Ilha dos Cachorros: a doçura e política de Wes Anderson | JUDAO.com.br

Em sua segunda animação completamente em stop motion, Anderson conta uma história das suas histórias mais carismáticas — e com uma mensagem BEM clara

Wes Anderson é um dos diretores mais singulares da sua geração. Com nove longas-metragem na carreira, o cara colocou um pé no stop motion em A Vida Marinha com Steve Zissou, mas foi em O Fantástico Sr. Raposo que o cineasta realmente fez sua incursão na técnica. Se sua habilidade neste tipo de produção já havia sido elogiada no filme de 2009, agora ele conseguiu se aprofundar e entregar um filme ainda mais fluído e detalhado com Ilha dos Cachorros.

Em uma história idealizada pelo próprio Anderson, junto com Roman Coppola, Jason Schwartzman e Kunichi Nomura, a trama se passa 20 anos no futuro, em uma cidade fictícia do Japão chamada Megasaki. Após um surto de gripe canina, o ditatorial prefeito Kobayashi (Kunichi Nommura) decide banir todos os cães e enviá-los para um depósito de lixo chamado Trash Island. Entre os animais está Spot (Liv Schreiber), o companheiro e cão de guarda de Atari (Koyu Rankin), o sobrinho órfão e distante do prefeito. Seis meses depois, Atari decide viajar até a ilha para resgatar seu cão.

Lá na Trash Island, Atari encontra Rex (Edward Norton), Duke (Jeff Goldblum), King (Bob Baladan) e Boss (Bill Murray), um grupo de cães que decidem ajudá-lo em sua busca. Entre eles também está Chief (Bryan Cranston), um cão de rua que está acostumado a viver sem um mestre e menospreza a incapacidade dos seus companheiros de viverem sozinhos.

Enquanto Atari está em sua busca, um grupo de estudantes liderado pela intercambista Tracy (Greta Gerwig) começa a investigar o prefeito e suas reais intenções com o banimento de todos os cachorros.

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Dividido em quatro capítulos, Anderson entrega um enredo com certo nível de previsibilidade, mas com um visual tão autêntico que acaba acobertando essa narrativa. Talvez por lidar com uma quantidade enorme de personagens recorrentes, o roteirista e diretor não pôde se aprofundar em cada um deles, criando apenas uma camada superficial sobre quem realmente é cada um, mas soube criar uma história tão doce e delicada que é difícil não se emocionar – e se identificar, se você tiver seu próprio cachorro – com a lealdade dos cães e a persistência dos saudosos donos.

Mas o mais importante é que Ilha dos Cachorros também ressoa contra governos e medidas autoritárias, divisão e privação de direitos. Ao lembrar dos noticiários, não é tarefa difícil encontrar c e r t a s p e s s o a s reais que se encaixam perfeitamente no papel do prefeito com seus discursos extremistas. Ou no dos cães – considerados incapazes de estarem com a população “civilizada” – enviados para outro lugar por serem “indesejados”. Te lembra algo?

É curioso ver a visão do diretor sobre isso, já que Anderson tem uma maneira distinta e emocionalmente afastada de ver o mundo que está sempre impressa em seus filmes. Mesmo entendendo e explorando nossas complexidades como seres humanos, Anderson tem uma ótica quase inocente sobre questões profundas.

Em Ilha dos Cachorros, existe uma visão simplista sobre a origem do problema e solução dele. O olhar de Anderson é sob a visão de Atari e de Tracy, duas crianças idealistas que acreditam que o mundo pode ser resolvido de forma simples. Ao mesmo tempo, a execução do filme tem um ritmo acelerado e objetivo como a perspectiva de um cachorro.

Anderson conseguiu criar emoções universais – empatia, resiliência, pesar – sem traduzir grandes trechos do seu filme, falado em japonês por boa parte dos personagens “humanos”. Para o diretor, o público deve sentir a essência dos seus personagens através das expressões e não necessariamente do que está sendo dito. Fica a curiosidade sobre como o público japonês lidará com esse filme.

Além da própria língua, Ilha dos Cachorros está recheado de referências culturais do Japão e o próprio diretor afirmou que o cinema de Akira Kurosawa foi uma forte inspiração – junto com especiais de férias que passam nas televisões nos anos 1960. Só Anderson seria capaz de juntar referências tão distintas e fazê-las funcionar tão bem.

Mas se a história é simples, a técnica empregada para desenvolver os detalhes visuais desse universo não é. Não é de hoje que Anderson demonstra ter um bom olho para detalhes e cada pelinho canino, sopro do vento ou expressão facial são perfeitamente leves, espontâneos, naturais. Como sempre, o foco da sua produção está em um esquema de cores bem brilhantes, na inconfundível simetria de sua câmera e em uma trilha sonora espetacular feita por Alexandre Desplat.

Não existe limites para a criatividade visual do diretor quando ele está em um território tão vasto e imaginativo como a animação. E se tem alguém que pode tirar anos de hegemonia da Pixar no Oscar, esse alguém é Wes Anderson.