Karol Conká presta reverência ao legado de Sabotage | JUDAO.com.br

Cantora grava a sua versão pra Cabeça de Nego, clássico de um dos nomes mais meteóricos do rap nacional

Esta semana, Mauro Mateus dos Santos, pai de 3 filhos, natural da Zona Sul de São Paulo, completaria 45 anos. Quando era moleque, foi ladrão, foi traficante, fez merda igual todo mundo, mas deixou tudo isso pra trás e encontrou seu caminho no mundo da música. Parceiro de um monte de gente, inspiração de outro bom tanto, ele era conhecido como Maestro do Canão, nome da favela onde cresceu, sua quebrada original. Seu talento pra se virar, dar sempre um jeitinho, pra driblar as “autoridades”, lhe valeu o apelido pelo qual vai ser sempre lembrado: Sabotage.

Apesar de, oficialmente, ter lançado apenas um único disco completo de estúdio, Rap é Compromisso! (que chegou às lojas entre 1999 e 2000, vendendo no total quase dois milhões de cópias), a extensão de suas rimas e de seu trabalho como embaixador do rap é muitíssimo maior. “Sabotage deixa para a gente o exemplo de resistência, de que a gente precisa falar de sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, ele dizia que não tinha tempo de falar de sofrimento o tempo inteiro – ele queria ter forças para pensar soluções também”, opina a cantora Karol Conká, igualmente influenciada pela sonoridade de canções como Respeito é Pra Quem Tem. “Acho que ele precisa ser lembrado não só no rap, mas na história da música brasileira”.

A parte dela, pelo menos, Karol tá fazendo: depois de falar sobre ele em Boa Noite, seu primeiro hit de 2013 (“salve Sabotage, MC de compromisso, cumpre seu papel no céu, que aqui a gente te mantém vivo”), a cantora lançou esta semana uma nova versão de Cabeça de Nego, originalmente gravada em 2002 como parte do disco Coleção Nacional, coletânea de rap do selo Instituto. Além dos produtores da versão original, Tejo Damasceno e Rica Amabis, a faixa também tem a mão do produtor Boss in Drama, ALCUNHA de Péricles Martins, que vai assinar também o aguardado novo disco de Karol, já batizado de Ambulante, previsto pra ser lançado ainda este semestre.

A canção, já disponível nos serviços de streaming que você bem sabe quais são, também virou um vídeo, no qual a rapper anda pela favela do Boqueirão, em São Paulo, onde Sabotage morava antes de ser assassinado em 2003 e conversa com caras como o DJ Hadji, que hoje trabalha com ela mas que foi parceiro do Sabotage. “Durante as gravações na quebrada do Sabota, as pessoas me abordaram, muitas lembravam de quando ele gravou clipes lá. Ao mesmo tempo, ouvi minhas músicas sendo tocadas em algumas casas. Acho que tem uma continuidade boa aí”, afirma ela, pra revista Cult.

“É um clipe extremamente humano e verdadeiro, com a presença dos filhos do Sabotage, Sabota Jr. e Tamires, da neta Allice e do amigo de infância, Bola. Todos os envolvidos nesse trabalho estavam ali por amor e respeito a tudo que essa história representa”, afirma Johnny Araujo, diretor do vídeo junto com Leandro Lima, em entrevista ao HuffPost Brasil.

A faixa, na real, acabou virando uma espécie de dueto entre Sabotage e Karol Conká — e se a canção original tinha uma pegada de samba, aqui acabou se tornando quase como um reggae, mas sem esquecer aquelas batidas tribais, quase no ponto do candomblé. Foi, aliás, este potencial de mostrar versatilidade que fez Karol escolher justamente esta música para ganhar a sua versão. “É um sambinha com espírito de rap, não é aquele rap tradicional, pesadão”.

Neste sentido é que a cantora se sente cada vez mais próxima de Sabotage, justamente porque, como na letra da música, “nego não para no tempo”. E nenhum dos dois parava. Em seu primeiro contato com a música do saudoso Mauro, já rolou um baque. “Uma coisa que me chamou atenção é que ele era muito estiloso, tinha uma coisa de liderança, era diferente de todos os outros grupos da época — todo mundo cantava muito parecido aos Racionais”, conta ela, pra Revista Trip. “Fiquei encantada com ele. Quando vim pra São Paulo, o Helião, do RZO, disse que eu era a versão feminina do Sabotage, porque era a única que fazia o mesmo que ele, de transitar por todos os lugares — pelo cinema, falava com o pessoal do rock, assumia que curtia Sandy & Junior”.

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A revelação, no documentário Sabotage – O Maestro do Canão, que o rapper ouvia os filhos do Xororó quando tava em casa, mostra que o MC das parcerias com nomes como RZO, SP Funk e Rappin’ Hood também queria ir além daquilo que o manual de regras dizia que um rapper pode ou não gravar. “Achei aquilo o máximo. Sabe, ele gravou com o Sepultura [Black Steel in the Hour of Chaos, cover do Public Enemy] e com o Charlie Brown Jr. [Marginal Alado], não tinha amarras musicais. Isso mostra quem Sabota era e quem os rappers podem ser: não precisamos ser durões o tempo todo. Podemos curtir diversos ritmos”. E completa: “Tanto ele quanto eu sempre quisemos expandir o rap, englobar outros estilos, sair do lugar-comum”.

Karol diz que, apesar de ter uma pegada sonora mais leve, Cabeça de Nego é uma música muito forte. “Desde a primeira vez que a ouvi, adolescente, sempre senti uma vontade de dar um abraço no Sabota. É como se eu conseguisse dar esse abraço agora, por meio da música”, explica. “É uma música que dialoga muito com os dias de hoje; fala que a gente não pode parar no tempo, que por mais que a gente sinta a dor que a vida traz, temos que seguir com muita força”.

Pois é. Gravar uma música do velho Sabota justamente nos dias de hoje, em tempos tão áridos, difíceis, é uma espécie de manifesto. “Nunca me envolvi com política, não falo sobre isso, mas as pessoas sabem qual é a minha posição, tá escancarado na minha cara”, crava Karol. “Depois da morte da Marielle Franco muita gente está sem esperança. Chorar só escondido. Não dá pra ficar mostrando abalo, não é isso que a Marielle queria. É força, luta. É uma perda muito grande, a dor é imensa, fico arrasada, mas a gente tem milhares de pessoas que nos usam como referência. Não somos protagonistas à toa”. A mensagem, no fim, é “mostrar força pra quem pensa em sucumbir”.

Karol Conká é, como Sabotage, também multifacetada, circula por vários meios, fala e grava com uma galera sempre diferente, virou ícone de moda, referência de feminismo negro, é apresentadora de TV também e tá querendo até se meter a fazer cinema, tipo o próprio ídolo, que roubou a cena em O Invasor (2002) e Carandiru (2003).

Mas não é SÓ isso. Ambos têm uma imensa consciência de seu papel como multiplicadores. E este é o principal lance com o rap — e deveria ser, pelo menos, com A ARTE como um tudo. “Faço o que faço, não mando recado”, dizem os dois na letra de Cabeça de Nego. Isso aí: tá mais do que na hora de ter mais gente disposta a FAZER.