A jornalista, a bagunça e o Mundo que tá chato | JUDAO.com.br

São Paulo, 11 de Fevereiro de 2019. Terça-feira.

12h55

Cheguei no chique L’Hotel, atrás da Avenida Paulista. A série de entrevistas com o elenco de Sai de Baixo – O Filme começará às 13h. Entro na sala designada, dou uma olhada em volta... tudo meio vazio. Sento no sofázinho da espera e fico ali, relendo as perguntas que formulei para Miguel Falabella, Tom Cavalcante, Lucio Mauro Filho e Cris D’Amato. “Será que ele vão achar ruim de falar sobre as piadas preconceituosas?”, me pergunto.

13h06

Enquanto pesquiso algo no celular sobre o roteiro do filme, escuto dois técnicos de vídeo conversando. “As entrevistas começam às 15h?”, um pergunta. “Não, 15h eles precisam sair daqui. É antes”, responde o outro. Nenhuma assessora à vista, mas ouço Miguel Falabella chegar cantarolando bem alto e subindo uma escada. Nesse momento, começou a ficar meio preocupada com a bateria do celular.

13h15

Abro o Instagram pra passar o tempo e checo as DMs. Uma solicitação com uma foto tá lá. Eu abro e é… uma foto de um pênis não solicitada. Fecho rápido e me enfureço. Tento denunciar o perfil, mas ele não posta nada no feed, não está fazendo nada errado em público e o suporte do aplicativo nega minha denúncia. Resolvo reclamar no Twitter pra desabafar aquele ódio repentino.

13h30

Já passou um bom tempo e finalmente vejo alguém da distribuidora. Me aproximo e pergunto sobre o horário. A moça explica que “a coletiva de hoje cedo atrasou e aí vamos começar só às 14h!”. Nenhum colega levantou pra perguntar e se eu não tivesse ido conversar, ficaria sem saber mesmo. Resolvo ir ao banheiro pra checar o batom, já que essa entrevista deve ir para o IGTV do JUDAO.com.br, como foi a do filme Eu Sou Mais Eu.

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14h00

Uma amiga de outro site chega e papeamos um pouquinho, mas logo sou chamada para entrar e conversar com Miguel e Tom. Sento, sorrindo, e sou recebida com beijos e abraços, cheios de simpatia. Conversamos sobre o modelo do teleteatro adaptado para o cinema, e Miguel me diz que não sentiu grandes dificuldades em fazer isso porque as personagens eram fortíssimas e falavam por si. Tom completa: “É como música, né? Minha filha tem 19 anos e é apaixonada pelo Barry White, Cole Porter… O bom produto não perde a qualidade. Como o Chaves, uma coisa chapliniana!”.

Quando questiono sobre o porquê de manter, em 2019, os mesmos estereótipos do porteiro cearense e mulher burra, entre outros, Miguel me olha beeeem nos olhos e diz que é “porque é assim. Você não muda um clássico, meu amor. Um clássico é um clássico e não se muda”. Disse, depois, que não faziam aquilo pra ofender e que “nunca atirariam no bobo da corte, e sim no rei”.

14h10

Saio do papo e conto sobre a história dos “clássicos imutáveis” no nosso grupo do JUDAO.com.br. Sento ao lado de outras pessoas e pergunto sobre como era o filme. Não pude assisti-lo porque não rolou uma exibição para a imprensa e queria mesmo saber como eram as piadas. Um moço explica: “Olha, se você entrar com uma cabeça moderna nesse filme, vai odiar as piadas machistas e gordofóbicas”. Fico quieta. Ele conclui: “Como fui no clima da nostalgia, saí gostando!”.

Mais tarde, fizemos algumas piadas sobre perguntas bestas. Eu disse que “adorava” aquela sobre “o que há do ator no personagem e de personagem no ator”. Rimos e uma outra jornalista me disse que também gostava. Eu ri e disse que estava sendo irônica e achava aquela pergunta batida e que todos os atores já deveriam estar cansados de ouvÍ-la. Recebi então uma explicação sobre o porquê daquilo ser bom sim. Ouço numa boa e suspiro, esperando a próxima entrevista…

Olha, se você entrar com uma cabeça moderna nesse filme, vai odiar as piadas machistas e gordofóbicas. Como fui no clima da nostalgia, saí gostando!

14h33

Hora de entrar para falar com a diretora e Lucio Mauro Filho. Na sala, apenas duas cadeiras. Viro para a assessora, que já responde com um “Sabeoquequié? A Cris precisou sair pra resolver umas pendengas. Daí é só o Lucinho mesmo. Mas você vai amar!”. Minha pauta meio que pegou fogo diante dos meus olhos e eu ajeitei algumas novas coisas pra falar com ele.

Sento e ele me conta uma anedota sobre quando, na época do lançamento de Kung Fu Panda 2, entrevistou Gary Oldman e cometeu uma gafe dizendo, em inglês, que o personagem do pavão estava dentro de Gary. Pavão é peacock e cock é um apelido pra pinto e esse é um trocadilho recorrente nessa língua. Oldman fechou a cara pra ele o resto do tempo. Sobre Sai de Baixo – O Filme, ele me diz que foi um desafio gostoso entrar no time da família Antibes e agregados, frisando o respeito e carinho da recepção que teve.

Ele também interpreta uma tia trambiqueira da Magda, e eu questionei-o sobre o porquê de ele ser chamado para isso, e não uma mulher. “Ela faz parte de um casal de gêmeos, né? Então quem fosse, teria que fazer os dois personagens”. Lucio diz também que seu histórico em papéis femininos provavelmente colaborou. No Zorra Total, Sexo Frágil, A Grande Família… “Minha afinidade com esse papel e meu passado na comédia e no improviso fizeram de mim uma opção bem-vinda, eu acho”. Terminou dizendo que se divertiu como nunca em estúdio, e convidou todos para assistir ao filme dizendo que ele “chuta o pau da barra do politicamente correto”.

14h39

Saio da sala e aviso colegas sobre a falta de Cris pra que desse tempo de mudarem suas perguntas. “Êêê. Ô, saco. A gente prepara pra nada”, reclama um.

14h50

Ainda estou esperando meu pendrive com as gravações das conversas. Ao meu lado, vejo passarem Miguel e Tom. “E esse pessoal todo que não nos entrevistou, fica sem?”, pergunta Falabella. A assessora diz “eles vão ficar com Lucinho e Cris, que vai voltar. Não ficam sem nada”. Os dois se despediram dos presentes e foram embora no horário combinado com a produção.

14h52

O técnico de mídia chama meu nome, mas peço só mais um minutinho pra terminar uma conversa sobre junkets desorganizadas. Finalizo o papo, pego, agradeço e saio.

15h

Conto na conversa em grupo do JUDAO.com.br a minha jornada. Borbs, com os olhinhos de editor-chefe brilhando, diz: “O seu dia aí dá pauta, hein?”

¯\_(ツ)_/¯