Kevin Smith vai escrever, dirigir e produzir série de Sam & Twitch | Judão

Coadjuvantes que durante algum tempo tiveram título próprio dentro do universo de Todd McFarlane serão as estrelas de uma série procedural sobrenatural na BBC America

“Rapaz, mas fazia tempo que eu não ouvia falar tanto do Kevin Smith quanto nos últimos meses”, um amigo, tão fã da fase ViewAskewverse quanto eu, me disse esse fim de semana. Isso é a mais pura verdade: saiu Batman VS Superman e, claro, a imprensa especializada tratou de perguntar tudo e mais um pouco pro cara, tanto por ele já ter sido roteirista dos gibis da DC quanto por ser amigo de Ben Affleck, o novo Homem-Morcego. Aí, vieram os episódios de Flash e Supergirl que o cara foi convidado a dirigir e, bom, logo Smith tratou de dar todos os detalhes possíveis sobre os bastidores em suas redes sociais. E aí vieram as histórias de O Balconista 3, Barrados no Shopping 2 (que terão seus roteiros divulgados de alguma maneira) e, finalmente, Jay & Silent Bob Reboot.

E vem mais: “Se preparem para Jay & Silent Bob versão policial”, soltou ele no Twitter, bem no final da semana passada, ao anunciar seu mais novo projeto: uma série de TV baseada nos personagens Sam & Twitch, criação de Todd McFarlane dentro das HQs do Spawn, para ser exibida na tela do canal BBC America. A ideia é que seja uma trama policial, mas com enfoque sobrenatural, mostrando as investigações que a dupla de detetives de Nova York faz para desvendar os crimes mais estranhos e bizarros, sempre de alguma forma ligados ao mundo do OCULTO.

“Smith vai escrever, dirigir e ainda será o produtor executivo da série”, afirmou, em comunicado oficial, a presidente da SUCURSAL americana da BBC, Sarah Barnett. “É ao mesmo tempo assustador mas tem uma pitada de humor. É procedural, mas com uma abordagem moderna e contemporânea. Cada episódio é fechado em si embora, claro, existam elementos que os conectem entre eles”.


Talvez você tenha ficado – e com razão – meio cabreiro com este anúncio justamente porque a última vez em que Smith se envolveu neste lance de “dupla de policiais”, o resultado foi o horroroso Tiras em Apuros (2010), com Bruce Willis e Tracy Morgan. Mas calma lá. O ponto aqui é que quando Sam & Twitch ganharam seu título solo, em 1999, eles tiveram uma aclamada passagem de ninguém menos do que Brian Michael Bendis, pré-Marvel, pelos roteiros. Com uma pegada que não apenas deve ter sido uma semente do que ele faria anos mais tarde em Alias, com a Jessica Jones, mas também pode ter sido a inspiração para o excelente título Gotham City Contra o Crime (Gotham Central), de Ed Brubaker e Greg Rucka.

Estamos falando basicamente do Spawn e sua trupe demoníaca apenas como pano de fundo. Nem como coadjuvante o sujeito das correntes surgia. O foco era em dois humanos comuns e corriqueiros, com uma boa dose de humor e diálogos rápidos, inteligentes e cheios de referências. Como Bendis faz com maestria, aliás. Mas adivinha só quem também manda muito bem fazendo este tipo de material? Na mosca.

“Eu acho que, naturalmente, costumo ir sempre para um lado mais sombrio do que a maior parte das pessoas”, afirmou McFarlane, em entrevista ao ComicBook.com. “E eu sei que o Kevin vai colocar um pouco mais do fator diversão neste projeto do que eu conseguiria, porque tenho esta inclinação mórbida. Vai ser legal ver como ele vai encontrar este equilíbrio: se for muito engraçado, talvez as pessoas não levem tão a sério; mas se você faz algo mais sério, pode ter gente pensando ‘tá querendo me deixar deprimido?’. Todo mundo tem uma personalidade diferente quando vai ver séries”, explica o criador dos personagens, apostando que o desafio de Kevin Smith será fazer um programa que agrade tanto o próprio Todd (“poderia ficar horas vendo dramas pesados e sombrios”) quanto sua esposa (“ela odeia”). “Vamos ver se ele consegue atingir estes dois grupos”.

Ainda não ficou claro, no entanto, se o Spawn e/ou qualquer outro personagem de sua mitologia serão, de alguma forma, utilizados ou sequer mencionados na série.

Sam Burke é, digamos, a parte muscular da dupla. Grandalhão, forte, mal-humorado e boca suja, é geralmente quem toma a atitude na hora de distribuir bordoadas. E embora já tenha sido acusado de excesso de violência policial, faz questão de se orgulhar de seu senso do dever e de ser um dos poucos policiais honestos em um distrito infestado por oficiais corruptos. Maximilian Steven Percival “Twitch” Williams II, como você pode imaginar, é o cérebro do time, aquele que essencialmente conecta as pistas e resolve os mistérios, filho de uma longa linhagem de policiais. Baixinho e magrelo, um matemático brilhante que se especializou em trigonometria e usa isso para se tornar um atirador igualmente brilhante, compensando o tamanho com o manejo das pistolas.

Quando surgiram nas páginas de Spawn, Sam & Twitch tinha lá suas tretas com Al Simmons e seus métodos questionáveis – e o anti-herói, por sua vez, não confiava muito na atuação da polícia. Mas, aos poucos, os dois lados da moeda entraram em acordo e passaram a se ajudar mutuamente. Embora elogiado pela crítica, o gibi spin-off da dupla sofreu demais com constantes atrasos na publicação e, quando foi cancelado oficialmente, em 2003, tinha apenas 26 números publicados depois de QUATRO FUCKING ANOS, desde o seu lançamento.

McFarlane conta que, na verdade, o projeto de série tinha sido negociado anteriormente com a NBC, muitos anos antes, mas nunca foi de fato pra frente. Quando os direitos retornaram para a gaveta do autor, ele pareceu não se importar muito porque estava pensando em usar o Twitch em uma outra ideia que tinha na manga... até que surgiu Nena Rodrigue, a gerente de programação original da BBC America e que tinha trabalhado, lá atrás, na NBC, durante a negociação de Sam & Twitch. Ela disse que não tinha se esquecido do projeto, que tava interessada, e acabou que deu tudo certo no final. “Cheguei num ponto que, a não ser que a empresa faça um anúncio oficial, eu não fico inclinado a colocar muito hype em nada”, confessa Todd. Faz sentido.

Antes de ser considerado pela BBC America (depois de uma primeira rodada de nomes que acabaram não agradando a nenhum dos envolvidos), é bom lembrar que Kevin Smith esteve brevemente envolvido na realização de uma OUTRA série de TV, que acabou indo pro buraco. Junto com a MGM, ele seria o responsável por transformar em série o clássico As Aventuras de Buckaroo Banzai, de 1984, a trama alucinada sobre um aventureiro/cirurgião/rock star (vivido por Peter “Robocop” Weller) lutando contra alienígenas da oitava dimensão – é tão esquisito quanto parece mas é muito divertido, creia.

Originalmente programado para ser lançado pela Amazon, Buckaroo Banzai tinha só um impedimento: os direitos estavam nas mãos do diretor e do roteirista do filme original, respectivamente W.D. Richter e Earl Mac Rauch. A MGM entrou com um processo contra os caras, para a surpresa de Smith. “Sem estes dois caras, eu não teria me apaixonado por este projeto. Não quero fazer nada sem que eles estejam envolvidos. Eu tinha esta visão, de levar a obra com a assinatura deles pra TV”, explicou o diretor, em comunicado oficial. “Não estou mais envolvido. Não desejo mal pra nenhuma das partes. Espero que eles cheguem a um acordo e saibam que, se em algum lugar do caminho me quiserem de volta, estarei lá”. Mas até agora, nem sinal.

Como McFarlane parece bastante confiante na relação com a BBC America, é muito provável que Smith não precise ter medo de que nada nem semelhante aconteça. Tanto é que, agora que Sam & Twitch vai acontecer mesmo, o escritor e desenhista afirma não pensar em mais nenhum outro canto do universo de Spawn que queira visitar. A não ser, é claro... “Provavelmente, vou me focar no filme do Spawn”.

Ah, o filme do Spawn. Aquele que Todd McFarlane promete há anos que vai apagar das nossas memórias aquela atrocidade que foi o filme de 1997 (e que, curiosamente, tem ao final dois detetives que prendem Jason Wynn e que se parecem bastante com Sam & Twitch, vejam vocês).

Ainda sem um estúdio por trás, ele já prometeu que não vai ser uma continuação do anterior, mas sim um recomeço, algo novo, algo mais “assustador, sombrio, classificação 18 anos”. O roteiro escrito por ele estaria pronto e passando por um processo de edição, de acordo com o revelado, em setembro do ano passado, num episódio do talk show Geeking Out, da AMC – apresentado por Greg Grunberg e, vejam só vocês, Kevin Smith.

“Não vai ter um cara com uma roupa de borracha. Este vai ser o meu Tubarão”, explica ele, lembrando do filme de Spielberg no qual o monstrengo praticamente só aparece no final. “Vai ter um monstro se movendo nas sombras. Este monstro será algo que eu e você sabemos que é o Spawn. Ele vai se parecer com aquele primeiro filme? Não. Teremos um supervilão que ele vai enfrentar? Não. Ele será o espectro. O fantasma”.

McFarlane, vou te dar um conselho aqui. Tá vendo este vídeo aqui embaixo? É um curta de fã, dirigido por um cara chamado Michael Paris. Certeza que cê já deve ter visto. Então. Vê de novo. Vai por mim. O clima é este.