Como Legion é bom, putamerda | Judão

Uma das melhores séries já produzidas, ganhadora de (pelo menos) um Emmy (ou a gente esquece essa premiação)

Estranho, esquisito, misterioso, sobrenatural, fatídico, incompreensível.

Anormal, especial, excêntrico, extravagante, invulgar, extraordinário, insólito, singular, exótico, bizarro, incomum, inusitado, desusado, diferente, suspeito, obscuro, inexplicável, enigmático, esquivo, arredio, retraído, remoto, externo, distante, exterior, afastado,

Esquisitório, esdrúxulo, estrambólico, excepcional, estapafúrdio, estapafúrdico, estrambótico, estúrdio, desconhecido, precioso, fino, raro, primoroso, delicado, sofisticado, delicioso, refinado, requintado, desagradável, repulsivo, feio, disforme, pedregoso, escarpado, escabroso, difícil,

Encoberto, secreto, recôndito, sigiloso, oculto, esotérico, místico, esfíngico, cabalístico, apocalíptico, inescrutável, insondável, hermético, profundo, ininteligível, indecifrável, impenetrável, nebuloso, intrigante, indesvendável, desconfiado, cauteloso, dissimulado, escuso, dúbio, duvidoso, suspeitoso,

Espantoso, surpreendente, excessivo, desmedido, demasiado, terrível, transcendente, sobre-humano, Fatal, infortunado, sinistro, trágico, letal, Confuso, abstrato, ilegível.

Todas essas palavras são sinônimos, diretos ou indiretos, de ESTRANHO — uma palavra que tem como um dos seus significados, “admirar-se algo por não achar natural, por perceber algo diferente do que se conhece ou do que seria de se esperar”. Tem também “surpreender-se, assombrar-se em função do desconhecimento” e “não se adaptar, sentir-se incomodado; ter sensação desagradável diante de uma nova realidade”.

Mas se fossem sinônimos ou significados de Legion, não teria problema nenhum. Porque LEGION é exatamente tudo isso: estranho, esquisito, misterioso... E uma das melhores coisas que eu já assisti em termos de seriado de TV.

SPOILER! Se desse pra resumir essa primeira temporada na história que ela conta, seria mais ou menos assim: David Haller, que passou toda a sua vida acreditando que tinha doenças mentais, descobre que elas na realidade eram poderes que ele não sabia que eram poderes e, por consequência, não conseguia controlá-los. Só que depois descobrimos que, sim, ele tinha uma doença e começa uma luta pela sobrevivência.

Mas, olha só: AINDA BEM que não podemos resumir a série só na história que ela conta — e esse, anote aí, é o primeiro sinal do quão boa Legion é.

Pra começar, os tais poderes são, como dizem no season finale, WORLD BREAKER. Não é só um fator de cura ou, sei lá, uma supervelocidade e a capacidade de tirar fogos de artifício do bumbum. David meio que literalmente pode fazer o que quiser, seja entrar na mente das pessoas e destruí-las fisicamente por dentro, seja desafiar as leis da física provando que, sim, dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço.

Legion em momento algum deixou qualquer possibilidade de que a gente só imaginasse como seriam esses poderes e o que eles causam, investindo no que eu só posso chamar de ARTE na hora de mostrar exatamente como essas coisas acontecem — tipo o absoluto silêncio nos minutos finais do Capítulo 5, ou a sequência ao som de Bolero, de Maurice Ravel, no Capítulo 7, com diálogos realizados através de letreiros típicos do cinema mudo.

As coisas, em Legion, acontecem num outro nível.

Pseudo-reviravolta, pseudo-plot twist, a descoberta de que David tinha sim um problema mental trata-se apenas da explicação do que a foda acontecia dentro da cabeça dele — e os significados do cachorrinho King, do Lenny, do Angriest Boy in the World, das memórias apagadas e, principalmente, quem era aquele cara escroto que aparecia a todo momento, o chamado Rei das Sombras.

Uma das poucas relações diretas da série com as histórias em quadrinhos, Ahmal Farouk foi criado por Chris Claremont e John Byrne para Uncanny X-Men #117, publicada em Janeiro de 1979 e foi uma das razões pelas quais o Professor Xavier criou os X-Men, tendo sido o primeiro mutante DO MAL que ele conheceu.

Telepata, Farouk construiu toda uma rede criminosa com seus poderes e, quando conheceu Xavier, no Egito, ofereceu um lugar ao seu lado como uma espécie de Rei do Crime. ÓBVIO que o nosso querido Charlie não aceitou, o que acabou gerando uma batalha mental, vencida por Xavier — o que acabou matando o Rei das Sombras.

Ou, pelo menos, o seu corpo.

No plano astral, o Rei das Sombras continuou vivo, se alimentando do ódio da humanidade e aumentando seus poderes, assumindo as mais diversas formas AND corpos através dos tempos. Em teoria, Ahmal Farouk teria sido o primeiro corpo que ele usou, tendo surgido na verdade “quando os primeiros sonhos apareceram na noite, no primeiro pesadelo”.

De maneira absolutamente genial, o próprio David Haller e seu sotaque britânico original contam uma parte adaptada dessa história para o David Haller perturbado na série, colocando o Rei das Sombras como um NÊMESIS de Charles Xavier em busca de vingança, usando a mente do seu filho para tal.

Seus planos iam bem, até que David vai parar em Summerland e começa a receber um tratamento mais específico. É lá que ele começa a lidar com os seus problemas mentais como poderes, forçando o Rei das Sombras a se manifestar cada vez mais violentamente, chegando ao ponto de quase APAGÁ-LO, tal qual um vírus de computador, até que é, enfim, EXPURGADO — assumindo um outro corpo e, em resumo, se tornando um vilão bastante interessante para a segunda temporada, já confirmada.

A gente vai encontrar seus poderes, ver o que os libera. Mas o que mais importa é que nós te transformamos em um só.

É uma metáfora bastante interessante para o que as doenças mentais podem, de fato, fazer com as pessoas — além dos resultados dos tratamentos. Sim, é isso mesmo: se você não tá se sentindo bem da cabeça, procure um especialista. É IMPORTANTE, filho da mãe. :P

“A primeira temporada de Legion foi uma realização impressionante”, disse Eric Schrier, presidente de produções originais da FX Networks e FX Productions. “Mais do que uma nova série, Legion é uma visão completamente original no gênero de super-heróis. Agradecemos a Noah Hawley [criador da série] por assumir os riscos criativos e quebrar expectativas”.

Era só um comunicado oficial comemorando a renovação da série, que terá dois episódios a mais que a primeira, mas também trata-se de uma verdade. Quer dizer, não acreditamos no “gênero super-heróis”, mas é mesmo uma “visão completamente original” do que se pode fazer com GIBIS.

Convenhamos, a gente lê certas coisas tão absurdas nos quadrinhos — tipo a existência da personificação do CUBO CÓSMICO, que altera realidades transformando o Capitão América em um agente da Hydra — e segue em frente porque, bom, são apenas histórias em quadrinhos. É nessas, inclusive, que a gente diz que, na hora de assistir a um filme qualquer baseado nessas histórias, devemos deixar de lado o que lemos, tendo em mente apenas e tão somente a essência dos personagens e curtir o filme como um filme.

Mas o que Legion conseguiu fazer, sem aparentemente muito esforço, foi transportar para uma série de TV todo esse absurdo quadrinístico. É possível conceber a alteração de realidades, poderes mentais, um cara que vive num cubo de gelo no meio do plano astral, vilões que parasitam as mentes das pessoas... Tudo. Qualquer coisa.

É até bonito, na verdade, ver como David e Syd conseguem ter uma vida teoricamente normal de casal dentro da cabeça deles — e como isso é absolutamente óbvio, da maneira como foi mostrado e construído.

Ou na cena pós-créditos do season finale, David Haller é “sequestrado” por um drone redondo, que aparenta ter um tamanho pouco maior do que uma bola de baseball. E não, o drone não o amarra e sai carregando pela floresta; o scanneia e o guarda INTEIRO dentro de si. É tudo feito de uma maneira que toda a estranheza, toda a esquisitice, vira a mais absoluta NORMALIDADE.

Aliás, esse season finale parece ser normal até demais, mesmo com esse fim, dando a impressão de que ENFIM o uso da palavra “mutante” e os Xs espalhados pelos cenários terão algum significado maior, mas pelo que disse Noah Hawley ao THR, as coisas vão continuar acontecendo a partir da cabeça de David — AINDA BEM.

“Nós queremos manter a pressão”, afirmou o criador da série. “Se você mantém a pressão em alguém que sempre foi instável psicologicamente, isso vai evitar que ele consiga se curar. De verdade, o que ele deveria fazer era ir pra um retiro por um ano, ficar com a natureza, comer três refeições por dia, caminhar pela floresta e aprender a ser uma pessoa da maneira que outras pessoas são. Mas ele não vai ter esse luxo, porque ele já está na próxima crise. Eu acho que isso vai manter a pressão nele. O stress em uma pessoa deslocada pode ser bastante destrutivo”.

Sim, prender um cara num lugar mínimo, longe de tudo que ele começou a chamar de casa, sendo que ele em teoria acabou de se curar de um problema mental que o seguia desde criança me parece ser pressão suficiente. Mas não podemos esquecer o Rei das Sombras, que agora assumiu o corpo de Jemaine Clement — algo que já valeria umas oito temporadas, sozinho.

“Eu gosto da ideia de ter de enfrentar nossos demônios”, contou Hawley. “A ideia na primeira temporada é de que se tratava de uma luta interna pro David, e agora é algo que tem tanto poder sobre ele, psicológica e emocionalmente, transformado em um agente exterior. Vai ser muito complicado ir pra guerra com você mesmo (...). É como um membro fantasma agora, é parte dele. E isso complica as coisas emocional, moral e pessoalmente, essa luta, o que é ainda mais interessante”.

De fato, uma doença mental pode não representar quem você é realmente, mas te transforma. E sendo essa doença uma ENTIDADE com vontade e corpo próprios, te enfrentando cara a cara...

Talvez Legion fique ainda melhor se BINGE WATCHED, o que é uma boa ideia pra se fazer agora que os oito episódios da temporada estão disponíveis. É uma série que exige muito de nós e de nossa concentração, não perdoando qualquer tipo de desvio — o que, óbvio, a diferença de uma semana entre os episódios pode acabar complicando.

Mas... Não deixe de assistir à série. Ela é realmente difícil, cansativa em alguns momentos até, mas o que ela faz, da maneira que faz, é algo que todo e qualquer fã de série de TV, histórias em quadrinhos ou arte e boas histórias tem de acompanhar.

Ou então, sei lá, se você for fã da Aubrey Plaza... Ela é uma ótima razão pra acompanhar a série. Apesar de aparecer relativamente pouco, faz valer todos os seus minutos de tela e, desde já, é a maior (in)justiça do Emmy desse ano. :P