Justin Timberlake e o tal do pop de tiozão | JUDAO.com.br

Em seu novo álbum, cantor assume seus 36 anos com uma coleção de canções menos Michael Jackson e muito mais Prince wannabe

Quem não teve a chance de ouvir rigorosamente nada de Man of The Woods, o novo disco do Justin Timberlake, e dá uma boa olhada na capa e neste título, imediatamente deve pensar: certeza que agora o moçoilo resolveu fazer indie folk. Ou quase isso. O visual árido, sério, introspectivo até, não entrega em nada do que deve rolar ao longo de suas dezesseis faixas.

Quer dizer, não entrega se você fizer este tipo de leitura. ;)

Porque se você olhar pra capa sob outro ponto de vista, ah, mas ela ajuda sim a contar pelo menos uma parte da história que está por vir (ou ouvir). Porque este homem do mato, barbudo, com sua camisa xadrez e sentado na parte de trás da caminhonete é o típico estereótipo do everyday man ianque. Tipo um certo tio Bruce, lá de Nova Jersey. Pois é, segura essa aí: em seu novo álbum, Justin Timberlake é tipo um Bruce Springsteen do pop. Uma bela rendição ao pop clássico e autêntico da Terra do Tio Sam.

Sim, sim, Man of The Woods é mesmo pop, não se engane. E do bom, baita produção (cortesia de caras como Timbaland e o duo The Neptunes, formado pelos parças Chad Hugo e Pharrell Williams), grudento, dançante, envolvente. Mas não é, nem de longe, aquele pop metido a modernoso, eletrônico, quer quer ousar, inovar, mudar o mundo a partir da pista de dança. Nops.

Aqui, Justin faz pop confortável, que dá vontade de abraçar. Não chega a sair da zona de conforto. Como algumas publicações gringas estão teimando em dizer, é “pop de tiozão” (a nossa tradução muito mais legal pra “dad-pop”). E não que isso signifique, necessariamente, uma parada com cheiro de mofo e repleta de piadinhas “é pavê ou pacumê?”. Mas é um estilão diferente, de sabor retrô, menos luz de led e mais néon, menos calça skinny e mais boca de sino. Sabe a gola rolê deste vídeo aí? Bem isso. Tipo pop Alpha FM. Que, ah, claro, tem uma galera que vai dizer que é chato, velho, ultrapassado, que não é “vanguarda”. Mas que é uma delícia de ouvir até pra quem não gosta de admitir!

Ponha o disco pra rodar e entre no clima da trinca que abre os trabalhos, Filthy, Midnight Summer Jam e Sauce. Só com estas três, já dá pra sacar de imediato quem é a principal inspiração de Justin: o Prince. Tem o cara estampado pra todos os lados. Sim, sim, finalmente Mr. Timberlake deixa a velha obsessão por ser o novo Michael Jackson de lado e abraça um pop salpicado de soul, de hip hop, de um tiquinho de blues, de muitão do good ol’ funky.

Um verdadeiro combo de pop estiloso e refinado, no qual cabe um dueto ensolarado, quase um jazz praiano, com Alicia Keys em Morning Light, além de outro que é tipo um soul gospel sulista com o tempero country do Chris Stapleton, Say Something, talvez e inesperadamente um dos momentos mais delicinha do disco.

O primeiro lançamento de Justin depois de um HIATO de cinco anos é um bom exemplo de alguém que soube envelhecer com alguma classe e outro tanto de dignidade

Tudo bem, vamos admitir, Man of The Woods não é à prova de balas. Talvez bastante empolgado com o resultado, o cantor acabou fazendo uma BOLACHA longa demais. Dezesseis canções, porra, não precisava. As últimas do disco, caso você resolva ouvir a parada no método tradicional, nem são de todo ruins, mas saem prejudicadas porque o ouvinte tá até um pouco cansado. Podia ter parado, sei lá, em 10, 12 no máximo, que a missão tava cumprida e não comprida (AH ENTENDEU?).

Não tinha necessidade de um interlúdio na reta final da parada, naquele 1/3 derradeiro, esta coisa de obra conceitual, pra tentar dar um verniz mais refinado. E é justamente nesta quebra que o disco pisa no freio e, pô, meio que exorciza o Prince que tava botando fogo na coisa toda. Deixava rolar sem parar que tava incrível. Mesmo Montana ou Breeze of The Pond, que até tentam manter o clima, soam meio genéricas e sofrem sem um baixão mais vibrante, mais cheio de groove, pra colocar mais veneno, deixar mais sacana.

Mas mesmo que não seja exatamente perfeito, o primeiro lançamento de Justin depois de um HIATO de cinco anos é um bom exemplo de alguém que soube envelhecer com alguma classe e outro tanto de dignidade. E enquanto se aproxima cada vez mais da alcunha de “quarentão”, tudo que Justin parece querer é reverenciar seus velhos mestres e se divertir um bocado no processo.

Por mim, tá tudo bem.