Legend of the Five Rings: Rokugan tem um novo imperador | JUDAO.com.br

A Fantasy Flight Games adquire os direitos do combo RPG/card game baseado no mundo dos samurais e promete grandes mudanças para breve

Na última semana, o RPG Legend of the Five Rings foi oficialmente comprado pela Fantasy Flight Games, marcando a sua saída definitiva das mãos da Alderac Entertainment Group (AEG). A Fantasy é conhecida especialmente por seu expertise com card games, trabalhando as adaptações de propriedades como Game of Thrones, Senhor dos Anéis e Call of Cthulhu. No mundo dos RPGs, fizeram três expansões para Star Wars (Age of Rebbelion, Edge of Empire e Force and Destiny), além de serem responsáveis por uma porrada de variações dos populares Warhammer e Warhammer 40.000.

“Somente a possibilidade de poder trabalhar com Legend of the Five Rings é muito empolgante para nós”, afirma Steve Horvath, todo-poderoso da área de comunicação da Fantasy, em comunicado oficial. “O time da AEG tem feito um trabalho maravilhoso criando uma história realmente rica e um universo com uma narrativa profunda com os quais os fãs se conectaram durante vinte anos. Estamos de olhos abertos para este potencial, construindo em cima deste legado para seguir em frente”.

__APOYO__DAVID__.inddJá John Zinser, criador do jogo e atualmente CEO da Alderac Entertainment Group, afirma que Legends será para sempre o seu primeiro amor. “Mas, com o passar dos anos, fomos mudando bastante o foco da nossa empresa e nos afastando destas raízes. Nossos amigos da Fantasy têm uma equipe que tem uma longa história com L5R. Quando decidimos que era hora de encerrar nosso trabalho em Rokugan, sabíamos que eles seriam as melhores escolhas para continuar com este mundo, com esta história, pelos próximos vinte anos”.

De fato, quem acompanha os lançamentos mais recentes da Alderac facilmente vai perceber que, além de jogos de tabuleiro e/ou de cartas com foco “na família”, eles começaram a lançar produtos e mais produtos com clara inspiração nos chamados “jogos sociais” que tomam conta das redes sociais (Oi, Farmville! Olá, Candy Crush!), com a intenção de simplicidade para pegar pelos calcanhares a galera que nem de longe é gamer hardcore ou adepta de dados e planilhas.

O processo de transição começa agora: a expansão Evil Portents para o card game e o livro Atlas of Rokugan serão os últimos lançamentos da AEG. “Com toda a razão, você deve estar se perguntando por que razão gastaria seu dinheiro numa expansão de cards que, bom, já vai estar obsoleta no momento em que chegar às lojas?”, admite, sem frescuras, a equipe da Alderan. “Por que diabos qualquer revendedor se interessaria por isso? Bom, faremos deste um negócio inesquecível para todo mundo, dando virtualmente de graça. Mais detalhes em breve”, afirmam. No mínimo, os materiais de Evil Portents vão ser tão raros que acabarão se tornando itens de colecionador... ;)

Logo depois destes lançamentos e da realização dos eventos/campeonatos previamente programados pela AEG, a franquia Legend of the Five Rings entra num hiato. Vai hibernar e volta a ter um lançamento oficial só em 2017, durante a Gen Con Indy. Trata-se do completo relançamento de Legends – que sairá do conceito de CCG (collectible card game) para o de LCG (living card game), uma espécie de modelo proprietário bastante comum nos lançamentos da Fantasy.

Qual é a mudança? Bom, sai de cena o modelo “vou lá comprar um booster que, tal qual um pacote de figurinhas, tem um monte de cartas randômicas que não sei quais são, enquanto busco aquelas raras e incomuns”. Ao invés das compras às cegas, você vai montar o seu deck favorito a partir de uma única expansão que traz um rigorosamente um exemplar de cada carta. A graça vai estar na habilidade de combiná-las para montar um conjunto perfeito para cada jogo. Apesar da mudança significativa, que afeta não apenas o atual modelo de distribuição de L5R mas também o formato de jogo, a Fantasy garante que o espírito e o impacto emocional permanecem intactos. “Introduzindo esta nova mecânica, esperamos abrir este jogo para uma nova geração de jogadores que se juntam aos samurais veteranos que ainda batalha por Rokugan”.

Por enquanto, ainda não foram informadas as datas de lançamento dos suplementos para RPG propriamente ditos. Além disso, a Fantasy também não deu pistas se pretende dar algum tipo de continuidade aos livros de ficção (Clan Wars e a saga The Four Winds) ou mesmo à única graphic novel já inspirada neste universo, Death at Koten.

Legend
A notícia é o mais recente capítulo de duas décadas de história de Legend. Antes dele, o mundo de fantasia dos RPGs era, via de regra, habitado por personagens saídos dos livros do Tolkien. Elfos pra cá, anões pra lá, orcs enchendo o saco, trolls distribuindo bordoadas, dragões sobrevoando a parada... E tudo naquele clima meio medieval, com cavaleiros, magos, reis, princesas e toda a galera que poderia muito bem estar na Terra-Média se não estivesse, sei lá, em Forgotten Realms.

Mas, em 1995, um quarteto formado por John Zinser, Dave Seay, Dave Williams e John Wick cansou deste mesmice e resolveu mudar o status quo. Criaram uma ambientação diferente. Inspirada no Japão feudal, no bushido (o código de honra dos samurais) e em alguns elementos de culturas orientais como a Mongólia, a China e a Coréia. Nascia aí o império fictício de Rokugan, lar dos personagens do RPG e card game Legend of the Five Rings.

A trama básica girava essencialmente em torno de alguns clãs de samurais (Caranguejo, Garça, Dragão, Leão, Escorpião, Fênix, Unicórnio) que disputavam a graça do Imperador, além de combater as criaturas sombrias das chamadas Shadowlands. A existência dos clãs, cada um com suas características bem particulares, não era a única referência que fazia lembrar do outrora cultuado Vampiro: A Máscara, já que o sistema de jogo simplificado e direto ao ponto, com base dos dados de 10 lados, também tinha um quê da obra de Mark Rein-Hagen (embora saibamos que os fãs mais dedicados de Legends não gostem muito da comparação...).

O título não é por causa de Senhor dos Anéis, não. Na verdade, é referência direta à obra do herói espadachim Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, na qual ele conta experiências de vida envolvendo o kenjutsu, a clássica arte marcial japonesa do combate com espadas. Cada anel representa um elemento da natureza (água, ar, fogo, terra e vácuo – que é a mistura dos outros quatro) e sua ligação com o amadurecimento físico e espiritual que todo samurai deveria passar.

Vale dizer que essa não é a primeira vez que L5R vai parar em outras mãos. Depois do lançamento do card game, ainda em 1995, alguns integrantes originais da Alderac se juntaram com uma empresa especializada em promoção/marketing chamada Isomedia e criaram o Five Rings Publishing Group (FRPG), que chegou a comprar os direitos de propriedade intelectual do jogo. Basicamente, eles cuidariam do lançamento comercial (incluindo o do RPG, que viria logo depois) enquanto a Alderac se preocuparia apenas com o desenvolvimento. Mas... em 1997, a FRPG acabaria sendo comprada pela poderosa Wizards of the Coast, de Dungeons & Dragons.

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Enquanto a Wizards tomou para si a responsabilidade de cuidar do card game, a Alderac continuaria responsável pelo RPG. As coisas permaneceriam mais ou menos estáveis até que, em 1999, a Wizards seria comprada pela Hasbro. E aí começou a zona. A editora resolveu relançar Oriental Adventures, um suplemento já esquecido e fora de linha do antigo Advanced Dungeons & Dragons, mudando totalmente a ambientação para Rokugan e esquecendo o antigo império de Kara-Tur. Ou seja: na prática, tínhamos dois Legends of the Five Rings rolando por aí. O original, com um sistema de regras clássico d10, e aquele dentro do mundinho de D&D, no tradicional esquema d20. Os suplementos que a Wizards lançaria depois, inclusive, teriam opções para os dois sistemas.

Mas, internamente, ficava claro que a Hasbro não estava satisfeita em ter que herdar esta propriedade – e os conflitos entre os grandes chefões e a Wizards, com relação ao destino de Legends, se tornariam frequentes. O caldo entornou de vez quando o Comitê Olímpico dos EUA então entrou com um processo contra a Wizards of the Coast pela utilização do símbolo dos cinco anéis entrelaçados, que era usado em tudo que era lugar tanto nos livros quanto nas cartas. A editora perdeu e teve que mudar seus lançamentos futuros às pressas, além de inventar umas luvas opacas para que os jogadores pudessem usar nas cartas antigas, evitando que, com os versos diferentes, começassem a ser montados baralhos com cartas marcadas.

A coisa toda explodiu e, no começo do anos anos 2000, a Wizards decidiu vender a licença dois anos antes do contrato de licenciamento terminar. As negociações tomaram conta do mercado mas, no fim das contas, a própria Alderac trouxe L5R de volta pra casa, novamente reunindo card game e RPG sob o mesmo guarda-chuva.

Aqui no Brasil, depois de pedidos insistentes dos fãs ao longo dos anos e o anúncio de um financiamento coletivo que nunca aconteceu pela Technofantasy, Legend of the Five Rings finalmente se tornou Lenda dos Cinco Anéis em 2014, quando a editora New Order (responsável por Numenera e Yggdrasill, entre outros títulos) disponibilizou para venda o módulo básico em versão impressa e digital.

ATUALIZADO! A New Order afirma que, aqui no Brasil, nada muda por enquanto com esta migração. Neste final de semana, eles anunciaram até o 1o suplemento de Lenda dos Cinco Anéis, o Inimigos do Império (equivalente a um bestiário), durante o World RPG Fest, realizado em Curitiba. De acordo com Anesio Vargas Junior, editor-chefe da New Order, já existem outros suplementos em processo de tradução. “Pretendemos manter o nosso ritmo pois é um jogo adorado por todos nós aqui na New Order. Foi difícil, mas conseguimos publicá-lo aqui no Brasil. A comunidade do RPG nos pedia insistentemente”, afirma. “Vamos publicar sobre o cenário tudo que for possível até o término de nosso contrato e honrar Rokugan e seus princípios no país”.