Katy Perry e a aprovação conveniente | Judão

É importante diferenciar tentativas reais de entender pontos de vista do outro e lançar luzes sobre grupos marginalizados, de preguiçosos oportunimos de ocasião

Parece particularmente difícil conversar sobre apropriação cultural no Brasil, país que tem, entre outros, o mito de ser nação guarda-chuva de dezenas de culturas, aquele jeitão “traz o instrumento que quiser, a comida que der na telha e se vista do jeito que bem entender”. É importante, entretanto, conversar sobre apropriação de culturas, principalmente pra diferir sinceras tentativas de entender pontos de vista de outros povos e lançar luzes sobre grupos marginalizados, de preguiçosos oportunismos momentâneos.

Parte desse problema toma contornos mais claros quando vem acompanhado da redefinição de um produto de mídia, por exemplo. Se um músico através de acordos com a gravadora consegue parcerias com os rappers do momento, sem problemas: reestrutura-se toda a imagem e história do artista em busca de uma estética mais “urbana”. Se recentemente o reality show mais comentado em redes sociais envolve uma competição de drag queens, o compositor dá entrevistas falando de experiências bissexuais na faculdade, ou daquela vez que beijou uma prima na adolescência. Pronto. Janela aberta para gravar um clipe lotado de drags e gírias gays tratando sexualidade e consciência de grupo como o product placement daqueles fones do Dr Dre.

A contradição atingiu o ápice na figura de Katy Perry em sua apresentação no último episódio da 42a temporada do Saturday Night Live. De um vídeo a outro a cantora passou de simpática à causa LGBT a apoiadora de um grupo com posicionamentos homofóbicos. Se durante a apresentação da faixa, Swish Swish, trazia drag queens ao palco do programa remontando os chamados ball rooms, festas nascidas da cultura gay, no bloco seguinte recebia numa participação o grupo Migos – famosos por declarações homofóbicas em entrevistas.

Ru Paul Charles, apresentador e drag queen, fala sempre em entrevistas sobre como a cultura drag JAMAIS atingirá o status de mainstream, presa sempre a um gueto, tangenciando a mesa principal, sem conseguir assento para discutir as moedas de troca distribuídas entre os gigantes. Essa é a mensagem que parece surgir da incursão de Perry em sua apresentação de Swish Swish: a cultura gay pode ser um detalhe minúsculo de representatividade para quem olha atento ao assunto. Se você assiste ao reality de drags ou já foi a um show de alguma delas conseguirá reconhecer alguns rostos e comemorar o fato de – aparentemente – as minorias terem chegado ao horário nobre. Se desconhece o assunto, vai assistir à apresentação vendo apenas ‘gente esquisita vestida de modo extravagante’.

Se você assiste ao reality de drags ou já foi a um show de alguma delas conseguirá reconhecer alguns rostos e comemorar o fato de as minorias terem chegado ao horário nobre. Se desconhece o assunto, vai assistir à apresentação vendo apenas “gente esquisita vestida de modo extravagante”

Tomemos o caso de Rachel Dolezal como exemplo. Se você não se recorda – eu também bem gostaria de esquecer — Dolezal era uma ativista de direitos afro-americanos que construiu uma carreira e reputações sobre a mentira de ter um pai negro, o que a tornaria mestiça; tempos depois, entretanto, descobriu-se que Rachel era filha de pais caucasianos. Algumas das atribuições e da suposta “vivência em lar bi racial” levaram Rachel a assumir papeis de destaque como a de presidente da NAACP, importante instituição que cuida de direitos civis nos EUA, e um papel de conselheira no departamento de estudos africanos de uma universidade, onde falava entre outros assuntos sobre feminismo negro, cultura de raça e história afro-americana.

A caminhada de aceitação da própria sexualidade ou cor da pele passa pelo entendimento através de modelos de comportamento. Compreender melhor o grupo do qual se faz parte é consumir materiais de apoio, livros, filmes, palestras e etc que expliquem seu papel dentro de um grupo e o que te diferencia como minoria do resto da sociedade. Porque, como já bem demostrou a série Dear White People, se você trata de ignorar essas diferenças, em algum ponto a sociedade vai esfregá-las na sua cara. A partir daí se torna mais fácil combater a opressão quando se compreende a dimensão discriminatória em que você se encontra por simplesmente existir.

Ao atingir um papel de modelo num espaço de pessoas negras, Dolezal tomava parte em espaços que não a compreendiam e falava de preconceitos que não vivenciou. Há relatos de alunas mestiças, por exemplo, que já escutaram que a cor de suas peles não era escura o suficiente para que elas se identificassem como negras, por parte de Rachel. Após descoberta a farsa, a norte-americana relatou sofrer ~racismo reverso da comunidade negra por (agora) ser branca.

Outro caso semelhante partiu de Yulia Volkova, uma das t.A.T.u, dupla russa famosa no início dos anos 2000 por se aliar aos direitos LGBT e que pareciam sustentar uma relação amorosa. Em 2014, entretanto, Volkova disse em uma entrevista que não aceitaria um filho gay.

A infiltração de pessoas que não fazem parte de um grupo em transmitir mensagens confusas ou mesmo falsas atrasa o processo de aceitação e entendimento de indivíduos ainda em processo de formação e que tomam por modelos de representatividade artistas ou ativistas que não possuem real compreensão de suas ações e do impacto delas nesses grupos.

A beleza de se servir de uma cultura da qual nunca se fez realmente parte, como se pode notar, é a conveniência em poder abandoná-la quando precisar de uma roupagem nova; retornamos aí ao complexo de identidade de Miley Cyrus, que foi da libertação sexual de volta ao conservadorismo no intervalo de um disco. O capitalismo é feroz, e a verdade é que esperamos de pouquíssimos artistas uma vontade genuína de se unirem a causas que lhe sejam caras, se não for por publicidade ou controvérsia.

Numa sociedade onde felizmente a homofobia e transfobia passam LENTAMENTE a ser mal vistos pela população geral, talvez um novo passo seja necessário no consumo de entretenimento: o boicote a artistas que apresentem visões preconceituosas sobre outros grupos, como são os posicionamentos do Migos.

Em situações como esta, vale sempre lembrar que amigos e relacionamentos amorosos são selecionados por cada individuo e não impostos por situações de convivência obrigatória em sociedade, como o seu chefe que conta piadinhas misóginas. Escolher se relacionar com gente preconceituosa dá tantas pistas sobre o SEU caráter quanto o do seu namorado homofóbico, por exemplo.

Parte da responsabilidade em se tornar mais tolerante acaba se relacionando intimamente com a coerência em escolhas diárias, o que significa que por vezes os discursos precisam se alinhas às ações.

Pelo menos até o próximo disco.