Inumanos deu uma cagadinha na entrada e deixou um caminhão de bosta na saída | Judão

Oito episódios depois, a série que começou ruim, mas sem ser assim tão merdenta quanto se esperava, não só atinge as expectativas como as supera, fechando escrotamente com chave de esgoto

SPOILER! Quem ouve toda semana o ASTERISCO, nosso programa, talk show, podcast, O QUE VOCÊ QUISER sobre cultura pop e ADJACÊNCIAS, já deve ter escutado o Borbs dizer que um de seus maiores arrependimentos foi ter colocado a expressão “enorme monte de bosta” na nossa resenha conjunta do filme do Quarteto Fantástico. Juro que, tanto tempo depois, até entendo os motivos do nosso intrépido editor-chefe. Mas nem ele, que chamou com todas as letras, na minha cara, Os Defensores de “Batman VS. Superman da Marvel”, sequer podia imaginar o tamanho da ruindade da série dos Inumanos. Uma produção que, ao final de seus OITO intermináveis episódios, não só merece ser chamada de “enorme monte de bosta” como ainda merece uma atualização do termo.

Tamos diante de um enorme e fétido CAGALHÃO. Realmente do tipo que o Dentinho deixaria pra trás depois de bater a refeição do dia.

Aliás, coitado do Dentinho, hein. De longe a melhor coisa desta catástrofe em forma de série, ele é um gigantesco CGI que, ao mesmo tempo em que é fofo e carismático, é também muito caro pros padrões de um programa de TV da ABC. Então, acabou sofrendo com uma sucessão bizarra de desculpas para sumir de cena. “Tadinho, ele fica exausto depois de teleportar a galera, precisa descansar”, era a favorita. Mas também rolou um “eita, ele foi atropelado por uma moto no meio da floresta, vamos deixar o bicho de molho neste galpão por mais dois episódios para ele se recuperar”. Caso tivéssemos mais Dentinho, talvez o nível da parada pudesse melhorar.

TALVEZ.

“Pô, cara, para de fazer isso com você mesmo, a vida é muito curta pra ficar vendo série ruim até o final”, me disse um amigo, quando soube do esforço ao qual eu tava me submetendo semanalmente pra fechar esta sucessão de dor e sofrimento. É, eu sei. Mas eu gosto tanto dos personagens nos gibis originais que PRECISAVA saber até onde estes roteiristas e produtores sádicos iriam com isso. E se o primeiro episódio é ruim mas, ora essa, não é TÃO ruim quanto se imaginava pelos vídeos promocionais, saibam que a coisa vai degringolando gradativamente de uma forma que, surpreendentemente, este season finale exibido na última sexta-feira (10) consegue ser MUITO PIOR do que qualquer pessimista podia sequer imaginar.

Conceitualmente, a ideia por trás da trama nem é de todo escrota. Mas é tudo tão acelerado para caber dentro de oito episódios que você simplesmente não consegue botar uma fé. Se a INSURREIÇÃO de Maximus contra seu irmão parece automática, surgida do meio do nada com coisa nenhuma em dois episódios, o que dizer do movimento contra o novo rei, que aparece e é sufocado em menos de meia-hora de um único episódio, sem qualquer motivo aparente? “Ah, ele é um déspota, queremos ele fora do trono”. Mas isso acontece ao mesmo tempo em que a família real está na Terra há cerca de dois, três dias no máximo? WTF? Simplesmente não convence. É o tipo de coisa que precisaria de mais tempo de desenvolvimento.

O mesmo vale pra mudança pela qual passa o personagem do Karnak, por exemplo. Esqueçamos o fato de que ele pouco lembra sua contraparte dos gibis, mas uma batida de cabeça e uma paixão que dura menos de um dia já o fazem se tornar alguém que questiona totalmente sua natureza analítica a ponto de submeter o próprio primo Gorgon a uma segunda terrigênese, considerado um dos pecados mais mortais de sua espécie? AH VÁ SE FODER.

À correria, soma-se uma questão importante aqui: a falta de orçamento. Não achei que fosse pegar tanto, mas pegou. Conforme vai ficando mais claro o desfecho ÉPICO que eles pretendem dar pra série, também fica claro que eles precisavam de mais cenários e mais extras. Estamos em uma cidade gigantesca na Lua, com uma população de uns tantos milhares de pessoas e todos os discursos populistas são no mesmo lugar. Para a mesma meia-dúzia de extras, que são os mesmos que correm pra lá e pra cá quando a destruição de Atillan começa. Dentro do palácio, a coisa só piora: a Guarda Real teve ter, chutando alto, uns cinco integrantes e toda a ação se passa em no máximo quatro ambientes abertos além do quarto da Cristalys. Mas você olha de fora e o CGI te vende um lugar imenso, colossal, gigantesco. Porra, galera.

Pra quem queria ser a Game of Thrones do Universo Marvel e tava REALMENTE se levando a sério, era bom ter se esforçado um pouco mais.

Em um determinado momento eles finalmente abordam a questão de que esta Família Real vive numa realidade bem da escrota e que este sistema de castas com um Conselho Genético decidindo quem é digno de frequentar a cúpula e quem tem que ir quebrar pedra é no mínimo nazista. Mas dura MUITO pouco. Pra ser mais exato, dura a metade final de um episódio e a metade inicial de outro, quando uma personagem morre dizendo “seja o rei que eles esperam que você seja”. É um tipo de questionamento que, se norteasse a série a partir dali, se fizesse o Raio Negro enxergar que realidade de merda ele impunha ao seu povo, se fosse uma reconstrução das fundações inumanas, caralho, ia ser lindo. Eu bem que podia relevar todas as restrições orçamentárias e a trama correndo a 200 por hora, sério. Mas logo o monarca volta a ser um rei babaca, pra quem todo mundo baixa a cabeça. E um leitor dazantiga como eu começo a pegar birra até da versão HQ do sujeito, pra cê ter uma ideia.

E, de verdade, não deu. Anson Mount como protagonista não rolou. Ele tem literalmente o carisma de uma batata. Crua. Porque se fosse frita ainda tinha jeito.

Aliás, de verdade, por mais que os roteiristas tentem se esforçar nos dois episódios finais, não dá pra odiar completamente o Maximus. Não do jeito que se deveria detestar um vilão. Isso é o mais bizarro de tudo. Eles tentam dar a ele uma camada maquiavélica, retratá-lo como o louco egocêntrico que deveria ter sido mostrado desde o início, “quero dominar o mundo BWAHAHAHAHAHA”, inventam até uma correção de curso aos 45 do segundo tempo do tipo “olha o que eu fiz na adolescência e te forcei a matar nossos pais” pra tentar justificar que o Raio Negro passe a odiá-lo, mas não dá pra negar que a mudança que ele começou desencadeou um movimento extremamente positivo. A gente chega a ficar com pena do destino reservado ao cara, enterrado em um bunker debaixo dos destroços de Attilan. E, de novo, a ideia era que ele fosse um supervilão. A grande ameaça.

De mudança positiva, se é que dá pra tentar enxergar alguma, só mesmo a Medusa. É, todo mundo tripudiou aquele cabelo nas fotos, compreendo, assino embaixo, mas a carga dramática que a Serinda Swan impõe à personagem da metade da série pra frente, quando ela se torna talvez a ÚNICA voz a questionar o maridão no meio da loucura toda, destoa totalmente do festival de canastrice ao seu redor. Ela chora com propriedade, ela coloca uma puta força no olhar em especial nos diálogos com o regente de Atillan, quando deixa claro que não quer ser apenas a sua intérprete e sim alguém que tem o que dizer mesmo.

Chega no final e você fica torcendo MUITO pra que a Medusa se torne rainha mesmo, do verbo “sou a regente por direito” e não “sou a esposa do rei” e deixe o amigão lá no canto dele, sem encher muito o saco. Isso sim teria sido uma virada do tipo WOW, não “Atillan são as pessoas e não a cidade, teletransporta a população toda pra Terra”. Mas será que alguém aí assistiu Thor: Ragnarok? Olha que eu acho que sim, viu... ;)

Inumanos acaba deixando algumas pontas soltas, com espaço para uma potencial segunda temporada — a começar por você não saber muito bem onde e COMO eles se estabeleceram na Terra. Tem o Maximus lá preso que, bom, podia sair tranquilamente de alguma maneira bizarra e tocar o puteiro por aqui, e tem a tal “ameaça” maior do que a vida, que Raio Negro teria descoberto ainda adolescente, quando começou a ser preparado pro trono. “Trocamos algo ruim por um mal ainda maior”, diz ele, em linguagem de sinais, pra Medusa, nos últimos minutos do último episódio.

O mal ainda maior seria alguém pensar que vale a pena continuar esta história. Maaaaaaas se algum louco resolver bancar um segundo ano da série, sabe o que é pior? Eu vou acabar assistindo a esta caralha de novo. Tenho total certeza.

Vai se foder, Marvel.