“O Jeremias poderá ser o que ele quiser ser”: uma entrevista com Rafael Calça e Jefferson Costa sobre a nova Graphic MSP | JUDAO.com.br

Conversamos com o roteirista Rafael Calça e o desenhista Jefferson Costa, responsáveis pelo 18º titulo do selo da Mauricio de Sousa Produções, que coloca o personagem como protagonista pela 1a vez e aborda um assunto bem duro: o racismo

Desde que começaram a ser lançadas, as graphic novels da Mauricio de Sousa Produções se deram ao luxo de permitir um bom grau de liberdade criativa ao seus autores, em grande parte já bastante acostumados a ela justamente por terem vindo do cenário das HQs independentes. A liberdade, claro, lhes permitiu também certa dose de ousadia, abordando temas mais “espinhosos” e que não são exatamente comuns nos gibis da linha infantil da turminha.

Assim sendo, tivemos Bianca Pinheiro abordando o divórcio sob o ponto de vista infantil em Mônica – Força e o Orlandeli tratando com poesia e respeito a morte de uma pessoa querida em Chico Bento – Arvorada. Mas o que eles estavam preparando para este ano era, de fato, um passo adiante, algo plenamente de acordo com as discussões no mundo em que vivemos atualmente, uma questão inédita, conforme o editor Sidney Gusman adiantou no nosso talk show / programa / podcast ASTERISCO.

Em Jeremias – Pele, que chega às bancas este mês, pela primeira vez uma Graphic MSP vai falar de racismo. Porque o garoto do Bairro do Limoeiro, eterno coadjuvante das histórias de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, é negro. Um dos únicos negros daquela galera, aliás. E na escola, ele sente o preconceito na pele graças às “brincadeiras” de um outro garoto. Um preconceito que seus pais já conheciam muito bem e vinham sacando que, uma hora ou outra, deviam abordar com ele. Um preconceito que gera raiva, frustração, que dá vontade de reagir. E que, segundo seu pai diz, não é uma briga, sim uma luta.

Pele me ajudará, inclusive, a corrigir uma injustiça histórica”, explica o próprio Mauricio, no prefácio. “Apesar de ser um de meus primeiros personagens, o Jeremias nunca havia protagonizado uma revista sequer. E o faz, agora, em grande estilo”. Fato: criado pelo quadrinista na década de 60, Jeremias é cronologicamente mais velho do que Mônica e cia; mais amigo de Titi, Franjinha e Manezinho, integrando a chamada “Turma do Bermudão”, que desfila pelo bairro de bermudas moderninhas e soltando gírias descoladas. Desta forma, ele acaba sendo muito mais cenário do que efetivamente um personagem com algum tipo de peso.

A coisa começou a mudar em 2010, no segundo volume da coletânea MSP 50, editada pelo Sidão para homenagear os 50 anos de carreira do Mauricio, quando o garoto do boné vermelho herdado do avô finalmente brilhou sozinho sob os holofotes em uma história curta, cortesia de André Diniz. Só que o tataraneto de Jeremin, príncipe africano que foi capturado e enviado para o Brasil para viver como escravo, merecia mais. Era hora de ganhar um espaço só seu.

“As Graphics MSP acontecem sempre a convite. O editor, Sidney Gusman, conhecia nossos trabalhos anteriores e entrou em contato por telefone, primeiro com o Jefferson [Costa] e depois comigo”, explicou Rafael Calça, o roteirista de Pele, em entrevista ao JUDAO.com.br. “O telefone tocou, Sidão convidou, e o frio na barriga começou”, brinca Jefferson, responsável pelos desenhos.

Tanto a ideia de que o personagem fosse justamente ele quanto o tema já foram encomendados diretamente pelo Sidney. “Então o convite já veio com o Jeremias e a ideia de criarmos uma história sobre racismo na infância”, explica Rafael. “Sidão já tinha em mente até o título. O tema sempre foi o racismo, e no entorno podemos abordar e trabalhar questões de representatividade. A partir daí foi com a gente”.

Ambos paulistanos, Jefferson e Rafael se conheciam há anos e já tinham feito até uma HQ curta chamada Feliz Aniversário, Feliz Obituário, lançada em 2005. Mas, em seus voos solo, os dois já tinham mostrado muito a que vieram – basta ver o que o Rafa fez, escrevendo e ilustrando, em Dueto, de 2013, enquanto o Jeff arrebentou em títulos autorais como o lindíssimo La Dansarina, sobre o qual a gente inclusive falou aqui.

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Os dois garantem que, desde a primeiríssima ideia até o resultado final, nada da trama foi alterado, havendo não apenas liberdade mas também bastante confiança do lado da galera da MSP. “O Sidão, como editor e responsável pelo projeto, participa de todas as etapas. Debatemos tudo, desde o roteiro e seu tom, a arte, a narrativa, a balonagem, letreiramento, o teaser, a capa... Nada escapa a ele, sempre com um olhar superatento”, conta Rafael. A partir daí, o editor levava pro Mauricio ir sentindo o andamento da coisa toda, sempre com o apoio total do “poderoso chefão de bom coração”.

Em termos narrativos, como os gibis da série Graphic MSP acabam falando, naturalmente, com um público mais velho, embora os personagens façam parte do imaginário de gerações e mais gerações de crianças, incluindo a atual, eles tiveram o cuidado de fazer uma história que falasse também com o público infantil. “Há dois núcleos, basicamente”, diz Rafael. “O das crianças, liderado por Jeremias, e o dos adultos, com a família dele. Foi a forma que encontrei de mostrar pontos de vista em relação ao preconceito”. Segundo o roteirista, quando crianças não entendemos como o mundo funciona e, quando adultos, já temos uma opinião sobre ele. “Esses sentimentos se encontram na hora de conversar com os filhos a respeito”.

Os dois criadores, aliás, acham que este tipo de “posicionamento” da MSP, com a coragem de colocar um título como este na rua e dar um pontapé numa discussão assim em suas páginas, considerando os tempos tão estranhos e cheios de medos que vivemos cada dia mais, é importantíssimo. “Em tempos tão polarizados, em que muita gente abertamente revela seu desprezo pelos problemas e vivências dos outros, não se posicionar seria concordar com elas”, afirma o roteirista. “É animador ver que empresas com grande alcance estão interessadas em produzir conteúdo para TODOS”.

Em tempos em que muita gente abertamente revela seu desprezo pelos problemas e vivências dos outros, não se posicionar seria concordar com elas

Um passo importante já tinha sido dado há alguns anos, na verdade, quando o estúdio decidiu mudar o visual não apenas do Jeremias mas também de outros personagens negros como a galera da Turma do Pelezinho, incluindo o protagonista e seus parceiros Cana Braba e Teófilo. A boca enbranquecida, exagerada, com aquele círculo no contorno, era claramente herança dos recursos visuais típicos do blackface, aquela caracterização teatral claramente racista e que inspirou o desenho de personagens como o Ebony White, eterno parceiro do Spirit do mestre Will Wisner. “O traço foi reestudado para se tornar mais moderno, atualizado e universal”, afirmava uma nota de esclarecimento no volume 8 de As Melhores Histórias do Pelezinho.

Os anos passam, a gente aprende, a gente melhora. Melhor assim, não? ;)

Rafael conta que, assim como muitas crianças, lia bastante Turma da Mônica na infância. “Mas infelizmente o Jeremias tinha pouca participação, era um coadjuvante sem muita expressão. Gostava quando ele aparecia, por me relacionar com ele, mas era raro”. É o mesmo esquema com o Jefferson, que conhecia os personagens da turminha assim, só de ver um ou outro gibi na biblioteca da escola, de um amigo ou primos. “Mas não consumia quadrinhos na infância, não cabia no orçamento familiar com a inflação maluca dos tempos do [Plano] Cruzado”. Mas ele ainda afirma que não conseguia ver o Jeremias nem como personagem secundário. “Era mais um figurante que vi uma vez ou outra”.

Será que Pele pode, de alguma forma, influenciar o espaço e tamanho que o Jeremias tem nas publicações “comuns” da Turma da Mônica, tanto nas infantis mensais quanto na Turma da Mônica Jovem? Talvez ajudando a dar um outro rumo à situações como aquela que o rapper Emicida relata no texto da quarta capa, quando sua filha arrancou lágrimas de seus olhos ao preferir a princesa loira à princesa negra numa caixa de brinquedos... “A ausência de referências positivas nos rouba o direito de imaginar, estabelece um teto para nossos sonhos”, diz o músico.

Embora não possa dar muitos detalhes, Rafael acredita que esta história inclusive JÁ influenciou os planos futuros pro garoto. “Há na MSP essa vontade de dar mais presença para o Jeremias, gerar mais identificação com os pequenos leitores negros. Nossa Graphic é o primeiro passo”.

Isso aí não te lembra algo? Talvez um certo herói de Wakanda que simplesmente dominou o mundo com seu filme nos cinemas e que, nas HQs, começou enfim a ganhar o destaque devido? Hey, hey, hey, será que o Jeremias é, portanto, o Pantera Negra da MSP? “Hahahaha, não sei”, diverte-se Rafael. “Só sei que o Pantera é o 18º filme do MCU e o Jeremias é a 18ª Graphic MSP, ambas sendo as primeiras a ter protagonismo negro em seus universos, em 2018. Isso já é muito legal!”.

Mas o Jefferson completa com uma frase que é muito mais simples, mas muito maior e mais intensa. “Será? O Jeremias poderá ser o que ele quiser ser”.

Bingo. É isso. Tudo que ele quiser. Inclusive (e principalmente) personagem principal.