Iron Maiden e a dor de cabeça chamada Hallowed Be Thy Name | Judão

Empresário da banda Beckett mete um processo de plágio pela letra da canção e retoma um assunto que a Donzela de Ferro achava que já tinha resolvido muitos anos atrás…

A principal matéria da edição de Abril da prestigiada revista Metal Hammer foi uma longa enquete com fãs, músicos de outras bandas e a própria equipe da publicação sobre quais seriam as melhores músicas do Iron Maiden. E a vencedora, número 1, eleita como a canção definitiva do sexteto britânico, foi Hallowed Be Thy Name, lançada originalmente no álbum The Number of The Beast (1982), cuja letra é essencialmente a história de um prisioneiro condenado à morte.

Steve Harris, baixista e líder do Maiden, além de compositor da faixa, afirmou à revista que Hallowed Be Thy Name seria a canção que ele apresentaria como introdução a alguém que NUNCA ouviu a banda antes. “É sempre bom descansar de algumas músicas que você toca por muito tempo, porque quando você volta a tocar acaba sendo mais animador. E é sempre legal tocar essa”.

Mas recentemente, a música, que de acordo com o levantamento do site setlist.fm já foi tocada ao vivo pelos caras mais de 1.700 vezes desde o começo dos anos 80, perdendo apenas para as onipresentes The Number of The Beast e Iron Maiden, foi retirada permanentemente do setlist da turnê The Book of Souls (por mais que não viesse, oficialmente, sendo tocada desde a apresentação no Wacken Open Air, em agosto de 2016). O motivo? Uma disputa judicial.

“A disputa diz respeito à canção Life’s Shadow, escrita no começo dos anos 70, creditada a Robert Barton e Brian Ingham, gravada então pela banda Beckett”, afirma o comunicado oficial da Phantom Music Management, companhia fundada pelo empresário Rod Smallwood depois de sua saída da Sanctuary, para cuidar especificamente dos interesses do grupo.

Beckett, uma obscura banda de rock progressivo da região de Newcastle conhecida basicamente por seu vocalista, Terry Wilson-Slesser, ter se candidato à vaga de frontman do AC/DC quando Bon Scott morreu, lançou Life’s Shadow em 1974, como parte de seu autointitulado disco de estreia (o único de sua obscura carreira, aliás), mesma época em que um certo Steve Harris versão teen viu os caras ao vivo – na época em que eles eram empresariados, acredite se quiser, por Rod Smallwood. E eis que então, na composição de Hallowed Be Thy Name, muitos anos depois, o big boss da Donzela de Ferro fez uma espécie de, digamos, homenagem. A letra original do Beckett tinha o seguinte trecho:
Mark my words my soul lives on
Please don’t worry cause I’ve have gone
I’ve gone beyond to see the truth
While I consider my new youth

When your time is close at hand
Maybe then you’ll understand
Life down there is just a strange illusion”

E a “referência” que pode ser ouvida em Hallowed Be Thy Name ficou assim:

“Mark my words please believe my soul lives on
Please don’t worry now that I have gone
I’ve gone beyond to see the truth

When you know that your time is close at hand
Maybe then you’ll begin to understand
Life down here is just a strange illusion”

Olha... não dá pra negar a semelhança, né? ;)

O comunicado oficial do Maiden faz questão de ressaltar que Harris era fã do Beckett – basta lembrar que, no single de 2 Minutes To Midnight, o grupo chegou a gravar um cover de Rainbow’s Gold – e que, até onde o compositor sabe, a questão tinha sido resolvida anos antes em um acordo com Robert Barton, guitarrista do grupo. “Parece que o que acontece agora é uma disputa entre os dois compositores originais de Life’s Shadow”, completa a banda, lembrando que Barton recentemente declarou ser o responsável pela letra da música e está bastante satisfeito com o jeito que o Iron Maiden lidou com o caso até então.

Quem não tá nada satisfeito é o seu outrora parceiro Brian Ingham, cujo verdadeiro sobrenome é Quinn. Em documentos oficiais do caso, ele não apenas afirma nunca ter ouvido a música do Iron Maiden (“não sou fã”) como também não fazia ideia, até Setembro de 2016, que Barton tinha batido o martelo longe dos tribunais com Harris, meio que silenciosamente por baixo dos panos, a respeito da letra, por volta de 2011. “Me surpreendeu descobrir que minha música e minhas letras ajudaram a tornar o Iron Maiden tão bem-sucedido”, afirma. “Eu escrevi muitas músicas ao longo da minha vida mas só uma delas chegou a ser gravada – e eu pensava que apenas para o disco do Beckett”.

Ele conta que escreveu Lying in My Shadow, depois rebatizada para Life’s Shadow, ainda adolescente, durante uma viagem para a Suécia, em 1969, como a primeira parte de uma série de canções sobre o último dragão e o último caçador de dragões. “Escrevi a letra no verso de uma carta que recebi da minha mãe, preso em um trem durante 13 horas, sem nada pra fazer”. De volta para Newcastle, ele mostrou a canção ao amigo Bob Barton, que amou. E, anos depois, quando entrou para uma banda chamada Beckett, ligou pro Brian e pediu pra usar a música, com algumas modificações. “Claro, é só me creditar na autoria e é nóis”, teria sido a resposta.

“Eu ouvi Hallowed Be Thy Name muitas vezes desde que a descobri, então, e está claro que dois trechos ali são trabalho meu – e eu nunca vi um centavo disso”, desabafa. E mais: ele afirma que também só descobriu recentemente que a canção do Beckett foi registrada numa divisão de 75% dos direitos pro Bob e 25% pro Brian. “Mas 90% da música que foi gravada por eles na época é meu trabalho. Minha música e minha letra, incluindo o trecho que o Iron Maiden usou. Não teria me importado que a divisão fosse 50/50, por mais que ele só tenha adicionado três linhas, provavelmente para poder se incluir nos créditos também”.

Quem está tocando o processo do lado de Brian Quinn, estimado em 200 mil libras e que deve chegar aos tribunais de fato só em 2018, é Barry McKay, um empresário veterano do mundo da música em território inglês, que representa o compositor desde março deste ano. “É uma pena que Steve Harris e Brian Quinn não tenham podido se conhecer, porque ambos são músicos fantásticos e apaixonados pela música”, começa dizendo McKay em uma enorme carta escrita para o site MetalSucks. “Eu vou lutar por Brian Quinn, embora eu preferisse ver Steve e Brian se conhecendo, apertando as mãos e reconhecendo as contribuições um do outro para dois grande épicos do Iron Maiden”.

Quando ele fala em “dois” épicos do Maiden, vale lembrar ainda que o processo judicial também inclui um trecho instrumental, extraído da mesma Life’s Shadow, que poderia ser identificado em The Nomad, canção que o Iron Maiden lançou em Brave New World (2000) – que traz nos créditos de composição, além de Steve Harris, o guitarrista Dave Murray. Mas vamos combinar aqui que The Nomad nem de longe tem a mesma importância para a carreira do Maiden que Hallowed Be Thy Name, né? :P

McKay afirma que não havia qualquer necessidade de tirar a canção do setlist da banda, já que a situação pode e deve ser resolvida. “Duvido que Steve Harris seja tão ganancioso a ponto de privar seus fãs de uma das melhores e mais populares canções do Iron Maiden apenas para não pagar o coautor pelos direitos autorais em conjunto”, afirma, complementando: “Brian Quinn vive em um trailer no Canadá, enquanto os lucros de seu trabalho ajudaram Dave e Steve a pagar por seu maravilhoso estilo de vida e suas várias casas, incluindo aquelas nas Bahamas e no Havaí”.

Olha que o cara fez a lição de casa bem direitinho, viu? ;)

Isso faz a gente pensar um pouco numa entrevista que Steve Harris deu, lá em outubro de 2015, para o número 100 da revista do fã-clube oficial do Iron Maiden, o IMFC. Ele revelou que, por conta do câncer na língua que acometeu o vocalista Bruce Dickinson, curado em maio daquele ano, a seleção do setlist ainda era bastante cuidadosa, com o seu retorno aos palcos gradativamente. Adivinha qual música foi retirada naquela época? Bingo. “Então as pessoas me perguntam: por que você deixou Hallowed Be Thy Name sair? Bem, nós deixamos sair porque Bruce não queria mais cantá-la. Tínhamos outras canções nas quais ele atingia notas altíssimas, estava em ótima forma. De qualquer maneira foi bom, porque provavelmente nós a tocamos todos os anos desde 1982”.

Agora, ela está temporariamente aposentada mais uma vez, mas por motivos BEM diferentes. Vejamos quanto tempo dura.