Lembranças encerra a trilogia da Turma da Mônica deixando o coração quentinho | Judão

Se você tiver que ler um único gibi pra acabar o ano com um pouquinho de esperança no que vem pela frente, que seja este

Não tinha melhor jeito para os irmãos Vitor e Lu Cafaggi encerrarem a sua trilogia do L&Ç dentro do selo Graphic MSP — se é que isso significa MESMO um ponto final.

Se Laços e Lições também eram sobre o valor da amizade mas, de alguma forma, tinham uma pegada um pouco mais “triste”, o recém-lançado Lembranças é um sorriso delicioso e iluminado, daquele tipo bem lambuzado de chocolate que arranca uma risada até do adulto mais reclamão.

A grande graça de Lembranças é ser uma história de múltiplas camadas, tal qual grande parte dos filmes da Pixar, por exemplo. Se eu quiser ler este gibi junto com o meu filho de 7 anos, tudo bem, ele vai curtir porque a história está total e completamente ao alcance dele, são os quatro personagens que ele conhece tão bem, é uma trama graciosa, divertida, uma jornada infantil.

Se minha filha, do alto de seus 14 anos, quiser ler, ela já vai sacar um pouco mais, vai até fazer algumas conexões com a própria vida, mesmo que mais curtas, trazendo uma sensação diferente. E eu, perto dos meus 40, me derreto com lembranças, não apenas da Mônica, da Magali, do Cascão e do Cebolinha – são também as minhas próprias.

Difícil lembrar de uma HQ na qual o conceito de “para toda a família” funcionasse assim tão bem. ;)

A grande graça de Turma da Mônica – Lembranças é ser uma história de múltiplas camadas, assim como grande parte dos filmes da Pixar

Neste sentido, os Cafaggi foram simplesmente geniais. Nisso, claro, e numa arte que é um verdadeiro espetáculo, com tons mais quentes do que os dois números anteriores, com mais expressões exageradas, mais caretas, língua pra fora, correria, planos infalíveis, peladas no campinhos, guloseimas e aquele clubinho só dos meninos que, vai, nunca foi mesmo SÓ dos meninos.

Enquanto Vitor tem espaço para se soltar ainda mais e conferir agilidade e um clima festeiro pros personagens, o trabalho da Lu nos flashbacks fica ainda mais sutil, fofo, delicado, criando uma DICOTOMIA que é nada menos do que brilhante.

Esta é uma HQ sobre melhores amigos. Aqueles que a vida separa mas a gente simplesmente não esquece. Estamos falando de uma turminha que, mesmo com a Mônica estudando em uma outra escola, descobriu que se ama e que não queria se desgrudar tão cedo.

A menina do vestidinho vermelho quer a todo custo não apenas voltar a fazer parte da vida da Magali, mas também ser convidada para a cobiçadíssima festa da Carminha Frufru, a maior esnobe do Bairro do Limoeiro. Ela não se encontra na nova escola e tampouco se enxerga tendo espaço na antiga turminha – mas logo ela vai descobrir que este quarteto, formado por uma Magali tentando maneirar nas guloseimas, um Cascão tentando um lugar no time de futebol da molecada local e um Cebolinha todo apaixonadinho pela Xabéu, a irmã do Xaveco que fica de babá da Maria Cebolinha, tem uma química que fez falta pra todos eles.

Tempere tudo isso com o valentão da rua de baixo querendo botar banca agora que a Mônica não está mais tãããão presente e você tem uma história que, ao mesmo tempo em que é 100% Turma da Mônica, é também algo completamente diferente. E isso é maravilhoso. É uma reinterpretação própria, que obviamente tem um tantinho do Valente do Vitor, por exemplo – é homenagem sem ser daquelas reverências que se fazem de joelhos.

Falando nisso, aliás, as referências também são um show à parte e, à sua própria forma, também trabalham em camadas. Dá pra ler, se divertir e se emocionar tranquilamente sem sacar nenhuma delas, sem perceber quem diabos são o Ursinho Bilu, o Capitão Pitoco ou o Bárbaro Kalik. A história tá longe de ser refém delas.

Mas a coisa fica ainda mais saborosa quando você percebe que as caretas da Magali na piscina pra alegrar a melhor amiga são referência a um bonequinho antigo, assim como a brincadeira debaixo da cabana improvisada com lençol não é apenas uma adaptação de Star Wars, mas também do clássico longa animado A Princesa e o Robô, de 1983.

Apesar de ter seus muitos altos e alguns poucos baixos, a coleção Graphic MSP é uma reunião de olhares criativos e diferenciados sobre a obra do Mauricio. Mas é impossível negar que, de todos os estes olhares, talvez o dos Cafaggi tenha sido aquele que melhor entendeu a ESSÊNCIA dos quatro protagonistas deste universo.

Não por acaso é Laços que vai materializar a turminha pela primeira vez em versão live-action. E não por acaso você lê Lembranças e, antes mesmo que o primeiro filme tenha sido lançado, já fica torcendo pro terceiro estar devidamente garantido em algum momento do futuro.