King Kong tá indo pra Warner tretar com o Godzilla | JUDAO.com.br

E, por trás disso, tem MUITO mais do que fan service — e inclui muitas verdinhas e tretas jurídicas

Era o começo dos anos 60 e, movido pelo projeto pessoal de colocar o King Kong frente a frente com um Monstro de Frankenstein gigante em plena cidade de Nova York, o animador do primeiro longa-metragem do macacão, Willis O’Brien, procurava por intermédio do produtor John Beck um estúdio para bancar a sua ideia armado com os direitos do rei da Ilha da Caveira.

Esbarrando numa série de contratempos judiciais em relação ao nome Frankenstein — que tanto O’Brien quanto Beck ERRONEAMENTE achavam que pertencia à Universal — o cara enventualmente decidiu enviar uma versão inicial de roteiro escrita, à pedidos do produtor, por George Worthington Yates (responsável pelos textos da série de TV do Cavaleiro Solitário) pra fora dos EUA.

Intitulado King Kong vs. Prometheus, o roteiro chegou a Tokyo e chamou a atenção da Toho, que há anos SALIVAVA com a ideia de colocar o Macacão (provavelmente usando um ator vestido COM um macacão, veja só) em um de seus filmes. Decidindo substituir o Frankenstein gigante (!) por um lagarto gigante nuclear chamado Godzilla, o estúdio JOÃOPONÊS acabou fechando um esquemão NA SURDINA com Beck — que não foi queimado (rs), mas sim queimou O’Brien, tirando qualquer crédito do animador pela ideia inicial — pra produzir o duelo.

Assim, em 1962, chegava aos cinemas japoneses King Kong vs. Godzilla, filme importantíssimo pro gênero tokusatsu por introduzir, além do primeiro grande duelo de monstros gigantes da telona, um tom mais GALHOFA na série de filmes do DEUSZILLA, ainda retratado como um grande vilão, e dar início à série de longas que colocaria do Mothra ao Mechagodzilla na sua frente e tornou-se, até hoje, o maior sucesso financeiro da Toho, faturando cerca de US$ 3 milhões de dólares (sim, isso era bastante).

O sucesso financeiro, no Japão e nos EUA — onde o filme foi relançado com novas cenas, trilha sonora e um tom bem mais sério — logo prontificaram planos de uma sequência que, por alguma diabrura de Loki, nunca foram concretizados. Ao menos até agora. Como num sorriso de Odin aos meros fãs mortais que habitam este reino triste de Midgard, tal reencontro épico está se desenhando, mais uma vez, no nosso destino. Só que graças a um processo um pouco mais complexo que só um mostrar de dentes do Pai de Todos.

GOTTA GET BACK IN TIME!

Em 2005, meia década depois de ser fundada por Thomas Tull (pense num BUSINESSMAN com mais pique de Wall St. do que de Hollywood) com US$ 500 milhões arrecadados via um fundo de Private Equity, a Legendary Pictures firmou, com a Warner Bros., uma parceria de produção e distribuição. O esquema era simples: a cada filme lançado pela LENDÁRIA, a Caixa D’Água ficaria com uma taxa de distribuição girando em torno de 8% da bilheteria total da produção. Além, claro, do retorno de qualquer quantia investida por ela na película. O acordo duraria entre oito e nove anos, começando por Batman Begins, chegando ao fim em meados de 2013 (ainda que o último filme da parceria, Interestelar, só tenha sido lançado no ano passado).

Nesse período, a Legendary tornou-se uma respeitada referência em termos de cinema e cultura pop, apostando sempre em temas e ícones considerados ~seguros financeiramente — de Batman e Superman a Onde Habitam os Monstros — projetos mais pessoais de cineastas respeitados (como A Origem, de Christopher Nolan) e ascendentes (como Atração Perigosa, de Ben Affleck). De acordo com a Variety, em 2011, a companhia já valia mais de US$ 1 bilhão de doletas. Mas Tull, like a Gordon Gecko, queria mais.

No mesmo ano, ele começou um processo de busca por mais financiamento, já que, passada a recessão norte-americana, os investidores estavam mais frouxos em relação à injeção de capital em Hollywood. Inicialmente, isso não implicaria em um rompimento com a Warner, nem resultaria numa não-extensão do vínculo entre os estúdios. Mas aí, no meio do caminho, teve um Godzilla.

Com os direitos do monstrão negociados com a Toho em meados de 2009, a Legendary Pictures anunciou, no ano seguinte, que produziria uma nova versão norte-americana do ícone pop japonês. Agora, mais fiel e respeitosa à original, ela seria o contraponto à versão bizarra de Roland Emmerich, em 1998, e deveria chegar às telonas em 2012 — o que, como você bem sabe, não rolou.

Thomas Tull com a galera de A Colina Escarlate na Comic-Con 2015

Thomas Tull com a galera de A Colina Escarlate na Comic-Con 2015

O que acabou rolando, mesmo, foi um estranhamento interno entre o estúdio e a Warner, com os produtores Roy Lee, Dan Lin e Doug Davidson entrando na justiça, em 2013, contra o selo de Tull. E vice-versa. A Legendary queria cortar o envolvimento dos caras, pagando US$ 25,000 pra ficarem de boinha, enquanto eles queriam interditar o lançamento do filme, garantir mais grana e participações em eventuais sequências, spin-offs, remakes...

Não foi nada capaz de impedir o lançamento do filme, dois anos depois. Mas foi uma merda grande. E não a única.

Por uma série de motivos, os filmes da parceria Legendary/Warner vinham ficando muito aquém, financeiramente, do que Tull planejava (coloque aí, pra ter uma noção, Jack, o Caçador de Gigantes, 42, Se Beber Não Case 3 e até O Homem de Aço e Círculo de Fogo).

O próprio Godzilla, considerado um sucesso financeiro, arrecadando US$ 528.7 milhões com um orçamento de US$ 130 milhões, passou longe de ter um retorno digno do que seria de se esperar do “Rei dos Monstros”. Conseguindo, segundo cálculos do Deadline, um lucro real de apenas US$ 92.3 milhões que, subtraídos os 8% de distribuição da Warner, MAIS sua grana investida no filme (US$ 13.1 milhões), acabaram reduzidos a ~míseros US$39.35 milhões.

Por isso, quando em meados de 2013 a Universal Studios sinalizou a possibilidade de fechar um acordo similar ao da Warner, mas com maiores vantagens financeiras, Tull nem esperou a expiração do vínculo com a Warner chegar pra fechar negócio. A partir de 2014, depois de Godzilla, seria o estúdio do globo azul o responsável pela distribuição e co-produção dos longas da Legendary. O que rendeu, de cara, US$ 250 milhões de ações da SoftBank, aumentando o valor do selo pra US$ 3 bilhões. Negócio de ouro.

Mas aí eis que, este ano — coincidentemente, o mesmo no qual aquela treta toda, entre o trio de produtores da Warner e a Legendary chegou ao fim, com um acordo sigiloso —  surge a informação de que Tull, mesmo depois de 5 filmes com a Universal (um deles, o FODEROSAMENTE LUCRATIVO Jurassic World), quer levar uma franquia em potencial de volta à Warner. E justo a do poderoso gorilão, King Kong, com a adaptação “numa linha temporal inédita”, Kong: Skull Island. E tudo na intenção de fazê-lo duelar futuramento com Godzilla. E de nos fazer explodir nossas cabeças. E nos provocar orgasmos nerds. E PUTAQUEPARIU, SIM! :D

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Só que, calma. Lembra as piadinhas envolvendo Tull e Wall Street? Então, entenda: a decisão não é nenhuma boa ação com o fandom, galera. Tá muito mais pra um ato de desespero.

Veja, desde que o contrato com a Warner expirou, só três dos nove filmes lançados pela Legendary conseguiram ultrapassar a marca de US$ 200 milhões arrecadados (com a Warner, foram 17 de 32), com muitos dos que falharam sendo verdadeiras decepções, como O Sétimo Filho, ou filmes independentes sem grande retorno, como Invencível. Além disso, um componente desse trio de sucessos do selo de Tull, Interestelar, foi produzido em parceria com a Warner. Somando isso ao enfraquecimento no número de franquias da Legendary — que viu toda a propriedade DC, responsável por agraciá-la com mais de US$ 3 bilhões no período de vigência com o Estúdio da Caixa D’Água, ficar por lá — fica clara a vontade do estúdio em tentar restabelecer uma franquia monstruosa.

E que melhor jeito de bater de frente com os colossos super-heróicos e seus crossovers infindáveis, universos compartilhados e enredos megalomaníacos que HOJE dominam as telonas, do que repetindo a fórmula com dois dos maiores ícones cinematográficos de SEMPRE? :D

A questão, então, fica por conta da razão pra voltar, digamos que meio com o rabo símio entre as pernas, pra Warner Bros ao invés de simplesmente levar o dino mutante de bafo plásmico pra Universal. Até o momento, a própria Legendary não respondeu ao contato do JUDÃO. Mas uma analisada nuns fatos nos permite ESPECULAR alguns cenários. ;)

De início, o caminho mais fácil seria pensar que, bom, a Warner provavelmente estipulou, tendo em mente o fim de sua parceria com a Legendary, que qualquer sequência do filme de Godzilla com menos Godzilla do mundo TERIA de ser feita sob a sua asa. Só que, diferente do Gorilão — que não tem dono, lembra? — o “Rei dos Monstros” tem. E é na Toho que pode estar a chave do mistério.

Dois anos atrás, quando Lee, Lin e Davison trocaram processinhos com a Legendary, eles o fizeram sob o argumento de que tinham desempenhado um papel fundamental na compra dos direitos de uso do DEUSzilla, sendo “instrumentais” em efetivamente REALIZAR a película. Se os caras tivessem falando merda, dificilmente a treta teria sido resolvida sob panos quentes™.

Mas, como foi, é de se imaginar que não só os caras tenham, de fato, sido importantes na negociata toda, como tenham sido FUNDAMENTAIS na obtenção dos direitos, que acabaram, de uma forma ou outra, vinculados fixamente à Warner AND Legendary. Saca?

E, como o acordo da Universal não pressupõe nenhuma exclusividade do estúdio de Tull com o globo azul (Dead Rising: Wathctower é do Crackle, por exemplo), parece que, de fato, teremos um novo Kong vs. Godzilla muito em breve.

Agora, sentemos, peguemos a pipoca, e torçamos pra Legendary resolver reeditar esse chapéu com Círculo de Fogo. :D