Joe: o último grande filme de Nicolas Cage | Judão

Fracasso de bilheteria, mas sucesso de crítica, você provavelmente não o assistiu. Deveria. ;)

Como um grande fã do trampo de Nicolas Cage, me dói admitir que, sim, o cara só tem feito filme bosta ultimamente. Por exemplo: seu mais recente a chegar às telonas brasileiras, Cães Selvagens, é por muito pouco um filme mesmo. E é horroroso. Não por ele, nem pelo sempre sensacional Willem Dafoe, aliás. Mas é.

Não vale seu tempo.

Só que também pela minha admiração ao cara, eu estou sempre disposto a entrar numas acaloradas discussões em sua defesa, ESPECIALMENTE quando bons filmes dele, que parecem milho em meio a uma ~enormitude de merda, são ignorados por conta do restante tenebroso. Porra, ele ainda é Nicolas Cage! Só os clássicos noventistas Con-Air, A Rocha e A Outra Face já lhe variam o benefício vitalício da dúvida. :)

E é aí que entra Joe, filme independente dirigido e co-produzido por David Gordon Green (o gênio por trás de Pineapple Express), protagonizado por Cage e lançado entre 2013 e 2014. Fracasso retumbante de bilheteria, incapaz sequer de igualar seu baixo orçamento de US$ 4 milhões, o longa foi um sucesso de críticas (87% no Rotten Tomatoes) como raramente tem se visto na carreira do ex-senhor Lisa Marie Presley – e com justiça: é um puta drama que funciona como estudo de personagem, com direito a uma atuação de primeiríssima da nossa estrela decadente.

Inspirada em um livro homônimo de 1991, a trama mostra Cage como um solitário homem que divide seu tempo entre o trabalho, liderando uma equipe de homens que envenenam árvores ilegalmente a serviço de madeireiras (uma vez doentes, elas podem ser legalmente removidas para o plantio de pinheiros que serão, claro, comercializados), e a dedicação à prostitutas e noites em casa vendo TV e enchendo a cara.

Um dia, um esforçado adolescente chamado Gary (Tye Sherridan, mostrando porque, APOCALIPSES À PARTE, podemos ter fé em seu Ciclope), pede ao Joe uma oportunidade de trabalho, e nasce uma amizade meio paternal entre eles. Mas quando o protagonista descobre que o garoto e sua família sofrem diversos abusos na mão do pai alcoólatra, ele acaba tendo de decidir entre enfrentar um passado do qual vinha fugindo para ajudá-los ou seguir sua rotina.

Barbudo, com olhar pesado e dando ocasionais bufadas de saco devidamente PREENCHIDO, Cage constrói um homem contido que claramente assumiu essa forma para segurar uma fúria interna capaz de causar muita merda. Ainda assim, coloca uma humanidade, um respeito e um carinho em seu ÂMAGO que o tornam uma figura simpática, interessante. Tudo isso só trabalha a favor das peculiaridades de Nicolau Gaiola, já que, quando a quietude do personagem eventualmente vai para o espaço e surgem esperados rompantes de loucura, tudo faz sentido e, mais importante, se encaixa com a proposta.

“Eu tinha feito muitos papéis diferentes, de diferentes estilos, que eu chamo de Western Kabuki (???), personagens exagerados, maiores que a vida, mais barracos, então eu tirei um ano e decidi ser mais seletivo”, explica ele à ABC News, tentando nos convencer que filmes como Caça Às Bruxas vieram duma perspectiva artística, e não da necessidade de pagar contas. “Queria encontrar um personagem no qual eu poderia investir toda a sabedoria de alguns erros que cometi no passado, estar mais despido na atuação”, completa.

Não é uma das histórias mais originais, é verdade, e o arquétipo do personagem de Cage – um homem duro, de passado sombrio, mas bom coração – é mais usado que sapato velho. Só que a ótica naturalista de Gordon Green, a liberdade e qualidade das atuações da dupla SUPRACITADA, e o desfecho poderoso fazem a assistida valer muito a pena. Além de um homem chamado Gary Poulter.

Poulter era um desabrigado que vivia nas ruas de Austin, no Texas. Alcoólatra, ele foi encontrado por Gordon Green que, à revelia dos produtores, insistiu em dar a ele um dos principais papeis em Joe: o do também alcoólatra, porém violento e inescrupuloso, Wade, pai de Gary. Depois de entregar uma atuação surpreendente, louvada pela crítica como um dos maiores destaques do filme, ele foi encontrado morto em um lago raso de Austin.

Um dos melhores textos sobre o cara na internet, esta matéria do Gawker fala mais um pouco sobre como Poulter incorporava o espírito do filme – de mostrar, numa mistura de tons e gêneros, o quão diverso é o mundo para além da ótica Hollywoodiana – e era, mais que tudo, um ser humano fascinante. Fluente em japonês por ter lutado na guerra, expert em break dancing (habilidade incorporada organicamente ao filme) e fã de Heavy Metal (paixão que ele dividiu com Cage durante as filmagens), o cara era, basicamente, o próprio personagem. Mas era também um homem doente que, investigações concluíram, morreu afogado acidentalmente por conta da bebida.

Em uma das muitas grandes cenas de Joe, Poulter discute com outro não-ator selecionado por Green para um papel no filme, o dono de restaurante Brian Mays, sobre um dia de trabalho. O diálogo, não roteirizado, é hilário, mas mais importante ainda, é real. Embora seja muito válido problematizar sobre como a ideia de empregar pessoas de fora da indústria possa ser uma exploração de sua ~exoticidade, é inegável como o produto final, enquanto CINEMA, é algo novo. E Joe tem isso de sobra.

Há algo especial demais em ter uma mega-estrela (?) como Nicolas Cage mergulhado num filme tão visceral. É incrível ver o talento nato de Tye Sherridan num dos primeiros passo duma carreira que, se Bryan Singer permitir, tem tudo para ser incrível. E é maravilhoso ver o talento de pessoas como Poulter e Mays que, não fosse por um filme como esse, nem saberíamos que existem.

Joe, um filme indie cuja história talvez seja seu aspecto menos importante, é o último grande filme de Nicolas Cage. Ao menos até os cinco outros previstos para estrearem em 2017 serem lançados. ;D