Liberdade de expressão é uma coisa. Ser um lixo humano é outra completamente diferente. | Judão

Leslie Jones recebe os mais bizarros e assustadores ataques racistas e abandona o Twitter, que afirma ter tomado atitudes contra as contas denunciadas e admite “ter muito trabalho na nossa frente” pra que as coisas fiquem próximas do ideal

Em 2014, o instituto Demos, uma organização britânica voltada ao incentivo do pensamento crítico, soltou um estudo no qual analisou todos os tweets publicados em inglês entre os dias 19 e 27 de novembro de 2012. O objetivo? Mensurar a quantidade de insultos raciais, buscando um conjunto pré-determinado de termos. No total, foram coletados 126.975 tweets com estas palavras ao longo deste período, uma média de 14.100 tweets por dia. Sendo que, deste volume diário, cerca de 10.000 postagens usavam estes termos fora de seu significado original e como uma ofensa racista (como a palavra “crow”, por exemplo, que é “corvo” em português) — e por volta de 2.000 eram dirigidos a uma pessoa em específico e não apenas um comentário ao vento.

Em apenas 9 dias, mais de 10.000 tweets racistas. Isso só em inglês. Bastante, não? Pois é. Uma boa parte desse lixo que circula na rede social do passarinho azul atingiu a atriz Leslie Jones, 48 anos, uma das estrelas do recente Caça-Fantasmas (que, aliás, é legal pra caralho). A única negra do quarteto principal e que, nas últimas horas, foi bombardeada por uma série de textos, fotos e até mesmo vídeos da mais pura e odiosa escrotidão. “Gente, eu não sei como me sentir. Estou paralisada. Na verdade, dormente”, desabafou ela, em sua conta no Twitter. “Tem vídeos, gente. Pessoas que gastaram bastante tempo para vomitar seu ódio”.

Conforme a própria atriz revelou, a onda de mensagens direcionadas a ela a chamavam de “macaca”, fazendo piada com seus lábios, mandando imagens do traseiro de gorilas e orangotangos... Até um perfil fake, que espalha comentários ofensivos sobre homossexuais, chegou a ser criado.

Em 2012, estudo mostrou que cerca de 10000 tweets feitos em inglês, todos os dias, tinham alguma ofensa racista. Desses, 2000 eram direcionados a uma pessoa específica.

Primeiro, Leslie começou com uma ameaça comum, do tipo “gente, parou com estas merdas, vou bloquear vocês”. Mas o volume continuou crescendo. Então, ao invés de bloquear, ela começou a dar RT em algumas destas mensagens. “Vejam no meu feed por conta própria. Vocês não vão acreditar na maldade. É assustador”. E é mesmo. Obviamente não vamos replicar estes tweets aqui, mas eles estão na timeline da própria Leslie, para quem tiver estômago. “Vou expor esta gente para que vocês possam ir atrás deles como eles estão vindo atrás de mim”, desabafou ela. “Não consigo acreditar que esta gente tem mães, tias, avós. A maior parte destes comentários parece vir de crianças ignorantes. Parece ser gente que se odeia muito para sentir este tipo de ódio. Nem nos meus piores dias eu conseguiria destilar tanto ódio assim”.

Sendo aconselhada ao famoso “deixa para lá”, Leslie ficou revoltada. “Parem de dizer para que eu ignore ou que é assim que as coisas são. Não podemos deixar que os ignorantes sejam mais barulhentos. Eu recebo mais amor do que ódio, mas eles são mais barulhentos. Eu queria odiar todos eles, mas não posso porque sei que isso não ajudaria em nada”.

No fim, a atriz soltou um longo e triste desabafo, dividido em uma série de tweets. “Eu costumava me perguntar porque algumas celebridades não tinham contas no Twitter. Agora eu sei. Você não pode ser legal e se comunicar com os fãs porque as pessoas são malucas. Sou mais humana e real do que vocês imaginam. Eu trabalho pra caralho. Não sou diferente de nenhum de vocês, que têm um sonho de fazer o que vocês amam. Nunca disse que sou melhor ou especial. Só tento fazer meu trabalho o melhor que posso. Sinto como se eu estivesse vivendo um inferno pessoal. Não fiz nada para merecer isso”.

Depois de questionar a atuação do próprio Twitter no caso (o que fez com que o CEO da empresa, Jack Dorsey, entrasse em contato com ela), mesmo depois das denúncias de fãs (“Eu entendo a questão da liberdade de expressão, mas devem existir algumas normas para casos que se espalham desta forma”), ela anunciou que está saindo da plataforma. “Chorando e com o coração partido. Tudo isso porque eu fiz um filme. Vocês podem odiar o filme, mas toda a merda que eu recebi hoje... está errado”.

Não é a primeira vez que alguém da indústria do entretenimento de afasta do Twitter graças a este tipo de comportamento. A criadora da série Girls, Lena Dunham, afirmou ao podcast Recode Decode que não olha mais a rede. “Eu tuito, mas faço isso com a ajuda de outra pessoa. Gosto que as pessoas me sigam, não quero cortar isso completamente do meu relacionamento, mas não é mais um espaço seguro para mim”, diz, lembrando que o seu posicionamento feminista parece ter incomodado aqueles de sempre. O mesmo valeu para a apresentadora Sue Perkins, que depois de ter sido mencionada como uma possível substituta para Jeremy Clarkson na apresentação do programa Top Gear, recebeu via Twitter uma série de mensagens sexistas e mesmo ameaças de morte, conforme disse em entrevista ao Telegraph. “Esta manhã, alguém sugeriu que gostaria de me ver queimando até a morte, então acho que vou sumir daqui por um tempinho”.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa do escritório Brasileiro do Twitter para que eles se manifestassem a respeito do assunto, mas alegaram que “o assunto é de fora” e não nos deram um posicionamento até a publicação desta matéria. O Twitter “lá de fora”, porém, divulgou um comunicado oficial, que você confere aí embaixo (atualização em 19 de Julho, 18h31).

Esse tipo de comportamento abusivo não é permitido no Twitter e atitudes foram tomadas em relação as contas reportadas a nós tanto pela Leslie quanto por outros. Nós precisamos que as pessoas denunciem esse tipo de comportamento, mas continuamos investindo pesado em melhorar nossas ferramentas e sistemas pra evitar esse tipo de abuso. Percebemos que ainda temos muito trabalho na nossa frente até que o Twitter esteja onde deve estar em relação a maneira que lidamos com esses problemas.

Em 2012, só prá constá, em uma matéria do Guardian a respeito das ofensas racistas feitas via Twitter aos jogadores de futebol Stan Collymore e Fabrice Muamba, o Twitter se manifestou oficialmente, dizendo que não modera ou filtra conteúdo mas tem uma série de regras para proteger usuários e promover comportamentos adequados. “O Twitter é uma plataforma neutra, mas temos regras sobre o que os usuários podem ou não fazer. Não monitoramos conteúdo pró-ativamente, mas revisamos todos os reports de violações e agimos caso a caso”.

Pelo jeito, o tempo fez bem, ao menos ao assumir que o problema existe e que, embora estejam fazendo o que podem pra lidar da maneira correta com ele, ainda estão longe do ideal.