucci até disse que “não queria que Maria interpretasse a raiva e a humilhação. Queria que ela as sentisse”. Até tentou consertar depois, dizendo que a atriz só não sabia da manteiga — um perfeito idiota. Então, sim, essa (e muitas outras) obras que renderam Oscars, Globos de Ouro e muita grana contam SIM com momentos de estupro real. E fim de papo. E isso já se repetiu vezes o suficiente pra presença desses profissionais da intimidade ter DEMORADO a chegar.

Que a ideia se espalhe, que seja logo uma exigência contratual, que todos, mas ESPECIALMENTE mulheres possam atuar em segurança.