Leonard Cohen é outro gigante que se vai | Judão

Semanas depois de lançar seu disco mais recente, uma espécie de conversa metafísica sobre a morte, cantor parte aos 82 anos

Na época d’A-ARCA, Leandro “Zarko” Fernandes dizia recorrentemente que qualquer filme com pelo menos uma música de Leonard Cohen na trilha tinha chances de ser melhor do que parecia. Fosse o Watchmen com a versão original de Hallelujah (aquela que já teve mais de 200 versões diferentes, incluindo a mais famosa, a de 1994 com Jeff Buckley) na improvável cena de sexo, fosse Assassinos por Natureza com a fascinante, sensual e enigmática Waiting for The Miracle. Tanto faz. A voz poderosa de Cohen, que começou fanhosa e depois foi ganhando tons graves e profundos, sempre ajuda.

Por seis décadas, Cohen rasgou ao mundo sua alma por meio de uma humanidade bastante profunda, falando de sexo, amor, espiritualidade, depressão e conflitos. Sim, conflitos: as guerras sem fim entre os seres humanos eram um de seus assuntos favoritos e foram, até o final, uma questão que o atormentava bastante. Tudo numa mistura de delicadeza, melancolia e fumaça.

Pois é, fumaça mesmo. Escute qualquer canção de Cohen e com certeza você vai sentir cheiro de cigarro. Como num pequeno bar intimista cheio de bêbados querendo afogar as mágoas e filosofar sobre a vida. Este não era mesmo um cara de grandes estádios. Apesar de ter sido, em 2008, agraciado com a sua indução ao Rock n’ Roll Hall of Fame, Leonard Cohen estava mais para trovador do que para rock star. “Eu nasci de terno”, teria dito ele em algumas ocasiões.

Frequentemente colocado no mesmo patamar de Joni Mitchell e Bob Dylan (que já chegou a admitir que Leonard era seu maior rival musical), Cohen era sereno, discreto, não tinha muita intenção de chamar atenção. Na verdade, no começo de sua carreira teve até que lutar contra um medo de palco bastante intenso, devidamente auxiliado por sua aproximação do budismo.

Leonard Cohen

Filho de uma família de classe média, aprendeu a tocar violão/guitarra ainda adolescente, quando formou um grupo de música folk. Mas seu contato com a obra do espanhol Federico Garcia Lorca plantou as sementes daquela vontade de tentar a vida na literatura. E rapaz, ele tentou mesmo, viu? Lançou livros de poesia como Comparemos Mitologias (1956), Flores para Hitler (1964) e Belos Vencidos (1966), além do romance O Jogo Favorito (1963). Mas o lance é que tudo vendia muito pouco. O aspirante a escritor estava frustrado e cansado de ter que trabalhar em empregos que não refletiam o seu sonho. Em 1966, desembarcou em Nova York e meteu as caras na crescente cena do folk-rock que rolava por lá. Não só se descobriu como músico profissional, mas também como compositor, escrevendo para gente como Judy Collins (que gravou o hit Suzanne), James Taylor e Willie Nelson.

Nos anos 1990, foi aos poucos saindo da carreira artística para se dedicar ao lado mais espiritual de sua vida. Chegou a passar algum tempo recluso em um monastério budista mas, em 2005, foi meio que forçado a voltar aos palcos. O motivo? Sua filha, Lorca Cohen, descobriu que a grande amiga e agente de seu pai por muitos anos, Kelley Lynch, teria lhe roubado cerca de US$ 5 milhões de uma poupança destinada à sua aposentadoria. Sem grana, lançou novos álbuns e partiu para fazer shows por aí, sendo “redescoberto” depois que seus discos anteriores foram relançados. Logo, caras como Nick Cave, Bono Vox e Michael Stipe (R.E.M.) saíram dizendo aos quatro cantos o quanto ele era genial e o quanto o mundo precisava ouví-lo. No fim das contas, doce ironia, acabaria então agraciado com o prêmio Príncipe de Astúrias de...Literatura.

Lançou três discos nos últimos quatro anos de sua vida: Old Ideas (2012), Popular Problems (2014) e o recente You Want It Darker (2016), que chegou às lojas e plataformas digitais três semanas antes de sua morte. “Meu pai partiu em paz na sua casa, em Los Angeles, com a certeza de que entregou aquele que foi um de seus grandes discos”, afirmou seu filho Adam, para a revista Rolling Stone. “Ele esteve bastante ativo até seus últimos momentos, com aquele senso de humor único”.

Eu sempre fui muito de dramatizar as coisas. Eu quero viver para sempre

Assim como foi Blackstar para David Bowie, este You Want It Darker soa mesmo como uma espécie de carta de despedida do cantor, versando ainda mais diretamente sobre a morte e refletindo sobre ela do que em outros momentos de sua discografia. “If you are the dealer, let me out of the game”, canta ele, na faixa-título. “I’m ready, my lord”.

Em outubro, o cantor nascido em Quebec, no Canadá, bateu um papo com a revista The New Yorker no qual se dizia “pronto para morrer”. Sem muita frescura para abordar o assunto, contou que deixaria um monte de músicas inacabadas e que sua única preocupação era que a passagem não fosse algo tão desconfortável. “Pra mim, é sobre isso que se trata”. Pouco depois, em um encontro fechado acompanhado pela Billboard, quis diminuir um pouco o tom trágico de suas declarações, dizendo que estava exagerando. “Eu sempre fui muito de dramatizar as coisas. Eu quero viver para sempre”.

Leonard Cohen

Nos anos 60, quando ainda tentava ser apenas um escritor, o cara viveu na Ilha de Hydra, na Grécia, bancado por meros US$ 1.500 de uma poupança mantida por seu pai, que morreu quando ele tinha 9 anos de idade. Lá em terras gregas, ao seu lado, estava a amada Marianne Ihlen, norueguesa que se tornou sua grande musa, a homenageada na canção So Long, Marianne. Leonard se envolveu com a artista plástico Suzanne Elrod (mãe de seus dois filhos) e com a atriz Rebecca De Mornay, entre muitas outras. Mas parecia, de fato, que seu tempo ao lado de Marianne foi aquele que mais deixou marcas. Lembranças. Cicatrizes.

Embora o relacionamento tenha durado apenas até o final daquela década, o cantor sempre deixou claro o quanto ela foi importante em sua vida. Tanto é que este ano, quando descobriu que ela sofria de um câncer terminal, Cohen lhe escreveu uma carta emocionada, que foi depois lida em seu funeral, no mês de julho. “Nossos corpos estão ficando debilitados e eu acho que devo seguir você em breve. Sei que estou tão próximo de você que se você esticar sua mão, creio que pode pegar a minha (…). Você bem sabe que sempre a amei por sua beleza e sabedoria. Só quero lhe desejar uma boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, a verei pelo caminho”.

Quatro meses depois, as mãos deles se tocaram em algum lugar.

Leonard Cohen parte com classe, com estilo, acertando as contas não apenas com seu próprio trabalho, mas também com seu passado. As cortinas de um ano que começou nos tomando um homem do espaço e se encerra nos levando um bardo com os pés bem fincados no chão começam a se fechar.