Kick-Ass: um fio de esperança no sombrio universo de Mark Millar | Judão

Se Kick-Ass conquistou leitores graças à sua violência, bom humor e originalidade, e Kick-Ass 2 conseguiu errar em quase tudo depois, Kick-Ass 3 não só retoma a qualidade do primeiro arco, como entrega um desfecho emocionante, que deve repercutir sobre toda a obra do escritor escocês.

SPOILER! Se não fosse por aquele festival de sangue, boa música, piadas escrotas e muito LULz dirigido pelo sempre foda (mas nunca em sequência) Matthew Vaughn, lá em 2010, que eu acabei vendo em qualidade BUESTA na internet (a censura era +18 e eu, bem, não. :D), jamais teria chegado ao final de Kick-Ass 3, cinco anos depois, com lágrimas nos olhos e um sorriso bobo no rosto.

O último ciclo de histórias sobre o mal-fadado nerd Dave Lizewski, em sua obstinada (mas desastrosa) busca por justiça sob a identidade do herói mascarado Kick-Ass, encerrado nos EUA no ano passado, mas publicado só este ano em um bonito (e caro) encadernado da Panini, transcende os parâmetros impostos pelos outros títulos da série, e não só iguala o primeiro em qualidade, como vai além, adicionando um peso emocional SINGULAR ao desfecho.

Passados os eventos dos dois primeiros gibis, Dave Lizewski vive um momento peculiar em sua vida. Com a Hit-Girl presa, cabe a ele, sozinho, liderar o bando de malucos e esquisitões que compõem a Justiça Eterna, enquanto bola um jeito de tentar tirar a pequena psicopata da cadeia. Nesse meio tempo, no entanto, a Máfia resolve botar pra foder MESMO, e traz de volta, direto do exílio na Sicília, um sádico membro da família Genovese. E, assim, temos terreno pronto pra mais um banho de sangue, cortesia de Mark Millar e John Romita Jr.

Mas diferente do que rolou em Kick-Ass 2, com a típica ultraviolência de Millar sendo simplesmente exagerada e usada de forma estúpida, em Kick-Ass 3 tudo é muito preciso, justificável e delicioso. A arte do Romita, PUTAQUEPARIU, tá demais (mesmo poluidassa como de costume). E o desenvolvimento dos personagens, enfim, chega a algum lugar, com um amadurecimento de Dave e a Hit-Girl completando sua metamorfose no Bátima de saias (e espada). Só que, mesmo com tudo isso, o ponto mais forte da HQ fica por conta, sem sombra de dúvidas, das toneladas de referências à cultura pop.

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Desde reinterpretações de quadros saídos de HQs clássicas, como Batman: Ano Um, passando por referências à série de TV do Homem-Morcego, de 1966, chegando até a um psicólogo careca e de cavanhaque chamado Dr. White (É SÉRIO), Kick-Ass 3 é um deleite nerd. A cada página, quadro, linha de diálogo, uma referência, easter egg, piada, ENFIM, um naco de cultura pop pode estar ali, encrustado. Uma marca estabelecida desde a primeira edição da série que encontra sua versão mais sutil, também, nesse derradeiro capítulo.

“E quanto ao ‘peso emocional’ que você citou antes?”. Olha, ele tá lá, meu querido. Bem mais do que eu poderia imaginar, mas de uma forma muito diferente do que eu esperava. No começo de 2013, em entrevista à SFX Magazine, Millar comentou as possibilidades que o encerramento da série traria, e o que disse não foi lá muito animador. Enraizado no conceito realista de super-heróis surgindo em um mundo como o nosso, o escritor sugeriu um provável destino TREVOSO pro CHUTA-CU. “Tem de haver algo dramático no final. Ele [Dave] não pode fazer isso pro resto da vida”.

Só que se engana bonito quem enxerga qualquer realismo em Kick-Ass, um mundo em que garotinhas de nove anos de idade treinadas pelo pai são capazes de incapacitar e matar toda sorte de bandido treinado, empregando táticas de guerrilha e outras brincadeiras assim. E Millar não só sabe disso, como joga com isso no brilhante encerramento de Kick-Ass 3. Muito mais do que o esperado, fecha-se um ciclo, num arco que denota um planejamento raro nas obras do escocês, famoso por entregar tramas interessantes e super dinâmicas, mas não saber encerrá-las bem, nem mantê-las totalmente coesas, e ainda estabelece, de uma vez por todas, os parâmetros do Millarverse.

Assim, fica estabelecido que Nemesis, Superior, Kingsman – O Serviço Secreto e até, meio que por tabela, O Procurado, todos fazem parte do mesmo universo de Kick-Ass. Um mundo em que, sim, coisas viralizam no YouTube, pessoas se relacionam pela internet, têm ciência da NOSSA cultura pop, assistem a filmes que nós assistimos, transitam levemente entre o que reconhecemos como “real” e “fictício”, mas estão passando por uma escalada “darwinista”, como o próprio Millar gosta de definir, rumo a uma realidade meta-humana (iniciada pelo próprio Dave Lizekswi). E por mais buracos cronológicos que juntar todos esses títulos sob o mesmo teto possa trazer (hey, é Mark Millar), assistir tudo acontecer graças a um moleque nerd deslocado que ousou sonhar em ser herói, é lindo.

No começo de tudo, questionado sobre o motivo de criação da série, Millar citou sua adolescência, ao lado de amigos também fãs de quadrinhos, e uma vontade passageira de tentar viver o que eles liam nas páginas de Batman: Ano Um, na época. “Era patético”, ele definiu. Esse seria o adjetivo perfeito pra nomear as ações de Dave em boa parte da saga que nasceu como um exercício de imaginação no estilo “e se”. Mas em Kick-Ass 3, Millar parece dar sua real mensagem, entregando à Hit-Girl, Dave Leziwski e Kick-Ass (porque quem disse que eles são, necessariamente, a mesma pessoa? ;D) um destino colorido, muito mais idealista e cheio de esperança do que o visto em outras obras do escocês (vide o quase ~unanimemente~ odiado fim de Procurado e o indigesto desfecho de Nemesis).

Afinal, não é de esperança que se tratam os super-heróis?