Jesus, o Bárbaro, na visão de Grant Morrison sobre o nosso mundo | Judão

A tal da Espada Selvagem de Jesus Cristo é sobre todos nós, é sobre o hoje

Jesus Cristo já foi superstar, agora será um bárbaro. Ou quase isso. É que Grant Morrison anunciou que seu próximo trabalho é Savage Sword of Jesus Christ, que será publicado nos EUA no dia 28 de Dezembro na edição 284 da revista Heavy Metal. Isso mesmo, bem naquela época que todo mundo deixa a PUREZA do Natal de lado e volta a ser pecador na preparação pro Ano Novo.

Se você é esperto, já se ligou: Savage Sword of Conan é o mais clássico título do Conan, publicado a partir de 1974 pela Curtis Magazine, um selo da Marvel, e definido por muitos como o marco inicial da Era de Bronze das HQs. Pelas primeiras artes divulgadas, feitas pelos Molen Brothers, é bem isso mesmo: o SALVADOR ao estilo Conan. E pensar que tudo começou quando o Morrison estava fazendo uma famosa paródia de Adolf Hitler...

“Isso começou como uma sequência, lá em 1990, quando eu terminei esse gibi [The New Adventures of Hitler] ao lado do artista Steve Yeowell”, contou Morrison, que é o atual editor-chefe da mítica Heavy Metal, em entrevista ao Vulture. “Obviamente eu fiz um monte de pesquisa e cruzei com algo interessante durante a Segunda Guerra Mundial, dos Nazistas tentando reempacotar o cristianismo e Jesus, especificamente. Tire o personagem gentil e amoroso dos Evangelhos, e então o transforme em um Messias nórdico, bruto e violento. Na época eu pensei ‘definitivamente tem uma história aqui’. Mas aconteceu de só fazê-la agora”.

savage sword of jesus

Morrison, no caso, tá se referindo a um movimento chamado Cristianismo Positivo, que surgiu na Alemanha do final dos anos 1930 para introduzir na população os conceitos da pureza ariana por meio de um personagem que ninguém contestaria, justamente Jesus. Nessa ~visão, todo o Antigo Testamento era ignorado – afinal, eram judeus – e Cristo era retratado como um personagem ariano, ignorando justamente o fato de que ele TAMBÉM era judeu.

Bizarro, né? Pois é. É aqui que entra a genialidade de Morrison nessa história toda: o retorno desse Jesus, mesmo que sem as origens nazistas e com um toque do Conan, tem o seu motivo. “Nós vivemos em uma época na qual é bem claro que mesmo que as histórias mais pacifistas e as narrativas que uma vez foram muito mais positivas podem ser pervertidas para se posicionarem como catalisadoras da violência e do caos”, explica o quadrinista escocês. “Especialmente agora, quando vivemos num mundo no qual as mentiras podem ser facilmente negligenciadas, que a cultura da celebridade é mais poderosa que a verdade, que as pessoas podem realmente torcer a narrativa para encaixar em qualquer outra e que essas narrativas distorcidas se tornam completamente o oposto, que é justamente o que os Nazistas tentaram fazer com os Evangelhos”.

Morrison quer subverter a realidade com o seu Jesus – da mesma forma como os Nazistas fizeram no passado, ou como muita gente faz no mundo de atual.

Isso não é exagero. Nos EUA, acabaram de eleger um presidente, em parte, baseado em notícias falsas e rumores, usando o medo para distorcer fatos – como colocar que os latinos imigrantes chegam ao país para estuprar as jovens americanas, por exemplo. Subverteu-se a lógica de uma nação feita por imigrantes para colocar na Casa Branca um cara que promete um muro para separá-los de seus vizinhos.

Tá longe de todos nós? Não, não tá. Aqui mesmo, em São Paulo, a maior parte da população votou em um candidato que defende o aumento de velocidade dos carros nas ruas, usando como argumento que os números da Prefeitura, que revelavam uma queda na mortalidade, não eram reais. Ou que ele não é político, por mais que tenha uma história na política e fosse, OBVIAMENTE, um candidato. Dados, números e histórias estão sendo modificados para contar uma realidade completamente diferente daquilo que é, de fato, a verdade.

Até no mundo da cultura pop vemos isso. O Superman – que, antes, era conhecido justamente por abordar essa narrativa mais otimista – teve a sua mensagem totalmente modificada na versão mais recente dos cinemas. O colorido deu lugar aos tons mais escuros e, mesmo que fosse para contar uma história de inspiração e morte para nos levar a um bem maior, isso foi feito de uma forma extremamente sombria.

Jesus

“A verdade tem se tornado a vítima, do jeito que a internet e a mídia estão sendo tocadas, e da forma como certas pessoas são capazes de distorcer e modificar a história para se adequar a si mesmos”, explica Morrison. “Uma das primeiras coisas que você faz para controlar as pessoas é controlar seus sonhos, seus mitos e suas histórias. Os Nazistas não foram tão longe quanto o Cristo bárbaro – essa é a minha inovação. Tudo que eles fizeram foi sugerir que Cristo era ariano, e que ele não era do Oriente Médio, que ele era do norte da Europa e que ele tinha cabelos loiros e olhos azuis e que era muito mais proativo e violento”.

Agora, vai lá, pega qualquer imagem de Jesus, pode ser da internet, da Igreja Católica ou daquele santinho que se leva na carteira. Olha bem pra figura que tá lá. O que você enxerga? Um homem do Oriente Médio, mais especificamente da Judeia, lá do século I? BREAKING NEWS: não.

No dia 28 de dezembro teremos a oportunidade de ler a história de um Jesus Cristo violento, cheio de músculos, socando pessoas como Conan ou até mesmo como o Thor. Você poderá ler aquilo, achar divertido, fechar o gibi e seguir a vida. Ou, se for mais religioso, ler, achar ridículo e xingar os quadrinistas. Mas, no final das contas, Savage Sword of Jesus Christ é mais do que isso. É mais do que sobre religião e o Messias. Nem é sobre se ele existiu, se aquilo que tá na Bíblia ou que nos ensinam nas igrejas é correto. A tal da Espada Selvagem de Jesus Cristo é sobre todos nós, é sobre o hoje.

E isso é ainda mais assustador.