Kingsman: O Círculo Dourado deve muito a John Denver | Judão

No ano em que uma caralhada de filmes usa sons do cara, a continuação inspirada na obra de Mark Millar mostra como fazê-lo do melhor jeito possível, com uma cena que faz valer o ingresso

Das várias (MESMO) músicas selecionadas a dedo por Matthew Vaughn para a GENEROSA trilha sonora de Kingsman: O Círculo Dourado, uma acaba tomando uma proporção única e especial PARA CARALHO. E não, não é de autoria do grande Elton John.

O som em questão é Take Me Home, Country Roads – o hino da música caipira estadunidense, imortalizado na voz de John Denver.

É com esta faixa que o filme começa – e também com ela que embala sua melhor cena. E se a história por trás dessa música não é tão INSANA quando o filme, mais uma vez inspirado pelos quadrinhos de Mark Millar, ao menos não é pobre em REVIRAVOLTAS.

Tudo começou com o casal de cantores Bill Danoff e Taffy Nivert. No final de 1970, durante uma viagem para uma reunião em família no estado de Maryland, Danoff decidiu compor uma pequena balada, pra passar o tempo.

Inspirado pelas longas estradas que percorreu no caminho até lá, quis cantar sobre elas, mas achou lógico falar de sua terra natal, Massachusetts, na hora de ENTOAR sobre sua saudade de casa.

Foi só ao notar que estava perto de regiões nunca antes visitadas que então decidiu exercitar a imaginação e trocar o refrão para “West Virginia”. Também, claro, porque a métrica da música ajudava.

Com Nivert, Danoff tinha uma dupla chamada Fat City, que algum tempo depois calhou de abrir os shows de John Denver, num clube noturno de Washington chamado The Cellar Door. Eram duas semanas de apresentações, ao final das quais, num inesperado acidente, Denver acabou por arrebentar um dedão. Convalescendo nos bastidores do Cellar junto de Danoff e Nivert, o papo furado acabou chegando aos projetos do casal, que resolveu falar sobre Country Roads.

Desde a tal viagem para Maryland, os dois vinham trabalhando na composição, de olho numa pomposa venda para um carinha chamado Johnny Cash. Interessado no que aqueles dois podiam pensar que seria interessante para o todo-poderoso Homem de Preto, Denver logo pediu para ouvir o tal som. E aí...

“No início da madrugada, eles me mostraram o refrão e parte do verso para uma música na qual vinham trabalhando, chamada Country Roads, e eu pirei naquele som”, contou ele ao escritor John Collis, em John Denver: Mother Nature’s Son. “Até de manhã, terminamos de escrever aquela música e eu disse que tínhamos que colocá-la no próximo álbum”.

Dito e feito. Lançada em agosto de 1971, no LP Poems, Prayers & Promises, creditada a “John Denver com Fat City”, a música logo embarcou nas paradas de sucesso. Só que sem TANTO sucesso assim.

Na real, foi necessária mais uma reviravolta para que a faixa enfim atingisse um status de hit. Se arrastando lentamente na Billboard por meses após o lançamento, Country Roads foi quase largada pela sua gravadora, a RCA Records, que ligou para Denver avisando da falta de sucesso. Insistente, ele rebateu: “continuem trabalhando a música” — e com muita razão.

Aos poucos, a canção atingiu o número um do Cash Box Top 100 AND a segunda posição da Billboard Hot 100, perdendo só para a brilhante How Can You Mend a Broken Heart, dos Bee Gees. A partir daí, só sucesso: disco de ouro em agosto de 1971 e a adoção da música como um hino secundário de universidades, colégios, agremiações esportivas e até autoridades de West Virginia. Aliás, desde 2014, Take Me Home, Country Roads é considerada uma música oficial do estado. Por lei. :D

Mas eis que chega 2017 e descobrimos que ela é, também, a música favorita de Merlin – o personagem de Mark Strong na franquia Kingsman (e que é, sem dúvida, a melhor coisa de O Círculo Dourado). O mais curioso: justo num ano em que John Denver tem sido um sucesso recorrente nas telonas.

Este artigo do Vulture vai BEM mais longe, mas aqui vai um resumo: além de Kingsman: O Círculo Dourado, o som de Denver embala, só em 2017, Alien: Covenant, Free Fire, Okja AND Logan Lucky. São filmes BEM diferentes entre eles, mas que deixam clara a vontade dos herdeiros do cara em aumentarem a exposição de sua obra e o fato de que muitos dos grandes diretores de hoje são os outrora XÓVENS de 1970. Tirando Ridley Scott. :D

Só que, mais interessante que isso, é atentar-se aos critérios aplicados pela família do cantor no licenciamento de faixas do cara. Segundo o Vulture: “para garantir o acesso aos direitos a uma música de Denver, os cineastas devem enviar prévias de cenas. Se não ficar claro como a música será usada e futuras perguntas não explicarem, os filhos de Denver e seus representantes também são consultados. O que é mais importante, entretanto, é manter-se alinhado aos ideais de Denver”.

E quais seriam esses ideais? “Ele é lembrado como um filantropo e humanitário, tanto quanto como músico”, a reportagem detalha. Logo, concluímos, uma música de Denver deve ser usada para um fim feliz, pacífico, ou ao menos emotivo.

Como raios, então, ela foi parar no festival do politicamente incorreto e da falta de sutileza que, sabemos, costuma sair da junção de Matthew Vaughn e Mark Millar?

Porque Kingsman: O Círculo Dourado consegue, num filme em que um homem é transformado em hambúrguer e então comido por um terceiro, usar da forma mais “alinhada aos ideais de Denver” a sua música – não só no momento mais emocional de toda a trama, como de forma a retratar puro altruísmo, amizade e coragem. Você pode nem vir a gostar do filme, mas definitivamente vai curtir esse trecho.

Tenho certeza que John Denver curtiria.